Enquanto se desdobra em discursos inflamados e pauta sua atuação política por um rigor moralista que contrasta diretamente com o início de sua trajetória, quando ficou nacionalmente conhecido por publicar vídeos ensinando a fazer depilação perianal nas redes sociais, o deputado federal André Fernandes (PL-CE) vive uma fase de prosperidade financeira incomum. Figura central do bolsonarismo no Ceará e agora protagonista de uma inusitada aproximação com o grupo político do ex-presidenciável Ciro Gomes (PSDB), o parlamentar registrou um salto significativo em sua declaração de bens prestada à Justiça Eleitoral.
Os dados oficiais revelam que, em um intervalo de apenas 24 meses, o patrimônio declarado de André Fernandes sofreu uma verdadeira explosão, registrando uma alta de 240%. Para a disputa das eleições de 2026, o parlamentar informou possuir R$ 1,2 milhão em bens acumulados. O valor representa quase o triplo dos R$ 354 mil apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante a campanha de 2022, quando foi eleito para a Câmara dos Deputados, e supera com folga os R$ 378 mil declarados em 2024, época em que disputou a Prefeitura de Fortaleza e acabou derrotado no segundo turno por Evandro Leitão (PT).
A composição desse novo patamar financeiro mostra que a maior fatia do patrimônio do deputado não está alocada em imóveis tradicionais ou aplicações financeiras de renda fixa, mas sim em participações empresariais. A maior parcela do montante listado reúne quotas de capital social em empresas, avaliadas em R$ 840 mil.
A garagem do parlamentar também reflete o crescimento de suas declarações. Fernandes informou possuir três veículos automotores que, somados, chegam a R$ 330 mil: uma caminhonete avaliada em R$ 120 mil, um SUV estimado em R$ 140 mil e um veículo utilitário leve cotado em R$ 70 mil. Completa a lista de ativos a meação a um terreno, no valor proporcional de R$ 22,5 mil, além de R$ 11.254,67 mantidos em conta corrente. A título de comparação, em 2022 o deputado declarava apenas dois terrenos, avaliados em R$ 45 mil e R$ 126,5 mil, e dois carros cujos valores somavam cerca de R$ 182 mil.
Essa evolução patrimonial acelerada ocorre em meio a um momento de forte turbulência política nos bastidores do PL cearense, partido presidido no estado pelo próprio André Fernandes. O parlamentar converteu-se no pivô de uma guerra fria entre alas da alta cúpula bolsonarista por conta da montagem do palanque eleitoral na região.
De um lado, Fernandes articula a polêmica aliança com os remanescentes do grupo de Ciro Gomes e tenta projetar a pré-candidatura de seu próprio pai, Alcides Fernandes (PL), ao Senado Federal. Essa estratégia pragmática conta com o aval direto do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e dos demais filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Do outro lado da trincheira, contudo, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro lidera a ala divergente e defende uma composição estritamente alinhada à direita “conservadora”, sustentando os nomes do senador Eduardo Girão (Novo-CE) para o governo do Estado e da vereadora Priscila Costa (PL) para a disputa ao Senado.
Enquanto o racha interno no PL cearense expõe as contradições entre a retórica ideológica e o pragmático jogo de alianças locais, os números oficiais mostram que, ao menos no campo financeiro, a passagem do ex-criador de conteúdo íntimo pelo parlamento federal tem se mostrado amplamente rentável.
André Fernandes, bolsonarista aliado de Ciro Gomes, triplica patrimônio em 2 anos
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