É pouco provável que Augusto Cury tenha crescido só pelo JN, diz Sergio Amadeu

É pouco provável que Augusto Cury tenha crescido só pelo JN, diz Sergio Amadeu
- Sergio Amadeu - Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Em entrevista ao Fórum Onze e Meia desta segunda-feira (31), o sociólogo e professor da UFABC, Sergio Amadeu, abordou o surpreendente crescimento de Augusto Cury, candidato do Avante à presidência da República, nas pesquisas eleitorais mais recentes.
No levantamento AtlasIntel/Bloomberg, por exemplo, o escritor de autoajuda deu um salto, atingindo 7,8% das intenções de voto, superando Renan Santos (Missão), com 7,6%, e ficando atrás apenas do presidente Lula (PT), com 43,4%, e de Flávio Bolsonaro (PL), 33,7%.
O elemento central da controvérsia reside na velocidade atípica da expansão do candidato nas redes sociais. Em um intervalo de apenas cinco dias, a conta oficial do psiquiatra arrebanhou mais de dois milhões de novos seguidores.
Amadeu afirmou que “é muito pouco provável que o Augusto Cury tenha escalado só organicamente porque as pessoas viram o Jornal Nacional. Por outro lado, é verdade que ele tem o público de autoajuda”, destacou.
“Precisa ficar claro que o Augusto Cury é dessas celebridades da rede de autoajuda. Ele é um cara que vende muitos livros de autoajuda, já vendia, né? E ele tinha uma presença grande, me parece que tem mais de 70 livros, se não me engano. Tem muita gente que discute o fenômeno da autoajuda”, disse Amadeu.
“Na verdade, o que eu quero dizer é o seguinte: ele não está no campo da ciência, ele está no campo da autoajuda. E a literatura de autoajuda faz pessoas ficarem muito importantes em alguns guetos da sociedade. Ele vem com uma força um pouco diferente do Marçal (Pablo), mas o Marçal também veio de fora para dentro da política trazendo essa técnica da autoajuda”, relatou o sociólogo.
A disparada de Cury gerou forte estranhamento e desconfiança generalizada entre seus adversários políticos e diretórios partidários, que enxergam no fenômeno traços de uma mobilização artificial e não orgânica.
“Antes de entrar exatamente na questão do robô, fui olhar uma postagem dele que tem um jovem cantando. Não sei quem é, mas deve ser um cara influente, que ele deve ter contratado. Tem uma frase na música que me chamou muito a atenção: ‘Menos churrasco, menos fuzil, queremos Rivotril’”, contou Amadeu.
O professor apontou um fato curioso. “Fui ver a tese dele: ‘a sociedade tem muitos doentes, tem doença’. De fato, as pessoas estão adoecidas, cansadas etc. E a solução dele é neoliberal. A solução é: ‘o problema é teu, você tem que fazer. Enfrentar isso. E aí o que é o Rivotril? Não poderia ser melhor essa frase, porque é um remédio, que pode, num primeiro momento, fazer dormir, desacelerar, um efeito tranquilizante. E se usar muito, você fica completamente dependente dele. Você fica, na verdade, dependente de produtos químicos. Então, a solução dele é uma solução muito curiosa, é meio biologizante. E ele tem um público que ele se comunica com isso”, prosseguiu.
“O Jornal Nacional fez esse impacto. Mas a narrativa dele é essa. Então, ele escolheu o momento para aparecer e ele fez uma divulgação, sem dúvida nenhuma, com o que a gente chama de cortes de terceiros. Influencers estão distribuindo esses cortes. E agora eu quero crer que esses influencers não costumam distribuir essas coisas gratuitamente”, observou.
“Dito isso, ele, certamente, fez uma estratégia de campanha. Ele escolheu o momento para que pudesse jogar força total em torno do que foi a presença no Jornal Nacional e poder reproduzir isso na rede. Então, ele teve um crescimento absurdo, que dificilmente é um crescimento só orgânico. Por outro lado, nós não temos como provar isso. E aí eu quero defender minha tese: sempre falei que, no momento da campanha eleitoral, todo e qualquer pagamento, impulsionamento, tinha que vir o quanto estava sendo gasto naquele post. E não importa que eu impulsionei, depois eu parei de impulsionar”, analisou.
