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Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, já foi falsamente apresentado como dono da Friboi, controlador da Oi e da Petrobras, proprietário de seis fazendas, criador de 500 mil bois e comprador de uma Ferrari “banhada a ouro”. O patrimônio imaginário inclui ainda ilha, iate, jatinho de US$ 50 milhões, participação na farmacêutica Sinovac e uma fortuna pessoal de R$ 954 milhões.
As histórias circulam há quase duas décadas, mudam de valor, empresa, fazenda e país, mas preservam a mesma fórmula: atribuir ao filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma riqueza sem correspondência nos registros públicos. Em um dos episódios mais graves, a acusação falsa não nasceu em uma corrente anônima, mas em uma coluna de Lauro Jardim publicada por O Globo em 2015.
Fábio Luís voltou ao centro do noticiário em 2026 com a abertura de novos inquéritos. Essas investigações são reais, permanecem em andamento e devem ser apuradas. Não constituem, porém, prova de crime nem validam retroativamente as mentiras acumuladas durante anos.
Este levantamento da Fórum reúne as principais alegações contra Lulinha já contrariadas por registros societários, documentos públicos, bancos de dados, identificação das imagens originais, decisões judiciais, checagens jornalísticas ou retratações dos próprios responsáveis pela publicação.
O Globo acusou Fábio Luís com base em delação que não o citava
Em 11 de outubro de 2015, Lauro Jardim publicou em O Globo uma nota com o título “Em delação, Fernando Baiano diz que pagou despesas pessoais de filho de Lula”. O texto afirmava que o lobista havia relatado o pagamento de cerca de R$ 2 milhões em despesas de Fábio Luís.
A informação era falsa. Fernando Baiano não citou Lulinha na delação. Quase um mês depois, o próprio jornal publicou uma correção reconhecendo o erro. Segundo a retratação, Baiano havia dito que José Carlos Bumlai pedira o dinheiro alegando que seria destinado a uma nora de Lula, sem mencionar Fábio Luís.
O problema destacado nesta quarta-feira (5) por Carlito Neto, Dri e Renato Rovai na TV Fórum é que a página original continua disponível. O endereço mantém no título a acusação falsa contra o filho de Lula.
A correção foi acrescentada antes do texto, mas, logo abaixo, permanecem os parágrafos originais. A nota ainda chama o depoimento de “delação explosiva”, coloca Fábio Luís no centro do episódio e repete que Fernando Baiano teria pagado suas despesas.
Na TV Fórum, Carlito Neto chamou atenção para o efeito produzido nas buscas e nos compartilhamentos: quem encontra apenas o título continua recebendo a informação falsa. Em aplicativos como WhatsApp, a chamada original pode aparecer sem que o leitor veja a correção incorporada posteriormente.
Renato Rovai classificou a manutenção da página como um absurdo jornalístico. O procedimento correto, argumentou o diretor da Fórum, seria mudar o título, reescrever o conteúdo e impedir que a falsa associação continuasse aparecendo como resultado de busca.
Fábio Luís acionou judicialmente Lauro Jardim e O Globo. A Justiça considerou a retratação ao analisar o pedido, mas a correção posterior não eliminou o efeito informacional da publicação. Mais de dez anos depois, o título falso continua disponível na página que admite o erro.
Fábio Luís não é dono da Friboi, da JBS ou da Cooperfrigu
A mentira mais conhecida sobre Lulinha o transforma em dono da Friboi ou sócio majoritário da JBS. A alegação foi reciclada repetidamente durante campanhas eleitorais.
Consultas aos registros empresariais e às informações societárias da JBS não apresentam Fábio Luís como controlador, sócio majoritário ou proprietário da empresa. Também não há registro de que suas empresas controlem ações relevantes da companhia.
A Agência Lupa verificou a corrente que apresentava Lulinha como sócio majoritário da JBS, da Petrobras e da Oi e não encontrou sustentação para as alegações nos registros das companhias.
Uma variação substitui a JBS pela Cooperfrigu, frigorífico localizado em Gurupi, no Tocantins. Os registros da empresa também não incluem Lulinha em seu quadro de sócios.
