Amorim vê sinal perigoso dos EUA às vésperas da eleição brasileira

Amorim vê sinal perigoso dos EUA às vésperas da eleição brasileira
O presidente dos EUA Donald Trump - Donald Trump - Foto: Kent NISHIMURA / AFP

O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, criticou nesta quarta-feira (12) a postura do presidente da Argentina, Javier Milei, em relação a Lula e também fez duras críticas à condução dos Estados Unidos na indicação de Daniel Perez para a embaixada americana no Brasil.
As declarações foram dadas durante audiência na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados.
Amorim foi convidado ao colegiado para discutir, entre outros assuntos, a possibilidade de organizações criminosas brasileiras serem classificadas como grupos terroristas pelos Estados Unidos.
Durante a audiência, porém, o ex-chanceler abordou também o atual momento das relações do Brasil com Argentina e Estados Unidos.
Amorim compara ataques de Milei a “cuspir na bandeira”
Ao falar sobre Javier Milei, Amorim afirmou que existe uma diferença entre críticas políticas e ataques pessoais ao presidente brasileiro.
“Uma coisa é você falar politicamente. Pode até dizer que o brasileiro é fascista, socialista, comunista, dizer o que quiser. Agora, quando passa para uma ofensa pessoal, é como cuspir na bandeira. O presidente é o chefe de Estado do Brasil. Isso é uma coisa que não pode ser feita”, declarou.
As relações entre Lula e Milei atravessam um período de forte tensão.
Durante sua passagem pelo Brasil para participar da convenção nacional do PL, em 25 de julho, Milei chamou Lula de “presidiário”.
Na terça-feira (11), o argentino voltou a provocar o presidente brasileiro ao compartilhar uma publicação do deputado republicano norte-americano Carlos Gimenez na qual Lula era chamado de “porco”.
Amorim afirmou que o governo brasileiro tem evitado responder às provocações no mesmo tom.
“Nós nunca usamos palavras ofensivas com o presidente Milei. Nunca o chamamos de ladrão ou de outras coisas”, afirmou.
O assessor disse ainda esperar que o atual distanciamento diplomático entre Brasil e Argentina não seja permanente.
Amorim chama postura dos EUA de “bizarra”
As críticas mais duras de Amorim, porém, também tiveram como alvo os Estados Unidos.
O assessor de Lula classificou como “bizarra” a maneira como Washington conduziu a indicação de Daniel Perez para assumir a embaixada americana em Brasília.
Antes que um embaixador estrangeiro assuma o posto, o país que irá recebê-lo precisa conceder o chamado agrément, uma autorização diplomática formal.
Segundo Amorim, os Estados Unidos tornaram pública a indicação de Perez e deram andamento ao processo no Senado americano antes de receber essa autorização do Brasil.
“O que aconteceu bizarramente nesse caso é que os Estados Unidos não seguiram de maneira nenhuma as convenções internacionais. Primeiro, eles deram publicidade antes da concessão do agrément e, talvez mais grave, eles prosseguiram com o processo dentro do Senado americano sem ter o agrément brasileiro. Este é um comportamento totalmente contrário às regras internacionais”, afirmou.
https://x.com/sbtnews/status/2087610959833510220
Amorim questiona momento da indicação
O assessor também chamou atenção para o momento escolhido pelo governo Donald Trump para apresentar o nome de Perez.
Amorim lembrou que o posto de embaixador americano no Brasil permaneceu vago por um longo período e questionou a pressa para preencher a função às vésperas das eleições brasileiras.
“De repente, na proximidade das eleições, às pressas, sem nosso consentimento”, afirmou.
O posto está sem embaixador desde janeiro de 2025, quando Elizabeth Bagley encerrou sua missão no Brasil.
Desde então, a representação diplomática americana em Brasília é comandada pela encarregada de negócios Natasha Franceschi.
Daniel Perez foi indicado por Trump para assumir a função, mas ainda depende da autorização brasileira para ocupar oficialmente o cargo.
Crise terminou atingindo embaixadora brasileira
A demora na concessão do agrément aumentou a tensão entre Brasília e Washington.
O Departamento de Estado dos Estados Unidos decidiu revogar o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti.
O governo americano relacionou a medida à demora do Brasil em autorizar a chegada de Daniel Perez.
Com isso, o impasse deixou de envolver apenas a indicação do novo representante americano e passou a atingir diretamente a representação diplomática brasileira nos Estados Unidos.
Crime organizado também entrou na discussão
A audiência desta quarta-feira também tratou da possibilidade de organizações criminosas brasileiras serem classificadas como grupos terroristas pelos Estados Unidos.
Amorim se posicionou contra a medida.
Segundo ele, uma classificação dessa natureza poderia criar justificativas para ações estrangeiras em território brasileiro e trazer riscos à soberania nacional.
O assessor também abordou as disputas comerciais entre Brasil e Estados Unidos e as tarifas impostas pelo governo Trump.
Apesar das divergências, Amorim afirmou que o Brasil continua disposto a negociar com Washington. Ao descrever o atual estágio das conversas, porém, utilizou a expressão “total opacidade”.
Amorim faz alerta sobre cenário internacional
Ao final de sua participação, o assessor de Lula relacionou as diferentes crises ao enfraquecimento das regras que organizam as relações internacionais.
Para Amorim, o respeito às normas e aos canais diplomáticos é necessário para evitar que conflitos entre países avancem para situações mais graves.
“Todos nós queremos viver dentro de um sistema de leis, internamente no Brasil e no mundo. Se não tem sistema de leis, o que sobra é a violência. Estamos em um mundo muito perto de ter até uma guerra mundial”, afirmou.
https://x.com/sputnik_brasil/status/2087553678710386858

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