Anos antes de uma empresa ligada a Alexandre Bueno Camargo receber R$ 207 mil da cota parlamentar de Carlos Jordy (PL-RJ), o empresário foi indiciado em uma investigação no Rio Grande do Sul sob suspeita de peculato e associação criminosa em um caso que apurava o recolhimento de parte dos salários de servidoras públicas. Nos relatos reunidos durante a investigação, Alexandre foi apontado como a pessoa que buscava pessoalmente valores.
ENTENDA:
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O episódio ocorreu em Bagé (RS) e integra o histórico reconstruído pela Fórum durante o rastreamento dos personagens relacionados às empresas que posteriormente passaram a receber recursos da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar em Brasília.
O desfecho precisa ser registrado: Alexandre foi posteriormente absolvido pela Justiça, que considerou insuficiente o conjunto probatório para condená-lo.
O histórico volta a ganhar interesse público porque, anos depois, Alexandre aparece ligado à AB Comunicação Digital, que recebeu R$ 207 mil da cota parlamentar de Carlos Jordy.
Dos gabinetes de Bagé aos CNPJs de Brasília
Alexandre Bueno Camargo ocupou diferentes funções públicas em Bagé, entre elas cargos de chefe de gabinete, assessor técnico e diretor da TV Câmara.
Seu nome aparece em investigações produzidas no contexto político e eleitoral do município ao lado de Bruno Lara Martins, personagem que anos mais tarde também apareceria no núcleo de empresas de comunicação identificado nos pagamentos de deputados federais.
No Inquérito nº 79-88.2016.6.21.0142, da Procuradoria Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul, relatórios produzidos a partir de material apreendido registraram Alexandre e Bruno durante atividades investigadas no contexto do uso da estrutura política local.
Uma consulta processual relacionada ao núcleo de Bagé registra ainda ação do Ministério Público do Rio Grande do Sul envolvendo Alexandre Bueno Camargo e outros.
O suspeito de recolher o dinheiro
Um despacho da Polícia Federal, de nº 1244/2016-DPF/BGE/RS, registrou o indiciamento de Alexandre sob suspeita de peculato e associação criminosa.
A investigação reuniu relatos de ex-servidoras sobre a suposta devolução de parte dos salários recebidos.
Jane Morales e Dejane Machado aparecem entre as pessoas que prestaram depoimentos sobre o funcionamento do sistema investigado.
Os relatos mencionavam devolução de parte dos vencimentos e, em um dos episódios descritos, um empréstimo bancário de R$ 10 mil cujo dinheiro teria sido repassado ao núcleo político.
Alexandre foi apontado no curso da investigação como a pessoa que comparecia a locais de trabalho e residências para recolher valores.
É desse conjunto de depoimentos que surge a descrição de seu papel como uma espécie de “cobrador” do esquema investigado.
Alexandre foi absolvido
O indiciamento não resultou em condenação.
Na fase judicial, Alexandre acabou absolvido. A Justiça entendeu que contradições existentes nos depoimentos e as provas reunidas não eram suficientes para sustentar uma condenação criminal.
Portanto, houve investigação, indiciamento e acusações formalizadas, mas não houve condenação de Alexandre por esses fatos.
Anos depois, R$ 207 mil da cota de Jordy
O nome de Alexandre reaparece anos depois em outra ponta do financiamento público.
A AB Comunicação Digital, ligada ao empresário, recebeu R$ 207 mil em despesas atribuídas à cota parlamentar de Carlos Jordy.
A relação com o entorno de Jordy ultrapassou as notas fiscais. Em junho de 2025, Alexandre integrou a missão oficial ao Marajó e foi identificado em relatório do Senado como “assessor do deputado Carlos Jordy”, apesar de não constar na relação funcional pública do gabinete.
Fórum questionou Jordy sobre sua relação com Alexandre
Antes da publicação, a Fórum procurou formalmente Carlos Jordy em 5 de agosto de 2026 e perguntou, entre outros pontos, qual era a relação do deputado e de seu gabinete com Alexandre Bueno Camargo.
O gabinete foi questionado sobre os R$ 331,9 mil destinados à AB Comunicação Digital e ao Instituto Mais Cidades, sobre o processo de seleção das empresas, a comprovação dos serviços e a relação mantida com Alexandre.
A reportagem perguntou ainda se Alexandre havia sido nomeado, contratado ou credenciado formalmente como assessor de Jordy em algum momento e por que o relatório oficial da viagem ao Marajó o identificou nessa condição sem que houvesse registro funcional público correspondente.
Até a conclusão desta reportagem, Carlos Jordy não havia respondido aos questionamentos encaminhados pela Fórum.
O histórico de Bagé não demonstra, por si só, irregularidade nas contratações posteriores. Ele compõe, porém, a trajetória de um personagem que passou por investigação e indiciamento no Rio Grande do Sul, foi absolvido pela Justiça e anos depois reapareceu ligado a empresas abastecidas por verbas parlamentares em Brasília — incluindo R$ 207 mil provenientes apenas da cota de Carlos Jordy.
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