Em fevereiro de 2026, a mentira voltou acompanhada de uma suposta reportagem da revista Veja sobre a “riqueza de Lulinha”. A publicação dizia que ele seria acionista majoritário da JBS, da Oi e da Cooperfrigu, além de proprietário de fazendas e de 500 mil cabeças de gado.
A reportagem atribuída à revista não existia. Era uma reciclagem de textos antigos, reunidos e apresentados como se fossem uma revelação jornalística recente.
Lulinha não é controlador da Petrobras ou dono da Oi
Outra corrente afirma que Fábio Luís seria o maior acionista da Petrobras. A alegação não aparece na composição acionária da estatal, e Lulinha não figura entre os acionistas relevantes informados pela companhia.
No caso da Oi, a desinformação distorce uma operação empresarial que realmente ocorreu. Em 2005, a Telemar, que mais tarde adotou a marca Oi, comprou uma participação minoritária na Gamecorp, empresa da qual Fábio Luís era sócio.
A operação foi investigada e levantou questionamentos sobre os investimentos feitos pela companhia. Isso, entretanto, não transformou Fábio Luís em dono da Oi. A relação societária era inversa: a empresa de telefonia investiu na Gamecorp.
Além da checagem da Lupa sobre Petrobras, JBS e Oi, a AFP Checamos consultou registros empresariais e desmentiu que Lulinha seja sócio da JBS ou da Oi.
As seis fazendas e os 500 mil bois que nunca apareceram
A falsa propriedade da Friboi abriu caminho para um patrimônio rural de proporções continentais. Uma das correntes afirma que Fábio Luís teria seis fazendas que, somadas, chegariam a 1,4 milhão de hectares, com mais de 500 mil cabeças de gado.
Não há registro público que comprove a posse dessas propriedades ou do rebanho. As empresas identificadas nas imagens e os verdadeiros proprietários das áreas negaram qualquer relação com Lulinha.
Em uma das versões, Lula teria comprado por R$ 90 milhões a chamada Fazenda Grendene para entregá-la ao filho. O Aos Fatos identificou a área como a Fazenda Ressaca, pertencente à Agropecuária Grendene, e verificou que a propriedade não era de Fábio Luís.
Outra corrente apresentou a Fazenda Fortaleza, no interior de São Paulo, como uma propriedade comprada por Lulinha por R$ 47 milhões. O Aos Fatos consultou registros empresariais e concluiu que o filho de Lula não era dono da Fazenda Fortaleza.
Vídeos de grandes rebanhos foram reutilizados com a mesma finalidade. A Agência Lupa identificou que uma criação de gado mostrada em vídeo viral não tinha relação com qualquer filho de Lula.
Em outra gravação, uma longa fila de caminhões foi apresentada como o transporte de 40 mil bois de uma fazenda de Lulinha em São Félix do Xingu, no Pará. O Projeto Comprova verificou que o conteúdo era uma montagem de dois vídeos e que os animais mostrados eram ovelhas, não bois.
O conjunto de boatos sobre as propriedades rurais também foi reexaminado pelo Projeto Comprova, que rastreou a origem das imagens e dos registros das fazendas falsamente atribuídas a Lulinha.
Em janeiro de 2024, uma nova publicação afirmou que um rebanho com 40 mil bois pertenceria ao filho do presidente. A Lupa verificou que o vídeo não mostrava animais de uma propriedade de Fábio Luís.
A Ferrari dourada estava em Mônaco e não era de Lulinha
A Ferrari “banhada a ouro” entrou para o repertório em 2017. Um vídeo mostrava dois homens diante de uma Ferrari dourada, na entrada de um hotel de luxo. As primeiras versões diziam que um deles era Fábio Luís e que a cena havia sido gravada no Uruguai.
Depois, o país mudou. A gravação passou a ser apresentada como um flagrante de Lulinha em Dubai, supostamente desfrutando de um automóvel comprado com dinheiro público.
A Agência Lupa rastreou as imagens e verificou que a Ferrari estava diante do Hotel de Paris, em Mônaco. O veículo tinha placa da Arábia Saudita, e o homem mostrado no vídeo não era Fábio Luís.
