O candidato à Presidência da República pelo Avante, o psiquiatra e escritor Augusto Cury, reagiu publicamente nesta segunda-feira (31) às pesadas denúncias que pairam sobre a sua campanha a respeito de uma suposta manipulação digital mediante o uso ilegal de automação e contratação disfarçada de influenciadores. Ao comentar o salto expressivo registrado em seu desempenho nas pesquisas mais recentes dos institutos BTG/Nexus e AtlasIntel, o postulante negou categoricamente qualquer irregularidade em suas redes e rebateu as suspeitas levantadas por adversários, classificando o avanço de sua candidatura como uma “revolução totalmente silenciosa” promovida espontaneamente por eleitores desiludidos com o cenário de polarização política do país.
As declarações foram dadas durante uma agenda institucional na sede do Sebrae, em Curitiba (PR). Ao ser abordado pela imprensa sobre as representações e questionamentos formais movidos por partidos concorrentes, que apontam um crescimento impulsionado de forma artificial, Cury adotou um tom de desdém e desafiou os opositores. “Eles que investiguem”, disparou o candidato, assegurando que o orçamento investido em suas plataformas digitais foi modesto e incapaz de subsidiar engrenagens complexas de disparos automatizados. Segundo o médico, o investimento declarado nas redes totalizou cerca de R$ 50 mil nas semanas recentes, valor substancialmente inferior às somas de dezenas de milhões aportadas pelas chapas concorrentes.
Humildade no discurso e recusa de rótulos ideológicos
Apesar de comemorar a disparada nos levantamentos de amostragem, no BTG/Nexus, por exemplo, ele saltou de 2% para 11% das intenções de voto no primeiro turno, Cury fez questão de demonstrar contenção e ressaltou que a prioridade de seu projeto político extrapola a corrida eleitoral em si. Ele relatou ter recebido com “muita humildade” o volume de cumprimentos que recebeu ao longo do dia e enfatizou a preocupação com os rumos governamentais e institucionais do país nos anos subsequentes ao pleito.
“Todo mundo me ligando, todo mundo me cumprimentando. Mas, honestamente dizendo, eu recebi com muita humildade. Porque o problema não é perder a Presidência da República, o problema é ganhar a Presidência e pacificar esta nação. Eu não estou atrás de poder. Não é cargo. As pessoas perguntam se estou eufórico. Não, eu estou alegre, mas preocupado, precisamos pensar no Brasil em 2027”, afirmou o postulante do Avante.
Na tentativa de manter distância da polarização tradicional, o candidato voltou a articular um discurso conciliador, afirmando que os dilemas socioeconômicos do Brasil não possuem viés ideológico. Para Cury, o eleitorado estaria assimilando uma proposta que busca reunir “o melhor da direita e o melhor da esquerda”. Em tom descontraído, o médico recorreu a metáforas do debate público contemporâneo para marcar sua neutralidade partidária: “Por favor, não me enquadrem num partido, numa ideologia. Na verdade, vou fazer uma brincadeira aqui. Nem picanha, que não veio, e nem fuzil. Eu quero é o Brasil. Quero ganhar o seu coração, mais do que pedir voto.”
Sobre a explosão de métricas digitais que acompanhou o seu avanço nos levantamentos de opinião, com a incorporação de mais de 2 milhões de novos seguidores em seus perfis oficiais em um intervalo de menos de uma semana, o escritor definiu o fenômeno como uma virada orgânica sem paralelos na política moderna. Cury comparou o engajamento obtido à mobilização observada em campanhas internacionais de grande apelo popular, alegando que a população passou a enxergar veracidade em suas propostas logo após a realização do primeiro debate na televisão.
Engrenagens sob suspeita e o escrutínio do TSE
Se no discurso oficial o tom é de celebração pelo avanço nas intenções de voto, nos bastidores o cenário é de alerta máximo e desconfiança generalizada. O vertiginoso crescimento de Augusto Cury acendeu o sinal vermelho nos comitês das principais candidaturas à Presidência da República e passou a ser acompanhado de perto pelas autoridades judiciais eleitorais. A controvérsia ganhou traços de gravidade a partir de apurações e dados revelados pelo canal de notícias GloboNews, que trouxeram a público indícios de um esquema coordenado e ilegal de disfarce publicitário e acionamento massivo de robôs (bots).
