Alfredo Gaspar como vice de Flávio Bolsonaro gera crise e aumenta isolamento

Alfredo Gaspar como vice de Flávio Bolsonaro gera crise e aumenta isolamento
- Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar ( Vittor Sales/Divulgação)

O anúncio de Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), formando uma chapa “puro-sangue” do PL após negociações frustradas com partidos do Centrão, gerou uma nova crise e aumentou o isolamento da candidatura de ultradireita.
Com aval de Jair Bolsonaro (PL), a escolha de Gaspar, parlamentar de primeiro mandato e ex-promotor de Justiça, ocorreu no último dia do prazo para as convenções partidárias e surpreendeu por revelar a escassez de alternativas do bolsonarismo. No mesmo dia, a Polícia Federal recebeu um pedido de diligências da Procuradoria-Geral da República (PGR) sobre a denúncia de suposto estupro de vulnerável contra o agora novo vice na chapa do clã Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro chegou ao último dia do prazo para convenções partidárias sem um vice confirmado e sem alianças fechadas. PP, União Brasil, Republicanos e até o Podemos recusaram compor a chapa, preferindo preservar espaço nas disputas estaduais e para o Congresso. O resultado foi uma chapa “puro-sangue” do PL, expressão que, no contexto eleitoral brasileiro, sinaliza não uma escolha ideológica deliberada, mas a ausência de parceiros dispostos a embarcar na candidatura.
O nome de Alfredo Gaspar passou a ser cogitado já na madrugada da quarta-feira (5), menos de 24 horas após lançar sua candidatura ao Senado em Alagoas. Até a véspera, o próprio Flávio Bolsonaro declarava publicamente preferir uma mulher para o posto, e nomes como os da senadora Tereza Cristina (PP-MS) e da ex-presidente da Caixa, Daniella Marques Consentino (Republicanos) circulavam nas especulações.
Denúncias e controvérsias de Alfredo Gaspar
No mesmo dia em que Flávio Bolsonaro anunciava seu vice, a Polícia Federal recebia um pedido de diligências da Procuradoria-Geral da República sobre uma denúncia de suposto estupro de vulnerável contra Gaspar.
A PGR pediu as diligências antes de se posicionar sobre a abertura de inquérito, e o procurador-geral Paulo Gonet só deve emitir parecer após receber os resultados da PF. O ministro Gilmar Mendes, do STF, que recebeu o caso, indicou a interlocutores que aguardará a manifestação da PGR antes de decidir sobre a abertura do inquérito.
A denúncia havia sido apresentada em 27 de março pelos deputados Lindbergh Farias (PT-RJ) e Soraya Thronicke (PSB-MS), no último dia de funcionamento da CPMI do INSS, da qual Gaspar era relator. Gaspar nega as acusações, e até o momento não foram divulgadas provas contra ele.
Em paralelo, a PGR arquivou um pedido de investigação apresentado por Lindbergh Farias em abril de 2026, com base em relatório do Tribunal de Contas da União que apontou problemas nas chamadas “emendas Pix” de autoria de Gaspar, destinadas ao município de São José da Laje (AL). A PGR justificou o arquivamento pela “ausência de indícios concretos da participação do representado nas possíveis irregularidades”, nas palavras do vice-procurador-geral Hindenburgo Chateaubriand Filho.
“Não há, no caso, providências a serem adotadas pela Procuradoria-Geral da República, ante a ausência de indícios concretos da participação do representado nas possíveis irregularidades.”
O arquivamento sobre as emendas não encerra o quadro de vulnerabilidades jurídicas do novo vice. A denúncia de estupro segue em curso, e sua tramitação no STF representa um risco concreto para a campanha ao longo dos meses de disputa eleitoral.
Implicações políticas e o tabuleiro eleitoral
A lógica central da escolha de Gaspar é ofensiva: explorar o escândalo do INSS e as investigações contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula. Gaspar foi relator da CPMI do INSS e seu relatório final, rejeitado pela comissão, pedia mais de 200 indiciamentos, incluindo a prisão preventiva de Lulinha. Tê-lo na chapa mantém o tema vivo na campanha e fornece a Flávio Bolsonaro um interlocutor com credencial institucional para atacar o governo no tema. O problema é que essa aposta vem acompanhada de um passivo: a denúncia de estupro contra o próprio vice.
A ausência de uma mulher na chapa é lida como um risco calculado, não uma descuido. Aliados de Flávio sustentam que Michelle Bolsonaro, como principal cabo eleitoral da campanha, compensaria a lacuna junto ao eleitorado feminino. Mas, a decisão evidencia a pouca importância atribuída à sinalização para o eleitorado feminino, num contexto em que o bolsonarismo já enfrenta dificuldades históricas com esse segmento.
Por fim, a saída de Gaspar da disputa pelo Senado em Alagoas redistribuiu o tabuleiro político local: ele disputava uma das duas vagas com o senador Renan Calheiros (MDB-AL) e o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), arquirrivais que agora têm o caminho menos obstruído. A escolha do vice de Flávio, portanto, beneficiou simultaneamente dois dos caciques mais influentes da política nacional, num arranjo que diz muito sobre as trocas que sustentam a composição da chapa.

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