Doador de R$ 380 mil a candidato do PL em Minas Gerais foi alvo de sanções no sistema financeiro

Doador de R$ 380 mil a candidato do PL em Minas Gerais foi alvo de sanções no sistema financeiro
- Flávio Roscoe (direita) com Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira em Minas ( Vittor Sales)

Carlos Géo Quick colocou R$ 380 mil na campanha de Flávio Roscoe, candidato do PL ao governo de Minas Gerais. A transferência, feita em 20 de agosto, está registrada na prestação de contas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O empresário não é um desconhecido dos órgãos que fiscalizam o mercado financeiro. Antes de aparecer entre os grandes doadores destas eleições, Quick acumulou três punições que o impediram temporariamente de ocupar cargos de direção em instituições financeiras.
As sanções foram aplicadas em processos ligados ao antigo Banco Pottencial, onde ele ocupava uma cadeira no Conselho de Administração. Entre 2014 e 2016, Quick recebeu três inabilitações: uma de um ano, outra de dois anos e uma terceira também de um ano.
As punições são administrativas, não criminais. Mas ajudam a contar o histórico de um empresário que agora coloca centenas de milhares de reais na disputa pelo governo mineiro.
Três punições em dois anos do doador de Flávio Roscoe
A primeira veio em 2014. O Banco Central havia aplicado uma inabilitação de três anos, posteriormente reduzida para um pelo Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional (CRSFN).
O problema, no caso de Quick, estava na fiscalização do próprio banco. Para o Conselho, ele falhou no dever de acompanhar a diretoria enquanto integrava o órgão responsável justamente por supervisionar a administração da instituição.
O processo era amplo. O Banco Pottencial enfrentava questionamentos sobre operações de crédito, registros contábeis e controles internos.
Em junho de 2016, Quick recebeu a punição mais pesada: dois anos de inabilitação.
Dessa vez, o centro do caso era uma operação envolvendo o banco e a Pottencial Seguradora.
Em 2013, a seguradora aumentou seu capital. O Banco Pottencial, que detinha pouco mais da metade da empresa, abriu mão de comprar sua parte das novas ações. O efeito foi imediato: sua participação caiu de 50,34% para 30,38%, enquanto outros acionistas ganharam espaço.
Para a fiscalização, o negócio foi conduzido contra os interesses do próprio banco. Quick acabou responsabilizado ao lado de outros administradores.
Um mês depois, veio a terceira inabilitação. O novo processo tratava de balanços que, segundo o Banco Central, não mostravam corretamente a situação financeira da instituição. Novamente, a atuação de Quick como conselheiro entrou no centro da punição.
Há também um episódio em sentido contrário. Em um processo mais antigo, julgado em 2007, uma multa de R$ 25 mil aplicada a Quick acabou derrubada. O Conselho entendeu naquele caso que ele não poderia ser responsabilizado diretamente pelas operações questionadas.
Negócio voltou a aparecer na Receita
A operação de 2013 não ficou restrita à fiscalização do Banco Central.
Anos depois, ela reapareceu em uma disputa bilionária — e desta vez tributária — envolvendo o antigo Banco Pottencial.
Em outubro de 2024, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) concluiu que a forma como as ações da seguradora mudaram de mãos configurou uma “distribuição disfarçada de lucros”.
A sequência chamou a atenção da Receita. O banco abriu mão de acompanhar o aumento de capital e viu sua fatia na seguradora cair quase 20 pontos percentuais. No mesmo dia, vendeu os 30,38% que ainda possuía por R$ 35 milhões.
Para a fiscalização tributária, parte do valor econômico que pertencia ao banco acabou transferida a acionistas ligados ao mesmo grupo sem pagamento equivalente ao valor de mercado.
Uma das empresas beneficiadas pela mudança societária era a Construtora Ourívio, ligada ao núcleo empresarial de Quick.
No processo tributário, Quick foi incluído entre as pessoas que poderiam responder pela cobrança relacionada à operação. O julgamento de 2024 reduziu uma das multas, de 150% para 100%, após uma mudança na legislação, mas não derrubou a conclusão de que houve distribuição disfarçada de lucros.
A Ourivio continua no negócio
A empresa que apareceu naquela operação de 2013 continua relevante mais de uma década depois.
A antiga Construtora Ourívio passou a se chamar Ourivio Participações. Quick segue ligado à companhia, enquanto a holding permanece no controle da Pottencial Seguradora.
As demonstrações financeiras da seguradora referentes a 2025 mostram a Ourivio com 44,67% das ações e informam que o controle da companhia é exercido pela holding por meio de um acordo entre acionistas.
Quick não aparece hoje na diretoria da própria seguradora. Seu vínculo atual passa pela Ourivio — justamente a empresa que esteve no centro da operação societária examinada pelo Banco Central e, anos depois, pela Receita Federal.
É desse mesmo núcleo empresarial que sai agora um dos maiores cheques privados registrados na eleição mineira: R$ 380 mil para colocar Flávio Roscoe na disputa pelo Palácio Tiradentes.

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