A reservada oitiva do ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, prestada perante o juiz auxiliar do gabinete do ministro André Mendonça, no âmbito da Petição 16.653 do Supremo Tribunal Federal, desenhou um roteiro político e tático bastante claro. O depoimento, realizado em ambiente sob estrito segredo de justiça e sem a presença de representantes da Polícia Federal, revelou uma estratégia evidente de direcionamento de alvos: enquanto o investigado desfere um ataque frontal à corporação policial e a integrantes do núcleo do poder central, silencia de forma absoluta sobre os nomes da direita e da extrema direita e do meio político ostensivamente associados às apurações do escândalo Master.
O aspecto com mais relevo no depoimento é a omissão completa. Em uma oitiva de teor voluntário, na qual Vorcaro buscou expor supostas pressões e “libertar-se moralmente”, o nome do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República e destinatário de depósitos de R$ 72 milhões, sequer foi mencionado. Figuras como o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, e outros atores da direita e da extrema direita, cujos nomes gravitam no ecossistema de relações e apurações sobre o conglomerado financeiro, passaram à margem de qualquer citação espontânea do banqueiro.
Em contrapartida, o roteiro traçado no depoimento apontou as baterias diretamente contra as instâncias de investigação e do sistema de Justiça. O principal alvo das declarações de Vorcaro foi o diretor-geral da Polícia Federal, o delegado Andrei Rodrigues. Em um relato repleto de insinuações sobre a relação interpessoal mantida anteriormente com o chefe da PF, o ex-controlador do Master sustentou que a instituição estaria agindo por receio e para criar uma “cortina de fumaça”. Segundo ele, sua primeira prisão e a resistência da PF em colher suas declarações decorreriam do risco de revelação de “linhas de moralidade e ilicitudes” cruzadas em eventos sociais, convites para grandes eventos esportivos e encontros informais para “fumar charutos” dos quais o comando da corporação e interlocutores políticos teriam participado.
A tática de desgaste institucional não se limitou à Polícia Federal. Ao longo do depoimento, o investigado construiu uma narrativa que induz a ataques indiretos e velados à atuação do Supremo Tribunal Federal, ao desenhar um cenário em que decisões judiciais e medidas cautelares rigorosas seriam fruto de uma orquestração política. Vorcaro alegou ter ouvido de um concorrente do setor financeiro que havia um consenso no mercado e nas esferas de decisão de que ele deveria ser “queimado vivo em praça pública” para desestimular novos atores no sistema bancário pelos próximos anos. No mesmo trilhar, ao abordar suas movimentações perante o Ministério Público Federal e a Procuradoria-Geral da República, comandada por Paulo Gonet, o banqueiro buscou contrastar a postura da PGR com a da PF, sugerindo uma grave assimetria de tratamento para fragilizar a lisura do ecossistema investigativo e insinuar que a condução das apurações atende a interesses que extrapolam o rigor técnico-processual.
Para embasar o discurso de perseguição e tentar descredibilizar a ação da Polícia Federal, Vorcaro recorreu a relatos dramáticos sobre o período em que esteve sob custódia. Afirmou ter sido submetido a intimidações psicológicas e físicas durante os transportes aéreos e terrestres promovidos pela escolta da PF, detalhando que ficou retido por horas em um “caixote” sem ventilação e que, no translado de avião e helicóptero com óculos de vedação visual, ouvia provocações diretas de agentes como: “Isso que dá, vai querer falar disso do chefe? Vai acontecer isso”, “Quer mexer com os patrões, agora sua vida vai virar um inferno” e “É mais fácil, de repente, jogar ele daqui”.
O banqueiro também contestou veementemente a imagem de homem violento e perigoso que lhe foi atribuída em inquéritos policiais por conta de mensagens interceptadas. Argumentou que a Polícia Federal isolou trechos fora de contexto para criar uma narrativa de “chefe de máfia”, sustentando que declarações intempestivas em momentos de raiva eram seguidas de orientações como “esquece isso, estava nervoso”. Segundo Vorcaro, a criação desse perfil de extrema periculosidade serviu como pretexto deliberado para mantê-lo incomunicável em isolamento rígido em presídio federal, afastando-o do acesso a advogados e familiares.
O desenho apresentado na Petição 16.653 sugere uma clara conveniência política no direcionamento das declarações. Ao poupar figuras centrais da extrema direita e concentrar acusações, insinuações e ataques contra o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao direcionar desconfianças ao ambiente de decisões que envolvem o STF e a PGR, Vorcaro parece tentar reformatar o campo de forças do processo. O movimento busca enfraquecer os responsáveis diretos pela produção de provas de suas acusações, ao mesmo tempo em que preserva seus interlocutores de maior apelo na oposição, moldando o depoimento de forma a atender a contornos nitidamente políticos.
Vorcaro não cita Flávio Bolsonaro em oitiva e sinaliza ataque exclusivo à PF
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