Não havia qualquer documento que vinculasse o carro ao filho de Lula. A expressão “Ferrari de ouro” descrevia a versão criada pelas publicações, não uma propriedade comprovada nem necessariamente o material utilizado no acabamento do automóvel.
O jatinho de US$ 50 milhões pertencia a empresas dos Estados Unidos
Outro símbolo da fortuna imaginária era um jato Gulfstream III. Publicações afirmavam que a aeronave, supostamente avaliada em US$ 50 milhões, havia sido comprada por Lulinha com dinheiro público.
O histórico do avião mostrava que ele havia pertencido a empresas sediadas nos Estados Unidos. Não existia registro de propriedade em nome de Fábio Luís ou de qualquer integrante da família Lula.
A AFP Checamos consultou a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos, registros empresariais e plataformas de rastreamento de aeronaves e concluiu que o avião não pertencia a Lulinha.
O valor divulgado também era incompatível com o modelo e o ano de fabricação da aeronave. Aviões usados do mesmo tipo eram negociados por valores muito inferiores aos US$ 50 milhões apresentados na corrente.
Iate de empresário, avião digital e carro de videogame
Em 2019, uma montagem reuniu três imagens para apresentar os supostos “brinquedos” do filho de Lula: um iate, um jatinho e um carro de corrida.
O Aos Fatos identificou a origem dos três elementos da montagem. O iate pertencia a um empresário britânico, a imagem do avião havia sido criada digitalmente por um fotógrafo e o automóvel era uma representação do Bugatti Vision Gran Turismo, desenvolvido para um jogo de PlayStation.
A peça, portanto, não continha um único bem comprovadamente ligado a Fábio Luís.
Ilha de R$ 500 milhões teria sido comprada com dinheiro da JBS
Outra publicação afirmou que Lulinha havia comprado de Luciano Huck a Ilha das Palmeiras, em Angra dos Reis, por R$ 500 milhões. O dinheiro, segundo o boato, teria vindo da JBS.
A Agência Lupa consultou a Secretaria do Patrimônio da União e verificou que nenhum dos 17 imóveis existentes na Ilha das Palmeiras estava em nome de Fábio Luís.
A história misturava informações sobre terrenos, antigos proprietários e negócios diferentes para construir uma transação que não ocorreu.
Em outra versão, uma suposta operação da Polícia Federal teria descoberto uma ilha de R$ 4 milhões da família Lula. O Aos Fatos verificou que a imagem usada na publicação mostrava um imóvel da família Sarney no Maranhão e não uma propriedade de Lulinha.
Fábio Luís não comprou 20% da Sinovac
Durante a pandemia de Covid-19, uma mensagem afirmou que uma força-tarefa da Polícia Federal havia descoberto a compra de 20% da farmacêutica chinesa Sinovac por um grupo de brasileiros liderado por Fábio Luís.
A corrente dizia que o investimento de R$ 100 milhões teria passado a valer R$ 1,5 bilhão após o acordo para produção da CoronaVac no Brasil.
A Agência Lupa consultou documentos financeiros da Sinovac, o histórico das ações da companhia e os registros das empresas de Fábio Luís. Não havia indicação da suposta compra nem da participação de Lulinha entre os principais acionistas da farmacêutica.
O falso preso com 32 quilos de cocaína era Adriano da Nóbrega
Em fevereiro de 2023, um falso print de notícia afirmou que Lulinha havia sido preso em Pedro Juan Caballero, no Paraguai, transportando 32 quilos de pasta-base de cocaína.
Não havia registro da prisão nas autoridades paraguaias, brasileiras ou em veículos jornalísticos. A Agência Lupa verificou que a fotografia utilizada na montagem era do ex-policial militar Adriano da Nóbrega, morto na Bahia em 2020.
Além de inventar a ocorrência policial, a peça usou a imagem de outra pessoa para simular a captura de Fábio Luís.
A “delação bomba” dos R$ 317 milhões nunca existiu
Em 2018, durante a campanha presidencial, circulou a informação de que uma “delação bomba” havia revelado que Lulinha embolsara R$ 317 milhões.
