Renan Santos, do MBL, colocou em funcionamento uma estrutura para produzir e espalhar “cortes” de conteúdo político nas redes sociais que repete uma estratégia já adotada por Nikolas Ferreira (PL-MG) e tem como precedente mais explosivo o caso de Pablo Marçal. O ex-coach foi declarado inelegível pela Justiça Eleitoral após usar concursos de vídeos com incentivos econômicos durante a campanha à Prefeitura de São Paulo em 2024.
Reportagem publicada pelo Intercept Brasil nesta quarta-feira (12) mostra que Renan Santos e o deputado federal Kim Kataguiri promovem o curso “Máquina de Cortes”, vendido por uma plataforma ligada ao MBL. A promessa é ensinar seguidores a editar, distribuir e monetizar vídeos curtos com conteúdo dos políticos do grupo nas redes sociais.
A engrenagem ganhou peso eleitoral com a criação do partido Missão, liderado por integrantes do MBL. Renan é apresentado pelo grupo como candidato à Presidência da República nas eleições de 2026, enquanto Kim busca a reeleição para a Câmara dos Deputados.
Renan Santos promete renda com cortes políticos do MBL
Nos vídeos obtidos pelo Intercept, Renan Santos apresenta a iniciativa como uma “máquina” destinada a produzir conteúdo em escala. O curso promete aos participantes ganhos mensais entre R$ 1.050 e R$ 4.850 com a monetização de plataformas como TikTok e YouTube.
O curso é comercializado por R$ 169,68 pela Valete Plus e reúne 38 aulas de roteiro, edição e técnicas de distribuição. Entre os professores aparecem políticos, assessores e influenciadores ligados ao MBL.
Kim Kataguiri também faz o apelo diretamente pelo bolso. Em um dos vídeos identificados pela reportagem, o deputado convida seguidores interessados em obter renda mensal enquanto divulgam as ideias do movimento.
A diferença em relação aos campeonatos usados por Pablo Marçal está na origem imediata do dinheiro. No modelo do MBL, não há, segundo os elementos publicados até agora, prêmio pago diretamente por Renan Santos ou pelo partido aos autores dos vídeos. A renda prometida viria principalmente da monetização oferecida pelas próprias plataformas digitais de acordo com as visualizações.
É justamente essa diferença que deverá ser decisiva caso a estrutura seja questionada na Justiça Eleitoral. Especialistas ouvidos pelo Intercept avaliam, porém, que terceirizar o pagamento não elimina automaticamente o risco jurídico quando há recrutamento, organização, orientação e incentivo econômico para a divulgação de conteúdo eleitoral.
TSE proíbe monetização em troca de propaganda eleitoral
A atual Resolução nº 23.610 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabelece que pessoas naturais podem publicar conteúdo político-eleitoral, mas proíbe “remuneração, monetização ou a concessão de outra vantagem econômica” como retribuição ao titular de canal ou perfil, inclusive quando a vantagem é paga por terceiros.
Para as eleições de 2026, a norma passou a deixar ainda mais explícita a vedação a mecanismos de competição, ranqueamento ou premiação que ofereçam, direta ou indiretamente, vantagem econômica para a publicação de conteúdo político-eleitoral.
O caso do MBL possui elementos que vão além de seguidores publicando espontaneamente vídeos de seus políticos. A investigação identificou uma estrutura organizada no Discord, em um servidor chamado “Fábrica de Cortes da Missão”, onde integrantes recebem material para edição, links de vídeos, memes, trilhas e orientações para a produção de conteúdo.
O partido também mantém um sistema de gamificação. A cada 200 visualizações, os produtores recebem pontos chamados de “XP da Missão”, usados para alimentar um ranking público dos canais com melhor desempenho.
Segundo o Intercept, um dos líderes do ranking chegou a criar seu próprio treinamento sobre como lucrar com os cortes eleitorais e afirmou ter consultado integrantes da comunicação de Renan antes de lançar o produto.
Nikolas Ferreira já usou exército de “clipadores”
A aposta de Renan Santos está longe de ser inédita na direita brasileira. Em março, a Fórum revelou que Nikolas Ferreira mobilizou um exército digital de “clipadores” durante sua marcha até Brasília.
A operação tinha uma meta ambiciosa: alcançar 2,5 bilhões de visualizações com vídeos de Nikolas. A investigação da Fórum mostrou ainda que a estrutura foi coordenada por operadores que haviam atuado na máquina digital de Pablo Marçal.
Entre eles estava Gabriel Schmidt, diretor de marketing da campanha de Marçal em 2024. Schmidt recrutou cerca de mil produtores de conteúdo e coordenou a operação por grupos de WhatsApp. A estratégia transformava vídeos longos em centenas de peças curtas distribuídas por perfis diferentes para multiplicar artificialmente o alcance do deputado bolsonarista.
A Fórum mostrou como a máquina de cortes de Nikolas funcionava e a conexão direta entre operadores da campanha digital do parlamentar e integrantes da estrutura montada anteriormente em torno de Marçal.
Pablo Marçal ficou inelegível por “concurso de cortes”
O precedente que ronda Renan Santos é justamente Pablo Marçal. Na eleição municipal de 2024, o então candidato à Prefeitura de São Paulo organizou campeonatos em que seguidores disputavam recompensas pela produção e viralização de cortes com seus vídeos.
O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) entendeu que a estrutura não correspondia a uma mobilização espontânea de eleitores. Para a Justiça Eleitoral, a monetização criou uma rede de publicações estimulada por vantagem econômica e alterou a repercussão da propaganda eleitoral nas plataformas.
A condenação por uso indevido dos meios de comunicação tornou Marçal inelegível por oito anos, contados a partir da eleição de 2024. O empresário também recebeu multa de R$ 420 mil por descumprimento de decisão judicial relacionada ao concurso de cortes.
Em julgamento dividido, o TRE-SP manteve a condenação por quatro votos a três. Em 5 de agosto, a Corte rejeitou um novo recurso apresentado pelo empresário. Ainda cabe recurso ao Tribunal Superior Eleitoral.
O próprio precedente de Marçal, portanto, não permite afirmar automaticamente que Renan Santos ou outros integrantes do Missão ficarão inelegíveis. Para uma eventual punição, a Justiça Eleitoral terá de analisar o funcionamento da estrutura, o vínculo com as candidaturas, a existência de incentivo econômico e a gravidade de seus efeitos sobre a disputa.
Mas a sequência é conhecida. Marçal transformou “corteiros” em instrumento eleitoral e acabou condenado. Nikolas Ferreira reaproveitou operadores e a lógica de produção em massa. Agora, Renan Santos e o MBL institucionalizam uma “Máquina de Cortes”, oferecem treinamento, organizam produtores e apresentam a possibilidade de ganhar dinheiro como parte do recrutamento.
“Cortes”: Renan Santos, do MBL, repete Nikolas Ferreira em estratégia que deixou Marçal inelegível
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