De acordo com levantamentos reportados por jornalistas da GloboNews, de métricas e monitoramento digital contratados por campanhas adversárias e analisados por especialistas jurídicos, a movimentação ao redor dos perfis do candidato do Avante destoa drasticamente dos padrões observados no mercado digital. Os relatórios indicam que pelo menos 200 influenciadores digitais de pequeno e médio porte (com abrangência entre 20 mil e 50 mil seguidores) começaram a declarar apoio e voto a Cury de forma simultânea e altamente padronizada. O detalhe que chamou a atenção de analistas foi o perfil dessas contas: longe do ecossistema de debate político ou cobertura diária de notícias, os perfis são focados em nichos comportamentais como estilo de vida, nutrição, rotinas fitness e gastronomia.
A apuração da emissor a cabo aponta que a engrenagem digital pode estar vinculada ao ecossistema de redes subterrâneas do coach Pablo Marçal, atualmente inelegível. Integrantes da própria equipe de Cury admitiram, reservadamente, que o salto nas redes teve início imediato após a participação do psiquiatra em uma transmissão ao vivo promovida no canal do empresário. A suspeita é de que redes de militância treinadas e fazendas de servidores automatizados tenham sido disparadas para alavancar a visibilidade do escritor.
Os principais indicadores de monitoramento levantados pelas equipes técnicas expõem o tamanho da anomalia digital:
Ganho de seguidores: A conta oficial do candidato registrou a adição de mais de 2 milhões de perfis em apenas cinco dias, marca apontada por serviços internacionais de métricas como o recorde global absoluto de crescimento semanal de uma figura pública.
Apoio de influenciadores: Mapeou-se a atuação coordenada de mais de 200 produtores de conteúdo de médio e pequeno porte sem histórico de engajamento político, disparando mensagens com roteiros idênticos e padronizados.
Padrão de interação: Identificou-se uma enxurrada de comentários automatizados e repetitivos em diferentes plataformas digitais, invariavelmente encerrados com a digitação explicita do número do candidato para a urna eletrônica.
Status jurídico: O conjunto de dados e relatórios de monitoramento foi formalizado em representações judiciais e encontra-se sob análise do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O volume de interações gerado nas postagens também reforça as suspeitas de automação. Milhares de caixas de comentários em portais de notícias e redes de concorrentes foram inundadas por mensagens sintaticamente repetitivas, invariavelmente encerradas com a digitação do número da chapa de Cury nas urnas. O fenômeno, apontou a jornalista Natuza Nery, guarda semelhança direta com os procedimentos identificados na eleição municipal paulistana de 2024, quando disparos instantâneos respondiam a qualquer menção pública feita a candidatos específicos.
A controvérsia ganha um componente financeiro relevante, conforme apontou o repórter Pedro Figueiredo, diante da recente desidratação do comitê oficial do candidato. O marqueteiro Leandro Grôppo deixou o comando da comunicação da campanha alegando, justamente, a escassez de recursos financeiros e limitações orçamentárias para a promoção da candidatura. A contradição entre a alegada falta de verba institucional e o surgimento de uma superestrutura de engajamento em massa levantou questionamentos entre analistas e investigadores sobre a eventual existência de caixa dois ou financiamento não declarado para subsidiar as redes.
Os elementos reunidos pelas equipes jurídicas dos partidos concorrentes já foram formalmente encaminhados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A Corte Eleitoral avalia o conjunto de provas para determinar se houve abuso de poder econômico, uso indevido dos meios de comunicação social e descumprimento das regras que proíbem o impulsionamento ilegal por meio de bots e pagamentos velados a produtores de conteúdo. Caso as irregularidades sejam comprovadas, a candidatura de Augusto Cury poderá enfrentar sanções severas, que vão desde a aplicação de multas expressivas até a cassação do registro de chapa.
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