Toffoli assume caso que pode suspender decisões de Dino em investigação da PF no Maranhão

Toffoli assume caso que pode suspender decisões de Dino em investigação da PF no Maranhão
Dias Toffoli e Flávio Dino - Fotos: STF/Divulgação

O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), foi sorteado nesta quarta-feira (19) para relatar o pedido do governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB), que busca suspender decisões do ministro Flávio Dino em uma investigação da Polícia Federal (PF) sobre desvios de recursos públicos no estado. O recurso foi protocolado dois dias depois de Dino determinar, a pedido da PF, o afastamento de Daniel Brandão, sobrinho do governador e presidente do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA), por 180 dias. A defesa de Brandão contesta a competência do STF e pede a remessa do caso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), argumentando que Dino teria agido com “usurpação de competência constitucional”.
Toffoli assume a relatoria e os pedidos do governador
O sorteio realizado nesta quarta-feira (19) no STF distribuiu a Dias Toffoli a relatoria de uma ação que pode paralisar uma das investigações mais sensíveis em curso no Supremo. O pedido do governador Carlos Brandão é amplo: a defesa solicita a suspensão imediata do inquérito da PF e de todas as medidas já determinadas por Dino no âmbito do caso. Caso a investigação não seja suspensa, os advogados pedem, em caráter alternativo, que os autos sejam remetidos à Procuradoria-Geral da República (PGR) ou ao STJ.
A defesa argumenta que governadores de estado têm foro no STJ, não no STF, e a atuação de Dino no caso configuraria, segundo os advogados Nabor Bulhões e José Carlos Porciúncula, uma “usurpação de competência constitucional” que violaria o princípio do juiz natural. “Não se trata de simples irregularidade procedimental: a incompetência é absoluta e compromete a validade dos atos decisórios e das medidas investigativas dela decorrentes”, afirmaram os advogados na petição. Brandão acrescenta ainda que soube das decisões pela imprensa e que, até o momento, não teve acesso ao conteúdo sigiloso da investigação nem foi intimado sobre as decisões que mantiveram o caso no STF.
As decisões de Dino e os argumentos de Brandão
O estopim imediato do recurso foi a decisão de segunda-feira (17): a pedido da PF, Dino determinou o afastamento de Daniel Brandão das funções de conselheiro e presidente do TCE-MA por 180 dias. A medida proibiu Daniel de acessar sistemas e dependências do tribunal, usar bens e serviços do órgão e manter contato com pessoas relacionadas ao caso, incluindo o próprio governador Carlos Brandão. Em nota, Daniel afirmou receber a decisão com “perplexidade” e declarou sua “absoluta inocência”, comprometendo-se a adotar “pelos meios legais, todas as providências cabíveis para exercer plenamente meu direito de defesa e demonstrar a verdade dos fatos”.
Os investigadores apuram a relação de Daniel Brandão com empresas de familiares suspeitas de desvios de recursos e possíveis tentativas de obstrução das apurações. A defesa do governador também contesta o modo como o inquérito foi aberto, argumentando que Dino o instaurou “de ofício”, sem provocação do Ministério Público, o que reforçaria, segundo os advogados, a tese de incompetência. Dino, por sua vez, sustenta que a competência do STF está preservada pelo envolvimento de autoridades com foro na Corte: o senador Weverton Rocha (PDT-MA) e o deputado federal Josimar de Maranhãozinho (PL-MA), ambos apontados como parte da trama investigada. O ministro foi designado relator por sorteio e usa esse fato como fundamento adicional para manter o caso sob sua relatoria.
O histórico da investigação e a conexão com o caso “sigilo da fonte”
A investigação que hoje movimenta o STF tem raízes em um homicídio ocorrido em São Luís em 2022. A vítima, João Bosco Sobrinho Pereira de Oliveira, era suspeita de participar de um esquema de cobrança de propina em contratos públicos. O assassinato, ocorrido no estabelecimento conhecido como “Tech Office”, abriu caminho para a apuração de uma suposta organização criminosa envolvendo empresários, agentes públicos e políticos. A partir daí, a PF passou a investigar desvios de recursos públicos e possíveis tentativas de obstrução das apurações, com autorização judicial para buscas e apreensões, quebras de sigilos e bloqueio de bens.
Em 14 de agosto de 2026, conforme mostrou a Fórum, Flávio Dino retirou o sigilo da investigação, revelando que a PF apura crimes de corrupção, peculato, organização criminosa, obstrução da Justiça e coação de testemunhas. Os documentos divulgados indicam, segundo a mesma apuração, indícios do envolvimento de integrantes da cúpula do governo maranhense no esquema que buscava “comprar o silêncio” de Gilbson Cutrim Junior, responsável pelo assassinato de João Bosco, em especial do ex-secretário de Segurança Pública Raimundo Cutrim. As investigações apontam ainda que o financiamento do esquema teria utilizado recursos fraudulentos de emendas parlamentares do ex-deputado Josimar de Maranhãozinho (PL-MA), que chegou a ser condenado pela 1ª Turma do STF por desvios de verbas.
O caso se conecta diretamente à polêmica sobre o “sigilo da fonte”. Em novembro de 2025, o blogueiro Luís Pablo publicou fotos de veículos ligados a Dino e familiares, apresentando o episódio como denúncia de uso irregular de carros do Tribunal de Justiça do Maranhão. O STF e o TJ-MA negaram irregularidade, afirmando que os veículos faziam parte do esquema institucional de segurança. A investigação posterior identificou Raimundo Cutrim como a fonte do blogueiro. Cutrim, delegado federal aposentado e então integrante do governo maranhense, já era acusado de obstrução de Justiça em outra investigação no Supremo ligada ao mesmo assassinato de 2022. A operação autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes contra Cutrim apura monitoramento de Dino e sua família e uma transferência de R$ 100 mil para o blogueiro. Dino afirmou em sessão plenária que ele e membros de sua família foram monitorados no Maranhão, comparando a prática à perseguição de ministros durante a ditadura militar. .
 
“É curioso que antes de mim só houve um ministro do Supremo que foi seguido e teve a sua família seguida. Só um, antes de mim. Foi de novo na longa noite da ditadura.”
 
Próximos passos
A disputa judicial entre Brandão e Dino não pode ser lida fora de seu contexto político. Os dois foram aliados por anos: Dino foi eleito governador do Maranhão em 2018 com Brandão como vice, e a parceria se manteve até o rompimento público no final de 2024. Em vídeo divulgado nas redes sociais no último fim de semana, Brandão acusou Dino de perseguição, argumentando que passou a ser alvo de ações judiciais “só depois do distanciamento político entre dois grupos do Maranhão”.
A decisão de Toffoli será determinante para o andamento do caso. Se o ministro suspender as medidas de Dino ou determinar a remessa ao STJ, o impacto sobre a velocidade e a autonomia das investigações será imediato. A mudança de instância pode alterar o ritmo das apurações sobre desvios de recursos e a atuação de agentes públicos no Maranhão, em um inquérito que já envolve senador, ex-deputado condenado, ex-secretário investigado por obstrução e o sobrinho do governador afastado do principal órgão de controle do estado.

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