Servidor é flagrado em campanha antecipada para Amanda Vettorazzo e Rafael Minatogawa, do MBL

Servidor é flagrado em campanha antecipada para Amanda Vettorazzo e Rafael Minatogawa, do MBL
Servidor Panfletando para Amanda Vetorazo - Foto: Frame Reprodução

Um flagrante de campanha eleitoral antecipada nas ruas de São Paulo expôs como a máquina pública municipal tem servido de abrigo e ascensão para militantes partidários. Faltando dez dias para o início oficial da propaganda eleitoral, Caio Gracco Zobra Florenzano Anania, um servidor comissionado de 21 anos, foi gravado distribuindo panfletos políticos na zona sul da capital.
O material distribuído ilegalmente antes do dia 16 de agosto, data fixada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para o início das campanhas nas ruas, estampava os rostos da vereadora Amanda Vettorazzo (União) e de Rafael Minatogawa (Missão), ex-subprefeito da Vila Mariana e atual candidato a deputado estadual.
A gravação, feita por um morador em Mirandópolis no dia 6 de agosto, não revelou apenas uma infração ao calendário do TSE. Ela puxou o fio de uma trajetória financiada por dinheiro de campanha que desaguou no controle de contratos, fiscalização e dispensas de licitações dentro da Subprefeitura da Vila Mariana.
https://x.com/Metropoles/status/2087506912732418384
O flagrante e a desculpa da “folga”
Abordado enquanto entregava o material eleitoral no meio da tarde de uma quinta-feira, Anania tentou fugir das perguntas. Ao ser questionado se a atividade não era incompatível com seu cargo público, virou as costas e limitou-se a dizer que estava “de férias”.
O vídeo divulgado pelo  Metrópoles desmentiu o servidor logo em seguida. Pressionada, a versão oficial mudou: Anania não estava de férias, mas usufruindo de uma providencial “folga compensatória”, versão endossada rapidamente pela Subprefeitura da Vila Mariana e pela própria vereadora Amanda Vettorazzo.
A justificativa da “folga” é uma manobra jurídica conhecida para tentar afastar o crime de improbidade por uso da máquina pública durante o expediente. No entanto, ela não apaga a distribuição de material fora da janela legal da Justiça Eleitoral e, principalmente, não explica como o jovem panfleteiro construiu um império burocrático dentro do órgão em menos de dois anos.
Dinheiro de campanha e a entrada na prefeitura
A relação de Caio Anania com os rostos impressos no panfleto que distribuía não é de um simples eleitor engajado. É profissional e documentada.
Nas eleições municipais de 2024, o então jovem de 20 anos recebeu R$ 720 da campanha de Amanda Vettorazzo, declarados no sistema DivulgaCandContas como “serviços de assistência de comunicação e captação”. Na mesma época, atuou ativamente na coleta de assinaturas para a fundação do Partido Missão, a legenda criada a partir do Movimento Brasil Livre (MBL) e hoje presidida pelo candidato Renan Santos.
O esforço militante rendeu frutos rápidos. Em janeiro de 2025, a Subprefeitura da Vila Mariana foi entregue ao comando de Rafael Minatogawa, ex-chefe de gabinete do deputado federal Kim Kataguiri (União) e indicação política atribuída a Amanda Vettorazzo.
Apenas um mês depois da posse do aliado, a fatura de Anania foi paga: em março de 2025, ele foi nomeado para um cargo comissionado de assessor na mesma subprefeitura.
Ascensão meteórica: de assessor a fiscal de licitações
Uma vez dentro da máquina pública gerida pelo grupo político que o financiou, Anania deixou de ser um simples panfleteiro. Sua ascensão nos Diários Oficiais mostra um acúmulo sistemático de funções estratégicas.
Em julho de 2025, já substituía cargos de chefia. No final daquele ano, por decisão assinada digitalmente pelo próprio Minatogawa, tornou-se fiscal titular de contratos da subprefeitura. A lista de poderes entregues ao comissionado impressiona: passou a fiscalizar os serviços de telefonia, Correios, Sabesp, energia elétrica e gás da Vila Mariana.
Em 2026, a blindagem aumentou. Ele despachou diretamente do Gabinete do Subprefeito e, em fevereiro, foi nomeado para a Equipe de Dispensa de Licitação, o coração financeiro por onde passam contratações sem concorrência pública. Uma portaria de 3 de agosto de 2026 renovou sua presença nessa equipe de contratações, apenas três dias antes de ser flagrado na rua fazendo campanha antecipada.
O aparelhamento foi além da subprefeitura. Em julho deste ano, a Casa Civil inseriu Anania na Comissão Eleitoral Local, responsável por acompanhar as eleições dos Conselhos Participativos Municipais, colocando o ex-prestador de serviços da campanha para atuar como árbitro institucional do próprio município.
Promoção a caminho na véspera do flagrante
A panfletagem de 6 de agosto ocorreu exatamente no momento em que Anania estava prestes a receber mais uma benesse da prefeitura.
Documentos revelam que um processo administrativo em nome do servidor tramitou a jato no Conselho Municipal de Administração Pública (COMAP) no final de julho. Tratava-se de uma proposta de nova “nomeação ou designação”. O conselho deu sinal verde para o avanço do processo, e a ata foi publicada no Diário Oficial do Município no dia 5 de agosto.
No dia seguinte, certo da folga compensatória e com a nova movimentação funcional garantida, o fiscal de licitações da Vila Mariana foi para as ruas de Mirandópolis fazer campanha antecipada para os mesmos políticos que apadrinharam sua entrada e ascensão na máquina pública da capital.
Procurado para justificar a origem do vídeo, o autor original não foi localizado pela reportagem da Fórum. Até o momento, o material circula a partir de reproduções da imprensa, que apontam a gravação como denúncia direta de um morador local.

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