Nísia Trindade rebate fake news de Nikolas Ferreira sobre vacinas: “Negacionismo mata”

Nísia Trindade rebate fake news de Nikolas Ferreira sobre vacinas: “Negacionismo mata”
Nísia Trindade e Nikolas Ferreira - Câmara dos Deputados/ Reprodução

A ex-ministra da Saúde Nísia Trindade, candidata a deputada federal pelo PT do Rio de Janeiro, reagiu a um vídeo de Nikolas Ferreira (PL-MG) que resgata teses negacionistas difundidas durante a pandemia.
Durante a crise sanitária, Nísia Trindade foi uma das figuras centrais à frente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) na construção, em parceria com instituições de diversos países, de medidas de prevenção e combate à Covid-19.
“Nikolas Ferreira está mentindo mais uma vez […] Falar de Covid-19 não é uma questão de esquerda ou de direita. É uma questão de ciência, de saúde pública, de defesa da vida. O governo Bolsonaro não só errou gravemente ao recomendar cloroquina e hidroxicloroquina, como tratou de forma desumana a nossa população.”
Em outro momento, Nísia Trindade explicou que participou de uma reunião da comunidade científica internacional quando a Covid-19 ainda não era tratada como uma pandemia. Segundo a ex-ministra, foi nesse encontro que a cloroquina surgiu como uma possibilidade de tratamento. Testes posteriores, no entanto, demonstraram que o medicamento era ineficaz contra a doença.
“Logo se comprovou a ineficácia da cloroquina e, mais do que isso, uma pesquisa brasileira foi pioneira ao apontar que poderia haver efeitos graves, podendo levar até mesmo à morte de pacientes. Isso é uma questão de ciência, isso é uma questão de saúde pública […] O negacionismo científico […] aparece como um projeto da extrema direita no Brasil e em vários países do mundo.”
https://x.com/nisia_trindade/status/2085083273055633848
Diário de Fauci: o que é verdade e o que é mentira sobre as vacinas e a origem da covid-19
O chamado “Diário de Fauci”, conjunto de anotações pessoais feitas pelo médico americano Anthony Fauci durante a pandemia, está gerando uma série de debates nas redes sociais. Seis anos depois do início da covid-19, o documento divulgado por parlamentares dos EUA tem sido utilizado para reacender teorias da conspiração sobre as vacinas de covid-19 e sobre a origem do vírus que causou a pandemia. Mas o que há de verdade nesta história?
A narrativa se espalhou ao redor do mundo, motivando o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) a publicar um vídeo insinuando que os documentos obtidos pelo Senado dos EUA indicariam que Anthony Fauci teria mentido sobre as vacinas, o lockdown, a mortalidade da covid-19 e outros temas.
Antes de iniciar o artigo separando o que é fato do que é mentira sobre os “Diários de Fauci”, é importante fazer dois esclarecimentos.

Fauci era o diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas e serviu como conselheiro de políticas públicas de saúde durante a covid-19. As decisões políticas ficavam a cargo do presidente dos EUA, governadores e prefeitos. A administração de Donald Trump lançou a Operation Warp Speed, que mobilizou bilhões de dólares para acelerar o desenvolvimento, a produção e a aquisição de vacinas contra a covid-19. O governo federal dos EUA financiou diretamente algumas etapas de projetos como o da Moderna e firmou contratos bilionários de compra e produção com empresas como Pfizer/BioNTech.
Neste momento, a região metropolitana de São Paulo enfrenta novos casos de sarampo, e a vacinação de reforço contra a doença foi recomendada pela Secretaria Estadual de Saúde. Nesta segunda-feira (3), também foi iniciada a Campanha Nacional de Multivacinação pelo Ministério da Saúde. Vacine seus filhos, sua família e proteja-se contra doenças evitáveis.

