“Volta para o Ceará”: Vereadora bolsonarista Tathiana Guzella vira alvo do MP por racismo no Paraná

“Volta para o Ceará”: Vereadora bolsonarista Tathiana Guzella vira alvo do MP por racismo no Paraná
Tathiana Guzella; Racismo - A vereadora do PL de Curitiba, Tathiana Guzella. Foto: Rodrigo Fonseca/CMC

Tathiana Guzella (PL), vereadora de Curitiba, foi denunciada pelo Ministério Público do Paraná (MPPR) pelo crime de racismo pouco mais de um dia depois de mandar a vereadora Vanda de Assis (PT) “voltar pro Ceará” em pleno plenário da Câmara Municipal. Além da condenação criminal, a Promotoria pede R$ 97.260 em indenizações por danos morais individuais e coletivos.
A denúncia, assinada pelo promotor de Justiça Odoné Serrano Júnior, foi juntada na quinta-feira (6) ao processo 0009923-82.2026.8.16.0013. O MPPR acusa Tathiana de praticar discriminação e preconceito por procedência nacional contra Vanda e enquadra a conduta no artigo 20 da Lei 7.716/1989, a Lei do Racismo.
O caso foi revelado pela Fórum na quarta-feira (5), logo após o ataque de Tathiana a Vanda durante a sessão. Na ocasião, a vereadora do PL reagiu a uma fala da petista questionando por que ela não retornava ao Ceará, estado onde nasceu.
MPPR acusa Tathiana Guzella de racismo pelo “volta pro Ceará”
A denúncia transforma em acusação criminal formal o episódio que, um dia antes, já havia provocado reação pela carga xenofóbica da fala. Segundo o documento ao qual a Fórum teve acesso, Tathiana dirigiu-se a Vanda por volta das 10h09 de 5 de agosto e perguntou inicialmente se a colega era de Campos Sales, no Ceará.
Na sequência, passou a relacionar a origem da vereadora às posições políticas defendidas por ela.
“Por que que a senhora não volta pro Ceará? Por que que a senhora veio pra cá?”
Depois, Tathiana afirmou que Vanda havia nascido no Ceará, mas tinha ido a Curitiba “encher o saco aqui”.
Para o Ministério Público, não se tratou apenas de uma troca de provocações políticas. O promotor afirma que Tathiana agiu com intenção de “ofender e humilhar” Vanda e, ao mesmo tempo, de “segregar e menosprezar” uma parcela indeterminada da população cearense.
É justamente esse alcance coletivo da fala que sustenta o enquadramento escolhido pelo MPPR. A denúncia aponta o crime previsto no artigo 20 da Lei 7.716/1989, que alcança discriminação ou preconceito por raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.
A gravação da própria Câmara de Curitiba é um dos elementos citados na peça. O Ministério Público registra que a sessão de 5 de agosto foi disponibilizada integralmente pelo Legislativo e indica o momento da fala de Tathiana, a partir de 1h13min37s do vídeo.
R$ 97 mil: MPPR pede indenização para Vanda e para a sociedade
O Ministério Público não pede apenas a condenação criminal. A denúncia requer que a Justiça fixe um valor mínimo de R$ 32.420, correspondente a 20 salários mínimos, pelos danos morais sofridos individualmente por Vanda de Assis.
A Promotoria pede mais R$ 64.840, equivalentes a 40 salários mínimos, por dano moral coletivo. Somados, os valores chegam a R$ 97.260, com correção pelos índices oficiais caso a Justiça acolha os pedidos.
Na avaliação do promotor, a fala atingiu valores que ultrapassam a esfera pessoal da vereadora petista e alcançam grupos vulneráveis. O valor referente ao dano coletivo deverá, segundo o pedido do MPPR, ser destinado ao Fundo Estadual de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Fundeppir).
O fundo, vinculado à Secretaria de Estado da Mulher, Igualdade Racial e Pessoa Idosa do Paraná, financia políticas públicas voltadas à promoção da igualdade racial.
A corregedora agora está no outro lado da denúncia
Há uma ironia institucional difícil de ignorar. Tathiana Guzella ocupa atualmente a Corregedoria da Câmara Municipal de Curitiba, órgão encarregado de zelar pelo decoro, pela ordem e pela disciplina dentro da Casa e de apurar possíveis infrações ético-disciplinares cometidas por vereadores.
A parlamentar do PL também preside, em 2026, a Comissão de Direitos Humanos, Defesa da Cidadania, Segurança Pública e Minorias da Câmara.
O contraste vai além dos cargos. Como a Fórum mostrou ao revelar o episódio, Tathiana também não nasceu no Paraná. Ela é natural de Caçador, em Santa Catarina. O ataque foi dirigido justamente contra a permanência em Curitiba de uma parlamentar nascida em outro estado.
MPPR fecha a porta para acordo penal
Outro ponto relevante da denúncia é a decisão expressa do Ministério Público de não oferecer acordo de não persecução penal nem suspensão condicional do processo a Tathiana.
O promotor considera as medidas incompatíveis com a natureza do crime e cita decisões judiciais, inclusive do Supremo Tribunal Federal, que afastam mecanismos despenalizadores em crimes de racismo e injúria racial.
A peça também rebate previamente uma eventual tentativa de transformar a imunidade parlamentar em salvo-conduto para a declaração. O MPPR cita precedente segundo o qual a proteção dada a parlamentares não pode servir para agredir a dignidade de terceiros ou difundir discursos de ódio e discriminação.
Com a denúncia, a Promotoria pede que a Justiça receba a acusação, cite Tathiana para apresentar resposta e dê prosseguimento à ação penal, com audiência de instrução e julgamento.
Denúncia não tira mandato nem gera inelegibilidade automaticamente
Há, porém, uma correção importante em relação à informação que passou a circular junto com o documento. A apresentação da denúncia não provoca a perda automática do mandato de Tathiana Guzella e também não a torna inelegível neste momento.
O próprio pedido apresentado pelo MPPR é claro: a Promotoria requer o recebimento da denúncia, o processamento da ação, a condenação nas penas previstas em lei e a reparação dos danos. Não há na peça uma ordem de cassação imediata do mandato.
Eventual perda do cargo depende de condenação e dos requisitos legais aplicáveis ao caso, além de decisão judicial específica quando exigida. Na esfera eleitoral, uma denúncia do Ministério Público, por si só, também não produz inelegibilidade.
O que mudou nesta quinta-feira é juridicamente relevante por outro motivo: o ataque que a Fórum mostrou no plenário deixou de ser apenas alvo de denúncia política e passou a integrar uma acusação criminal formal por racismo apresentada pelo Ministério Público do Paraná. Caberá agora à Justiça decidir se recebe a denúncia contra Tathiana Guzella.

Ver mais

💬 Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar!