O diagnóstico trazido pelos recortes regionais da pesquisa Genial/Quaest publicados nesta terça-feira (25) gerou um tremor no QG do PL. Nos maiores bastiões da direita e do conservadorismo no Sudeste do país, São Paulo e Rio de Janeiro, o senador Flávio Bolsonaro (PL) apresenta números que, se não apontam para um colapso, sinalizam um achatamento precoce de sua competitividade eleitoral.
Em São Paulo, maior colégio eleitoral brasileiro, Flávio surge numericamente empatado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com 30% contra 30% das intenções de voto no primeiro turno. No Rio de Janeiro, berço político e domicílio eleitoral do clã, o cenário se repete em termos práticos: o primogênito da dinastia radical registra 31%, flutuando dentro da margem de erro ao lado dos 29% atribuídos ao atual chefe do Executivo.
Para compreender por que o desempenho de Flávio se revela modesto em territórios onde a hegemonia antipetista se consolidou com força avassaladora desde as grandes manifestações de 2013 e a ascensão do bolsonarismo em 2018, é preciso dissecar as engrenagens históricas, operacionais e de imagem que sustentam a dinâmica do voto no Sudeste.
Capital transferível e a crise do carisma
O primeiro vetor de fraqueza na candidatura de Flávio reside no equívoco tático de tratar o capital político como um bem estritamente hereditário. O eleitorado que convergiu para Jair Bolsonaro em 2018 e o manteve competitivo em 2022 não o fez por fidelidade a um programa partidário tradicional ou à sua estrutura familiar, mas por uma identificação simbiótica com uma liderança que, em algum grau (e para alguns desorientados) era carismática, populista e de corte messiânico.
Jair Bolsonaro estabeleceu uma ponte direta com a indignação popular, ainda que falsa, cínica e oportunista, mas eficiente. Flávio Bolsonaro, ao contrário, construiu sua carreira política como um operador institucional de bastidores (e malandragens), como o Bolsonaro que ficava responsável por estabelecer o diálogo com os tribunais superiores, por promover a costura política no Senado e encarnar o pragmatismo partidário.
Essa disjunção produz um déficit natural de engajamento. O eleitorado antipetista ideológico não enxerga em Flávio o líder de um movimento de massas, mas a figura estendida de uma sucessão dinástica. O resultado é a diluição da energia eleitoral espontânea que costumava lotar as urnas do Sudeste em favor da oposição ao PT.
Fatura ética e o teto da rejeição
A fragilidade de Flávio em São Paulo e no Rio também decorre de seu histórico político. O eleitorado de classe média paulista e fluminense, historicamente responsivo à pauta do combate à corrupção (e demagogicamente também), impõe barreiras éticas severas ao senador.
Enquanto novos nomes da direita conseguem se apresentar como vetores “virgens” de renovação administrativa, Flávio carrega um acúmulo de memórias desfavoráveis, com destaque para a sombra continuada das apurações da “rachadinha” e do uso de operadores financeiros na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Nas sondagens de opinião pública, o reflexo é imediato: Flávio acumula os maiores índices de rejeição entre os postulantes ao Planalto. Em um pleito no qual o índice de recusa do eleitor define o teto de crescimento no segundo turno, o candidato do PL larga com uma taxa que neutraliza, em grande medida, a vantagem estrutural que a direita possuía no Sudeste.
Metamorfose do antipetismo e o voto utilitário
Existe, ainda, uma transformação conceitual na própria natureza do antipetismo. Entre 2014 e 2022, a oposição ao PT operou em termos quase maniqueístas: o antipetismo funcionava como uma força gravitacional tão intensa que convertia qualquer nome colocado à direita no receptor automático do voto de protesto.
No entanto, a consolidação de novas lideranças regionais e o desgaste da máquina bolsonarista durante seu período de governo fracionaram esse ecossistema. Hoje, o eleitor antipetista do Sudeste não é mais homogêneo. Há o eleitor pragmático, que é da classe média urbana e que repudia o retorno do discurso petista na economia, mas que rejeita a instabilidade de uma contenda marcada por fricções institucionais e escândalos familiares.
Houve ainda uma pulverização à direita, com nomes como o de Ronaldo Caiado e Romeu Zema, muito embora eles ainda pontuem discretamente, ficando como símbolos de um eleitor politizado que repete o clichê do perfil de direita “gestor” e sem passivos jurídicos imediatos.
A simetria das rejeições
Por anos, a esquerda entrou nas disputas em São Paulo e no Rio de Janeiro em desvantagem estrutural, enfrentando taxas de rejeição regional que superavam a casa dos 50%. A novidade estampada nos números de agosto de 2026 é a consolidação de um duplo teto: a rejeição a Lula permanece expressiva, mas a rejeição a Flávio Bolsonaro emparelhou com a do presidente.
Quando a rejeição do herdeiro ideológico empata com a rejeição do seu principal antagonista, o antipetismo deixa de atuar como uma alavanca de conversão direta. O cenário de empate técnico em praças onde a direita historicamente abria margens de 15 a 20 pontos percentuais expõe o dilema central do PL: Flávio segura o piso eleitoral do pai, mas, até o momento, mostra-se incapaz de furar a bolha e capturar o “centro conservador”.
Uma situação que parece imutável
Por fim, é inegável que pelo andar da carruagem a coisa dificilmente se modificará para Flávio Bolsonaro, que na outra ponta ainda se vê pressionado pelo abismo de votos que Lula abre em relação a ele no Nordeste. Nesse cenário, resta ao herdeiro de Jair torcer, e orar, para que alguns votos pingados de outros candidatos de direita já se direcionem a ele ainda no primeiro turno.
Por que Flávio Bolsonaro está tão enfraquecido em SP e RJ na Quaest
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