A metodologia educacional criada por Augusto Cury, hoje candidato à Presidência pelo Avante, abriu um mercado milionário também dentro das escolas públicas.
Levantamento do Fórum Investiga, núcleo de jornalismo investigativo da Fórum, identificou 25 contratos e instrumentos em dez estados relacionados à Escola da Inteligência e à Teoria da Inteligência Multifocal, desenvolvida pelo escritor. Os valores passam de R$ 30 milhões.
Só em Itajaí, no litoral de Santa Catarina, cinco contratos encontrados pela reportagem somam R$ 21,8 milhões entre 2017 e 2021.
Cury não assinava esses contratos. Quem aparece repetidamente como fornecedora é a Inteligência Educacional, empresa de Goiânia que comercializava os livros e materiais da Escola da Inteligência para prefeituras e governos.
Documentos encontrados pela reportagem ajudam a mostrar como esse negócio funcionava: Augusto Cury aparecia como autor das obras, uma empresa ligada à sua família cuidava da edição e a Inteligência Educacional tinha exclusividade para vendê-las e distribuí-las.
Como os livros de Cury chegavam às prefeituras
Um processo da Prefeitura de Caçador (SC) traz dois documentos que ajudam a reconstruir essa cadeia.
Em março de 2019, a Inteligência Educacional apresentou à Secretaria de Educação uma proposta para levar a Escola da Inteligência ao município. No documento, a empresa informa que os livros utilizavam a Teoria da Inteligência Multifocal idealizada por Augusto Cury e afirma possuir exclusividade sobre a comercialização do material.
Na mesma proposta, a empresa diz que os livros se tratavam de “direito autoral do Dr. Augusto Cury”.
Em proposta enviada a Caçador, a Inteligência Educacional citou o “direito autoral do Dr. Augusto Cury” e afirmou ter exclusividade na comercialização dos livros | Reprodução/Prefeitura de Caçador
Outro documento anexado ao mesmo processo mostra a divisão do negócio.
Um certificado do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) identifica a Escola de Inteligência Cursos Educacionais, de Ribeirão Preto, como responsável pela edição das obras.
A Inteligência Educacional aparece no mesmo documento como responsável exclusiva pela comercialização e distribuição.
E Augusto Cury aparece na relação de títulos como autor.
Certificado do SNEL mostra a Escola de Inteligência Cursos Educacionais como editora e a Inteligência Educacional como responsável pela comercialização e distribuição | Reprodução/Prefeitura de Caçador
Veja a íntegra do processo de Caçador.
O modelo aparece depois em diferentes cidades: o poder público comprava os materiais da Escola da Inteligência da empresa que possuía exclusividade para comercializá-los.
Itajaí: R$ 21,8 milhões em cinco anos
O maior volume encontrado pelo Fórum Investiga está em Itajaí.
A Escola da Inteligência chegou à rede municipal em 2017. Naquele ano, o contrato localizado pela reportagem foi de R$ 1,19 milhão.
Em 2018, foram R$ 2,68 milhões. Em 2019, R$ 4,31 milhões. Em 2020, o valor subiu para R$ 5,98 milhões.
O maior contrato veio em 2021: R$ 7.648.425 para kits e serviços do programa.
Em cinco anos, os instrumentos encontrados somam R$ 21.838.221.
Veja o contrato de 2021 publicado pela Prefeitura de Itajaí.
Contrato de 2021 prevê R$ 7,64 milhões para a Escola da Inteligência em Itajaí | Reprodução/Prefeitura de Itajaí
Esse contrato chegou a ser investigado pelo Ministério Público de Santa Catarina. O caso foi arquivado em 2023, depois que o MPSC considerou regular a contratação por inexigibilidade e apontou ausência de superfaturamento.
Veja a conclusão do MPSC.
Em Cuiabá, Cury aparece no próprio contrato
Se Itajaí mostra o tamanho do negócio, um documento de Cuiabá (MT) deixa explícita a ligação entre Augusto Cury e o produto comprado pela prefeitura.
O Contrato nº 437/2017 descreve a aquisição de kits da “Escola da Inteligência, de autoria do médico psiquiatra e escritor Augusto Cury”.
Na mesma frase, o documento informa que o material era “comercializado exclusivamente pela empresa Inteligência Educacional Ltda.”.
O contrato foi de R$ 1,04 milhão.