Feitos os esclarecimentos, vamos aos fatos.
O que aconteceu no Senado dos EUA?
Em julho de 2026, Fauci foi convocado ao Senado dos EUA para responder às perguntas dos parlamentares em uma audiência pública. O médico decidiu invocar repetidamente a Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que protege cidadãos contra a autoincriminação.
O fato de Fauci ter se recusado a responder às perguntas é verdadeiro. O que não é correto é tratar a invocação da Quinta Emenda como uma confissão de culpa. Nos Estados Unidos, esse dispositivo constitucional existe justamente para impedir que uma pessoa seja obrigada a produzir involuntariamente provas que possam ser usadas contra ela.
No entanto, em 2024, Fauci já havia sido sabatinado pelos deputados dos EUA na Câmara dos Representantes. Naquela ocasião, ele respondeu durante horas aos parlamentares.
O que revela o Diário de Fauci?
As anotações cobrem acontecimentos ocorridos desde os primeiros meses da pandemia e registram reuniões, telefonemas, discussões sobre a origem do vírus, estimativas sobre sua letalidade e conversas com autoridades políticas.
Uma das passagens mais citadas atualmente envolve a origem do coronavírus. Em janeiro de 2020, Fauci escreveu que o mercado de Wuhan provavelmente não havia sido o local onde ocorreu a primeira transmissão entre animais e humanos, mas poderia ter funcionado como um “amplificador” da disseminação.
A passagem é real, mas o contexto importa. Em uma fala replicada por Nikolas Ferreira, o atual secretário de Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., insinua que Fauci reconheceria a teoria do “vazamento laboratorial”. Isso não é verdadeiro. Nos documentos, ele apenas afirma que não tem certeza sobre a origem do vírus.
A origem do SARS-CoV-2 continua sendo objeto de investigação científica, e não existe uma demonstração definitiva de que ele tenha sido criado ou liberado acidentalmente em um laboratório.
Uma avaliação científica independente da Organização Mundial da Saúde publicada em 2025 concluiu que o peso das evidências disponíveis favorece a hipótese de transmissão zoonótica, embora tenha reconhecido que informações insuficientes impedem o encerramento definitivo de todas as hipóteses.
Os diários de Fauci não mostram, de maneira nenhuma, que o vírus teve origem em laboratórios. Apenas mostram que um profissional de saúde em específico tinha descrenças sobre a origem do vírus no mercado de Wuhan, na China.
E as vacinas?
Em 2021, Fauci escreveu que tinha uma certa preocupação com as vacinas porque acreditava que, dentro de um ano, seriam necessárias doses de reforço. Isso tem sido utilizado por grupos antivax como prova de que as vacinas não funcionavam.
Na realidade, as doses de reforço são comuns em diversas campanhas de vacinação. O Brasil, que não tinha nenhuma conexão com as políticas de saúde recomendadas por Anthony Fauci, adotou a estratégia de doses de reforço logo depois do início da vacinação.
Em setembro de 2021, o Ministério da Saúde, sob o comando de Jair Bolsonaro, anunciou que iria adotar a dose de reforço em grupos especiais — imunossuprimidos e idosos — e, em novembro do mesmo ano, recomendou o reforço para todos os adultos com mais de 18 anos.
Outro aspecto importante: não existiu uma “vacina de Fauci”. Diferentes grupos científicos desenvolveram vacinas utilizando plataformas distintas. Pfizer/BioNTech, Moderna, AstraZeneca/Oxford, Janssen, Sinopharm, Sinovac, Bharat e Novavax estão entre os fabricantes cujas vacinas foram utilizadas ou avaliadas internacionalmente.
Segundo um estudo do The Lancet, as vacinas de covid-19 evitaram cerca de 19,8 milhões de mortes, de um potencial de 31,4 milhões de óbitos, com base em dados de 185 países e territórios, entre dezembro de 2020 e 2021. Ou seja, segundo esse estudo, as vacinas reduziram pela metade o número potencial de mortes globais nesse período. Quase 80% dessas mortes foram evitadas por proteção direta da vacinação, enquanto 4,3 milhões foram evitadas por proteção indireta (redução da transmissão).
Um estudo mais recente e de longo prazo, publicado em julho de 2025 na JAMA Health Forum (Stanford e Universidade de Roma), estimou o impacto entre 2020 e 2024: a vacinação contra a covid-19 salvou 2,5 milhões de vidas no mundo, somando 15 milhões de anos de vida ganhos, com a maior parte dos benefícios concentrada em pessoas com 60 anos ou mais. Entre os óbitos evitados, 57% ocorreram durante o período de predominância da Ômicron — número menor que o do primeiro estudo porque olha para um período diferente (já com imunidade populacional mais alta e variantes menos letais) e usa metodologia distinta.
As evidências científicas são esmagadoramente favoráveis à eficácia das vacinas na redução de doença grave e morte.
Qual é a conclusão?
O caso do Diário de Fauci é um exemplo particularmente claro de como funciona a desinformação política.
Em muitos casos, o conteúdo original é verdadeiro. O problema aparece no salto entre o fato e a conclusão.
“Fauci questionou a origem do vírus” transforma-se em “Fauci sabia que o vírus escapou de um laboratório”.
“As vacinas podem perder eficácia contra infecção diante de novas variantes” transforma-se em “as vacinas não funcionavam”.
Esse mecanismo é particularmente eficiente porque não depende necessariamente de inventar uma informação. Basta retirar um fato de seu contexto e encaixá-lo em uma narrativa política previamente estabelecida.
E é importante reforçar: Anthony Fauci não era um tomador de decisões diretas. Era um conselheiro de um governo específico em meio a uma pandemia global.
A crise da covid-19 envolveu governos nacionais, estados, municípios, universidades, hospitais, agências reguladoras, organizações internacionais e milhões de profissionais de saúde. As medidas de isolamento foram adotadas por países que não estavam sob a autoridade de Fauci. As vacinas foram desenvolvidas por grupos científicos espalhados por diferentes países. E as decisões políticas foram tomadas por governos com interesses e estratégias distintas.
Não podemos esquecer: mais de 700 mil brasileiros morreram durante a pandemia de covid-19. Um estudo publicado na Revista Brasileira de Epidemiologia em 2023 modelou cenários alternativos de vacinação e de intervenções não farmacológicas entre março de 2020 e junho de 2022.
O modelo estimou que 391.647 mortes por covid-19 poderiam ter sido evitadas caso o Brasil tivesse combinado antecipação da vacinação, doses adicionais e intervenções não farmacológicas mais eficazes. O estudo também estimou que, se 80% da população tivesse sido vacinada até maio de 2021, cerca de 59,83% das mortes teriam sido evitadas.
Seis anos depois do início da pandemia de covid-19, vários questionamentos podem ser feitos sobre as políticas públicas implementadas. Mas um depoimento e as anotações de trabalho de um médico dos EUA não servem para questionar os estudos que comprovaram a eficácia das vacinas contra a pandemia globalmente.

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