Os desdobramentos do processo judicial decorrente da liquidação do Banco Master revelaram mais um capítulo de extrema tensão institucional no Supremo Tribunal Federal. Com a liberação do teor da oitiva realizada no âmbito da Petição 16.653, conduzida por um juiz auxiliar do gabinete do ministro André Mendonça, foram acendidos alertas de diferentes naturezas nos corredores da Polícia Federal. Na audiência em questão, o ex-banqueiro Daniel Bueno Vorcaro, após pedido formal de sua defesa alegando “graves intimidações por parte da PF”, passou a disparar acusações contra a conduta de agentes públicos da PF, alegando ter sofrido torturas, ameaças de morte durante transporte aéreo e cerceamento na construção de um eventual acordo de colaboração premiada.
Contudo, para um experiente servidor de carreira da Polícia Federal, lotado na capital federal, a movimentação possui contornos nitidamente políticos e calculados para desqualificar investigações em andamento. Em declarações exclusivas concedidas à Fórum, a fonte, cuja identidade é preservada por razões óbvias, avalia o episódio sem rodeios:
“Permitiram essa oitiva, que foi toda forjada. Nada parece fazer sentido… Tem toda a cara de uma armação”.
Armação e as ameaças implícitas
O agente em questão carrega uma trajetória de extrema relevância para a imprensa e para o país. Trata-se do mesmo servidor da Polícia Federal que, lotado no Palácio do Planalto no período crucial de transição governamental entre 2022 e 2023, denunciou com exclusividade à Fórum a tentativa de golpe de Estado articulada nos calabouços do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e liderada pelo general Augusto Heleno, sob ordens diretas do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Naquela ocasião, acompanhando reuniões secretas, que eram transmitidas à redação, a fonte alimentou uma série histórica de 14 reportagens decisivas da Fórum. As informações reportadas com exclusividade pela fonte anteciparam fatos que, mais tarde, se tornariam realidade e levariam ao julgamento que resultou na condenação de diversas figuras do alto escalão do poder público, prestando um serviço inestimável de transparência, combate ao golpismo e defesa rigorosa das instituições democráticas do Brasil.
Analisando a atual investida de Vorcaro no STF, o policial ressalta que basta um exame mínimo das declarações registradas para constatar a absoluta falta de consistência do depoimento:
“Lendo o depoimento, e qualquer um pode perceber isso, dá para ver que o que ele [Vorcaro] fala não tem qualquer lastro de realidade”, pontua.
Durante a audiência perante o magistrado auxiliar, Vorcaro sustentou ter sido vítima de um sistemático terror psicológico promovido por policiais federais. Entre as alegações, afirmou que agentes integrantes do grupo de escolta teriam sugerido, em tom de ameaça direta, atirá-lo de um helicóptero em pleno voo. O servidor da PF desmonta categoricamente essa narrativa a partir dos protocolos rígidos e padronizados de atuação dos grupos de elite da corporação:
“Essa história de que iam jogar ele [Vorcaro] do helicóptero… Eu conheço o pessoal do CAOP da PF, são colegas, é o pessoal do grupo especial, do grupo tático. Eles são treinados apenas para executar missões…. É o setor responsável pela aviação operacional e pelo transporte do Vorcaro… Esses caras [agentes] nunca falariam o que ele alega no depoimento… É tudo uma encenação no depoimento. Agora, com ou sem [o conhecimento] do Mendonça?”, questiona.
Articulação, ataques ao DG e disputa institucional
O pano de fundo do depoimento de Vorcaro expõe o avanço de uma controvérsia que ultrapassa largamente o âmbito do processo penal ordinário. No depoimento, Vorcaro afirmou expressamente que pretendia envolver em sua colaboração figuras da altíssima cúpula da República, citando nominalmente o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Segundo o depoente, a suposta proximidade prévia do diretor em eventos institucionais e sociais teria gerado uma “resistência de cima para baixo” no âmbito da Polícia Federal para colher e formalizar suas alegações.
Para a fonte ouvida pela Fórum, a realização do ato sem a presença da autoridade policial responsável pelo caso e a subsequente divulgação seletiva das declarações apontam para o uso instrumental da estrutura do gabinete do ministro André Mendonça:
“Nessa história toda, a única coisa que dá para inferir é que Mendonça deu a Vorcaro a oportunidade de se defender da investigação da PF que o levou à prisão. Como Mendonça já está em embate direto com Andrei, foi uma jogada para tentar descredibilizar a PF e jogá-la aos leões”, avalia o servidor.
A percepção dominante nos quadros internos da corporação é de que a tentativa de fragilização do diretor-geral Andrei Rodrigues não é um fato isolado, mas sim parte de uma tática orquestrada para desarmar operações complexas e de grande impacto conduzidas pela PF contra esquemas financeiros e políticos de grande porte:
“Eu não sei dizer, mas isso possibilitou construir uma narrativa para tirar a credibilidade da PF… Uma forma de tentar minar a instituição”, adverte a fonte.
O movimento desenhado no âmbito da Petição 16.653, conforme o agente policial, escancara uma tática de desgaste direcionado e calculado. Ao criar espaço no Judiciário para dar visibilidade a acusações sem o devido suporte probatório apresentadas por um investigado, gera-se artificialmente um clima de suspeição generalizada sobre os órgãos de persecução penal.
“Vorcaro ataca a pessoa, ou seja, o Andrei, para tentar enfraquecer a instituição e as acusações graves contra ele. E Mendonça se aproveita disso para expor a PF e sugerir essa coisa de ‘está todo mundo envolvido, Moraes, Andrei, Gonet’… Enfim, uma postura de ataque mesmo”, conclui o servidor, reforçando que a leitura de que a oitiva não passou de uma encenação calculada é amplamente compartilhada dentro da Polícia Federal.
O que dizem Mendonça e a defesa de Vorcaro
A reportagem da Fórum entrou em contato com o gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, e com o escritório do advogado Daniel Bialski, que representa o empresário Daniel Vorcaro. Até o momento da publicação desta matéria, nenhuma das partes enviou resposta aos questionamentos apresentados. O espaço permanece aberto para eventuais manifestações e esclarecimentos.
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