FLIPEI: Rovai defende papel da mídia progressista na construção de um projeto de país em mesa com veículos independentes

FLIPEI: Rovai defende papel da mídia progressista na construção de um projeto de país em mesa com veículos independentes
- Foto: Pedro Ivo/Flipei

O fortalecimento da mídia progressista precisa fazer parte da construção de um projeto de país e não pode ser lembrado apenas nos momentos de crise política. A avaliação foi feita por Renato Rovai, fundador e diretor de Redação da Revista Fórum, durante a mesa “Desafios do jornalismo independente e progressista”, realizada nesta quinta-feira (6), na Flipei, em São Paulo.
A conversa aconteceu na Zona Bate-Cabeça, dentro do Ônibus Cultural estacionado em frente ao Espaço Cultural Elza Soares,  e reuniu ainda Florestan Fernandes Jr., editor do Brasil 247; Kiko Nogueira, diretor do Diário do Centro do Mundo; Monyse Ravena, coordenadora de jornalismo do Brasil de Fato; e Luis Nassif, fundador e diretor do Jornal GGN. A mediação foi de Dri Delorenzo, presidente da Associação Brasileira de Mídia Digital (ABMD) e editora executiva da Fórum.
Ao abrir sua participação, Rovai relacionou a própria história da Fórum à trajetória da comunicação independente brasileira. Criada em 2001, durante o primeiro Fórum Social Mundial, a publicação completa 25 anos em 2026.
“A gente nasceu com o quê? Com o apoio do movimento social, no evento de movimento social. Então essa é a nossa história”, afirmou.
Segundo Rovai, uma das dificuldades históricas dos veículos progressistas é conseguir financiamento e reconhecimento até mesmo dentro do campo político com o qual dialogam. Ele lembrou que essas mídias atravessaram diferentes governos e continuaram atuando durante os períodos mais críticos da democracia brasileira.
O diretor da Fórum destacou especialmente o período entre o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e o fim do governo Jair Bolsonaro, em 2022. Para ele, os veículos independentes integraram, ao lado de organizações da sociedade civil, a resistência democrática que permitiu ao país atravessar aquele período.
Rovai também chamou a atenção para uma mudança importante no ecossistema de comunicação. Se antes a disputa ocorria principalmente entre a mídia tradicional e os veículos progressistas, hoje existe um terceiro polo formado por uma estrutura midiática de direita e extrema direita, com veículos de grande audiência.
Nesse cenário, rejeitou a tentativa de colocar o jornalismo progressista no mesmo campo das redes de desinformação.
“Nós somos uma mídia séria, que faz jornalismo, que não planta fake news”, afirmou.
Rovai reconheceu que os veículos progressistas possuem posição política, mas argumentou que isso não elimina o compromisso jornalístico. Para ele, uma das principais diferenças está na forma como essas mídias enfrentam temas econômicos, direitos sociais e a lógica neoliberal.
Ao recuperar a história dessa atuação, Rovai voltou a 2005, durante a crise do mensalão, período que classificou como uma tentativa de retirar Lula da Presidência. Ele relatou uma conversa que teve com Ciro Gomes, então ministro, segundo a qual setores políticos e da mídia discutiram diferentes possibilidades para viabilizar o impeachment.
Segundo Rovai, a sucessão presidencial aparecia como um dos obstáculos à articulação. Após a hipótese de impeachment de Lula esbarrar na possibilidade de José Alencar assumir o cargo, teria sido discutida uma saída para atingir a chapa inteira. Mais tarde, com Severino Cavalcanti na Presidência da Câmara e, portanto, na linha sucessória, a queda do deputado também teria entrado nesse processo político. O jornalista ressaltou que o episódio é pouco recuperado atualmente e defendeu que a atuação da mídia progressista naquele momento foi decisiva para oferecer um contraponto.
“Ali nós, nossos blogs, fomos fundamentais e éramos só nós na resistência daquele movimento do mensalão. O Lula só contou com a mídia progressista”, afirmou Rovai, ao recordar ainda a atuação de Nassif no confronto jornalístico com a revista Veja naquele período.
O desafio, afirmou, é transformar essa força em capacidade de intervenção no debate nacional.
“As nossas mídias deveriam conseguir também fazer parte da construção de um projeto de país”, defendeu.
Sustentabilidade ameaça veículos
A preocupação com o financiamento atravessou praticamente todas as intervenções.
Florestan Fernandes Jr. afirmou que “a mídia independente talvez enfrente hoje dificuldades ainda maiores do que as vividas nos quatro anos do Bolsonaro”. Para ele, depois de um período marcado pela defesa da democracia, o desafio passou a ser garantir condições econômicas para que os veículos continuem funcionando.
O jornalista criticou a relação do governo com essas mídias e cobrou maior utilização da comunicação pública para produzir conteúdos de qualidade que possam alimentar veículos sem estrutura financeira para manter grandes equipes de reportagem.
Kiko Nogueira seguiu na mesma direção. Para o diretor do DCM, a falta de recursos reduz a capacidade de investigar, viajar, produzir grandes reportagens e disputar narrativas construídas por grupos com estruturas financeiras muito superiores.
Monyse Ravena classificou a sustentabilidade como um dos problemas mais antigos e ainda não resolvidos pelo jornalismo independente. Segundo ela, assinaturas, financiamento coletivo, eventos e publicidade funcionam de maneiras diferentes para cada audiência, mas ainda não produziram um modelo capaz de garantir estabilidade ao conjunto dos veículos.
Inteligência artificial
Outro desafio abordado foi a transformação tecnológica. Monyse afirmou que a incorporação da inteligência artificial aos mecanismos de busca já atingiu a audiência dos sites jornalísticos.
Para ela, no entanto, simplesmente rejeitar a tecnologia não é uma alternativa.
“A gente não vai ter mais um mundo sem inteligência artificial”, afirmou.
A questão, segundo Monyse, passa a ser como os veículos progressistas poderão se apropriar dessas ferramentas e utilizá-las na produção jornalística sem abandonar seus princípios.
Florestan também avaliou que a IA é um caminho sem volta, mas alertou para o risco de aumento do desemprego nas redações, especialmente se grandes empresas utilizarem a tecnologia principalmente para substituir profissionais.
Nassif, por sua vez, fez uma retrospectiva das transformações econômicas da imprensa brasileira e destacou como a internet destruiu parte importante do antigo modelo de negócios dos jornais. Também alertou para outro risco: a polarização fazer com que veículos passem a produzir apenas aquilo que suas próprias audiências esperam ouvir, reduzindo a autonomia jornalística.
Ao encerrar sua participação, Rovai defendeu que a resposta dos veículos independentes passe justamente pela construção conjunta.
“O caminho é jogar coletivamente”, afirmou.

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