“O fato é que ele tem um número crescente, e uma das técnicas para a gente ver se foi só robô é olhar os comentários, mas ele também teve um crescimento de comentários. Algumas técnicas, usar mesmo bots para poder fazer isso, para ver da região de onde vem. Porque é muito comum se você olhar no crescimento, ele pode ter pago para crescer. Aí vem um crescimento de bots numa região que só é fácil de fazer, por exemplo, no Leste Europeu, vem com muitos bots. Mas isso você precisa fazer uma auditoria”, explicou o sociólogo.
Amadeu defendeu a tese de que seria importante seguir dois aspectos fundamentais: proibir o WhatsApp Business e exigir transparência no post, seja ele feito por quem for.
Ele lembrou técnicas da extrema direita. “Vocês estão vendo o caso do Fernando Cerimedo. Não é de comitê de campanha só, gente. A gente sabe disso. Então, na verdade, tem uma série de esquemas que interessa ao bolsonarismo. Só que tem gente nossa que acha: ‘Não, mas eu também impulsiono’. Eu sei, todo mundo impulsiona candidatos, mas não se iluda: você não tem tanto dinheiro quanto eles, você não tem a mesma estrutura e muitas vezes o nosso pessoal não recorre a artifícios que são, na minha opinião, muito enganadores. O fato está muito claro: criar aquele monte de bots para interferir nas eleições. É uma guerra que não é de programa, não é de convencer, não é de tratar o eleitor como digno. Quer dizer, é de uma enganação”.
Técnicas de autoajuda
Amadeu voltou a enfatizar a questão das técnicas de autoajuda utilizadas por Cury. “Esses outsiders, principalmente esses caras ligados à autoajuda, vêm, inclusive, com técnicas de marketing”. Porém, o sociólogo apontou que se trata do marketing que piora a situação da pessoa. “O cara fala assim: ‘Você podia melhorar e não melhora, está vendo? Leia o meu livro que você vai melhorar’. O problema é que a família do cara está desestruturada, não tem renda suficiente. Mas aí o cara vem com uma solução fácil para quem está adoecido”, refletiu.
Cury pode tirar votos de Flávio Bolsonaro?
Questionado se a virtual ascensão de Augusto Cury pode tirar votos de Flávio Bolsonaro e se pode ajudar ou prejudicar a candidatura de Lula, Sergio Amadeu analisou.
“Acho isso ruim sob um aspecto, porque, de fato, o Lula, diante desse cenário que está colocado, tem condições de ganhar no primeiro turno. Uma candidatura que não se esvazia por ter um parâmetro. Mas tem pessoas que estão muito entristecidas, adoecidas e que vão tentar se apoiar naquele tipo: ‘Pô, esse cara vai me ajudar’. Isso acaba bloqueando uma ida para resolver a eleição no sentido do avanço do país, de resolver problemas sociais”.
Quanto à influência sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro, Amadeu disse que o bolsonarismo tem “30% do eleitorado, que não vão mudar de voto. É um eleitorado que não se incomoda nem com todos os escândalos, com todas as questões que não são como a da Lava Jato, são coisas extremamente comprovadas, são coisas evidentes. Eles não se abalam. Por quê? Porque é um eleitorado de extrema direita consolidado”, afirmou.
“Agora, tem um eleitorado que poderia descobrir esse absurdo que é a ação da extrema direita: ‘Não, eu vou dar um voto de confiança aqui, vamos fortalecer uma política de distribuição de renda, uma política social, uma política democrática’. Quando vem um candidato como o Cury, que é um cara que diz: ‘Eu não sou de esquerda nem de direita’, ou seja, um cara de direita com o discurso extremamente individualista, sabe o que que ele faz? Cria uma confusão. Ele cria um problema: 2, 3, 4% do eleitorado que poderiam se deslocar para a esquerda”, acrescentou.
Assista entrevista completa de Sergio Amadeu

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