Vice de Cury dá explicação curiosa para “alta explosiva” e fala em “sobrenatural”

Vice de Cury dá explicação curiosa para “alta explosiva” e fala em “sobrenatural”
- O candidato Augusto Cury - Foto: Marina Uezima/Brazil Photo Press/AFP

A disparada surpreendente do candidato à Presidência da República pelo Avante, Augusto Cury, nos levantamentos divulgados nesta segunda-feira (31), trouxe à tona uma série de justificativas incomuns por parte de sua cúpula partidária. Enquanto analistas políticos e comitês adversários buscam explicações técnicas ou jurídicas para a rápida ascensão do psiquiatra e escritor, que assumiu a terceira colocação nas pesquisas dos institutos BTG/Nexus e AtlasIntel, o candidato a vice-presidente na chapa, o ex-deputado federal Júlio Delgado, ofereceu uma interpretação peculiar que rapidamente repercutiu nos bastidores políticos e ganhou traços de meme no debate público.
Ao ser questionado sobre as razões que teriam catapultado o desempenho de Cury nas intenções de voto, Delgado apresentou, em primeiro lugar, uma tese pautada no reconhecimento tardio da identidade do cabeça de chapa por parte do público leitor. Segundo o ex-parlamentar, a virada ocorreu no momento em que os eleitores conectaram a figura do autor de bestsellers de autoajuda ao nome que figura na disputa pelo Palácio do Planalto. “Ele já tinha 8 milhões de seguidores nas redes sociais. Agora as pessoas começaram a perceber que o escritor Augusto Cury é o candidato Augusto Cury”, declarou o vice.
No entanto, a justificativa que mais chamou a atenção e provocou reações irônicas entre especialistas em comunicação política deu-se no momento em que Delgado extrapolou os parâmetros tradicionais do marketing eleitoral. Para o ex-deputado, os levantamentos amostragem não conseguem capturar integralmente as dinâmicas que impulsionam a chapa do Avante, havendo elementos metafísicos em jogo. “Nem tudo tem explicação técnica. Às vezes a coisa pode ter um fator sobrenatural”, apostou o vice-presidenciável, recorrendo ao misticismo para fundamentar o avanço nas sondagens. A informação é da coluna do jornalista Bernardo Mello Franco, do diário carioca O Globo.
Desgaste com a polarização e salto nos índices
Além do apelo ao imponderável, o vice-presidenciável argumentou que a chapa estaria colhendo os frutos de uma “estafa generalizada” do eleitorado diante da polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PT). As pesquisas mais recentes mostraram Cury atingindo o patamar de 11% das intenções de voto no levantamento BTG/Nexus, um salto expressivo de nove pontos percentuais em relação ao levantamento anterior, quando figurava com 2%. Já no levantamento da AtlasIntel (em parceria com a Bloomberg), o médico apareceu consolidado na terceira posição, somando 7,8% do eleitorado. Antes ele tinha 3%.
O próprio Augusto Cury, em agenda pública realizada na sede do Sebrae, em Curitiba (PR), buscou conferir um tom de sobriedade aos dados, classificando o momento como uma “revolução totalmente silenciosa” deflagrada a partir do primeiro debate televisivo. “As pessoas estão vendo sinceridades nas nossas propostas. Foi um movimento completamente espontâneo”, defendeu o candidato do Avante, alegando ter investido apenas R$ 50 mil em impulsionamento digital nas últimas semanas, valor irrisório se comparado às cifras milionárias de seus concorrentes diretos.
O otimismo e as explicações não convencionais da chapa, contudo, são recebidos com extrema reserva pelos demais estados-maiores partidários. Dirigentes das principais forças políticas destacam que tanto o BTG/Nexus quanto a AtlasIntel utilizam metodologias não presenciais de coleta de dados, o primeiro por meio de abordagens telefônicas e o segundo via enquetes virtuais proprietárias. Por essa razão, a classe política aguarda com expectativa os próximos levantamentos do Datafolha e da Quaest, agendados para esta semana, cujas amostragens são colhidas em entrevistas presenciais nas ruas, o que servirá para aferir se o crescimento do escritor se consolida em abordagens face a face.
Suspeitas digitais e o cerco das autoridades eleitorais
Para além da retórica inspiracional do candidato e da tese “sobrenatural” aventada por seu vice, o ambiente que envolve a pré-campanha do Avante está longe de ser pacífico. As denúncias de manipulação de algoritmo e disparos automatizados nas redes sociais colocaram a candidatura sob o escrutínio do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e sob forte suspeita dos comitês adversários, que enxergam na repentina expansão digital de Cury um movimento orquestrado e ilegal.
Reportagens do canal de notícias GloboNews revelaram que a explosão das métricas do candidato, que incorporou mais de dois milhões de novos seguidores em seus perfis oficiais em apenas cinco dias, acendeu o alerta em consultorias de monitoramento digital. A velocidade do salto fez com que Cury se tornasse a figura pública com o maior ganho semanal de seguidores em todo o mundo. Todavia, investigações conduzidas por equipes técnicas de partidos concorrentes mapearam a atuação simultânea e padronizada de mais de 200 influenciadores digitais de pequeno e médio porte (com público entre 20 mil e 50 mil seguidores). O detalhe relevante é que esses produtores de conteúdo atuam predominantemente fora da cobertura política, em nichos como fitness, gastronomia e estilo de vida, e passaram a disparar vídeos de apoio usando roteiros idênticos.
Apurações jornalísticas conectam essa infraestrutura subterrânea à participação de Cury em uma transmissão promovida pelo coach e empresário Pablo Marçal, hoje inelegível. Integrantes da própria campanha do Avante reconheceram, sob reserva, que a onda de engajamento acelerou imediatamente após o encontro virtual, levantando indícios de que redes de militância treinadas e fazendas de robôs (bots) tenham sido acionadas para inflar artificialmente a presença digital do psiquiatra.
A contradição orçamentária é outro fator que pesa contra a justificativa oficial do Avante. Recentemente, o marqueteiro Leandro Grôppo desligou-se do comando da comunicação da candidatura citando a escassez de recursos e a ausência de verba para a produção de materiais de divulgação. O contraste entre a desidratação financeira do comitê formal e a emergência de uma ostensiva e milionária engrenagem de impulsionamento em redes levou analistas a levantarem a hipótese de financiamento não declarado ou uso de caixa dois.
Com enxurradas de comentários padronizados se multiplicando pelas caixas de texto de portais de notícias e perfis de adversários, invariavelmente concluídos com o número do candidato, o TSE já foi formalmente provocado por meio de representações jurídicas. Caberá à Justiça Eleitoral analisar os relatórios de dados e definir se as “forças” que impulsionaram Augusto Cury derivam de um fenômeno popular genuíno, de fatores inexplicáveis como quer seu vice, ou de um esquema estruturado de abuso do poder econômico e propaganda ilegal na internet.

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