A delação mencionada no texto nunca existiu. O número havia sido retirado de um laudo da Polícia Federal sobre a movimentação da Gamecorp entre 2005 e 2016.
O Aos Fatos verificou que os R$ 317 milhões correspondiam às receitas que entraram nas contas da empresa durante 11 anos, e não a um pagamento pessoal recebido por Fábio Luís.
A publicação transformou o faturamento acumulado de uma companhia em suposto dinheiro embolsado por um de seus sócios.
Lulinha não ganhou 640 vezes na loteria
Em 2024, postagens distorceram uma investigação envolvendo o contador João Muniz Leite e sua mulher para afirmar que Fábio Luís havia ganhado 640 prêmios de loteria e recebido cerca de R$ 21 milhões.
A Reuters Fact Check verificou que os prêmios mencionados na investigação eram atribuídos ao contador e à mulher dele, não a Lulinha.
O fato de João Muniz Leite ter prestado serviços a empresas ligadas ao filho de Lula foi utilizado para transferir a ele os prêmios mencionados no inquérito.
Não foram encontrados registros de que Fábio Luís tivesse recebido as centenas de prêmios atribuídos a ele nas legendas falsas.
Montagem colocou Lulinha ao lado do Careca do INSS
Em dezembro de 2025, o deputado federal Capitão Alberto Neto (PL-AM) publicou uma imagem manipulada que colocava Fábio Luís ao lado de Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS.
A Fórum revelou que a fotografia compartilhada pelo parlamentar era uma montagem utilizada para simular um registro dos dois juntos.
Agencia Câmara
A existência de contatos posteriormente relatados pela defesa e a abertura de investigações não transformam a montagem em fotografia verdadeira. Uma imagem adulterada não pode ser apresentada como prova documental de um encontro.
Em março de 2026, a Fórum mostrou que os dados bancários então revelados não apresentavam depósitos atribuídos ao Careca do INSS nas contas de Fábio Luís.
A fortuna de R$ 954 milhões surgiu sem documento
Em julho de 2026, uma imagem voltou a atribuir fortunas sem comprovação à família do presidente. A publicação dizia que Lula possuiria R$ 716 bilhões, Marisa Letícia teria deixado R$ 11 milhões e Fábio Luís acumularia R$ 954 milhões.
A AFP Checamos analisou a publicação e não encontrou qualquer documento que comprovasse o patrimônio de R$ 954 milhões atribuído a Lulinha.
Movimentação bancária não é sinônimo de patrimônio. Somar créditos, débitos, transferências e resgates para apresentá-los como fortuna pessoal é uma distorção contábil.
Inteligência artificial inventou campanha de artistas por Lulinha
Em agosto de 2026, um vídeo produzido com inteligência artificial afirmou que artistas brasileiros haviam lançado uma campanha pública em defesa de Fábio Luís.
O Aos Fatos verificou os perfis e as manifestações públicas dos artistas mostrados e não encontrou registro da suposta campanha. A checagem também identificou erros visuais típicos de conteúdo sintético nas imagens.
A peça mostra uma atualização da indústria de boatos. A velha corrente de WhatsApp sobre fazendas e frigoríficos passou a conviver com vídeos artificialmente produzidos para simular apoios, declarações e acontecimentos.
Investigação real não transforma mentira antiga em verdade
As fake news comprovadas não impedem a investigação de suspeitas concretas. Fábio Luís é alvo de novos inquéritos, e sua defesa contesta as acusações. Cabe às autoridades identificar documentos, fluxos financeiros, eventuais beneficiários e responsabilidades individuais.
Da mesma forma, a abertura de um inquérito não equivale a condenação. Cada procedimento possui objeto próprio e precisa ser analisado com base nas provas efetivamente reunidas.
O cuidado serve para os dois lados: uma investigação verdadeira não deve ser chamada de fake news, mas uma suspeita ainda não comprovada também não pode ser apresentada como fato consumado.
O dono da Friboi, da Petrobras, da Oi, de seis fazendas, de 500 mil bois, de uma ilha, de um jatinho de US$ 50 milhões e de uma Ferrari de ouro continua sendo um personagem fabricado por correntes, montagens, manchetes erradas e vídeos manipulados.
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