Dois anos depois, Cuiabá comprou mais 15.507 kits da Escola da Inteligência por R$ 3,48 milhões.
Os dois negócios somam R$ 4,53 milhões.
Veja a publicação no Diário Oficial de Contas.
Contrato de Cuiabá identifica Augusto Cury como autor da Escola da Inteligência e a Inteligência Educacional como responsável exclusiva pela comercialização | Reprodução/Diário Oficial de Contas de Mato Grosso
Da Bahia ao Tocantins
A presença da Escola da Inteligência no poder público foi muito além de Itajaí e Cuiabá.
O Fórum Investiga encontrou contratos e instrumentos em dez estados: Santa Catarina, Minas Gerais, Mato Grosso, Paraná, Bahia, Pará, Piauí, Rio Grande do Sul, Goiás e Tocantins.
Em Lagoa Santa (MG), três contratos somaram R$ 2,94 milhões. No Tocantins, uma contratação da Secretaria Estadual de Educação chegou a R$ 1,55 milhão.
Em Paranaguá (PR), um processo de R$ 998,7 mil também relaciona expressamente os materiais comprados pela prefeitura à Teoria da Inteligência Multifocal de Cury.
Também foram encontrados negócios em Ilhéus, Teresina, Porto Alegre, Valparaíso de Goiás, Porto União e Pomerode, além de contratação feita pela Fundação de Atendimento Socioeducativo do Pará.
Os valores considerados pelo Fórum Investiga são os registrados nos contratos e instrumentos públicos encontrados pela reportagem.
A empresa da família foi vendida por centenas de milhões
Enquanto a Inteligência Educacional vendia os materiais a prefeituras, a empresa responsável pela edição da Escola da Inteligência tinha outro destino.
A Escola de Inteligência Cursos Educacionais estava nas mãos da família de Cury: sua esposa Suleima, as filhas Camila, Carolina e Cláudia e o genro Bruno Oliveira.
Augusto Cury não aparecia como sócio.
Em 2020, a Arco Educação comprou os primeiros 60% da companhia por R$ 288 milhões.
O documento apresentado pela Arco à Securities and Exchange Commission (SEC), nos Estados Unidos, traz uma informação relevante para entender os contratos encontrados pela Fórum.
A companhia informou que a aquisição envolvia “apenas o negócio do setor privado da Escola da Inteligência”.
Veja o documento da Arco entregue à SEC.
Arco informou à SEC que a aquisição da Escola da Inteligência envolvia apenas o negócio voltado ao setor privado | Reprodução/SEC
É justamente aí que os dois lados da Escola da Inteligência se separam nos documentos.
A empresa da família foi vendida à Arco em uma operação que a compradora definiu como restrita ao negócio privado. Já os contratos encontrados pelo Fórum Investiga eram feitos com prefeituras e governos e apareciam principalmente em nome da Inteligência Educacional.
O certificado do SNEL mostra que as duas empresas estavam ligadas comercialmente: uma editava as obras e a outra tinha exclusividade para vendê-las e distribuí-las.
E os direitos de Cury?
Há ainda uma pergunta deixada pelos próprios documentos.
Quando a Escola da Inteligência chegou a Itajaí, em 2017, a prefeitura divulgou que Augusto Cury havia renunciado aos direitos autorais e patrimoniais do programa.
Veja a publicação da Prefeitura de Itajaí.
Em 2019, porém, a Inteligência Educacional escreveu à Prefeitura de Caçador que os livros eram “direito autoral do Dr. Augusto Cury”.
O documento que formalizou a renúncia anunciada em Itajaí não foi localizado pela reportagem. É ele que poderia esclarecer quais direitos foram transferidos e para quem.
Outro lado
O Fórum Investiga procurou Augusto Cury e a Inteligência Educacional.
Cury foi questionado sobre a renúncia dos direitos divulgada por Itajaí e sobre sua relação econômica com as obras vendidas ao poder público.
A Inteligência Educacional foi questionada sobre sua exclusividade na comercialização dos livros, sua relação com a Escola de Inteligência Cursos Educacionais e eventuais repasses relacionados às vendas públicas.
Até o fechamento desta reportagem, não houve resposta. O espaço segue aberto para manifestação.
Contratos públicos para metodologia de Augusto Cury somam mais de R$ 30 milhões
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