Estudo aponta fraude sistêmica no Provão Paulista de Tarcísio e impacto em listas de universidades

Estudo aponta fraude sistêmica no Provão Paulista de Tarcísio e impacto em listas de universidades
Provão Paulista - Tarcísio de Freitas - Foto: Paulo Guereta/Governo do Estado de SP

O Provão Paulista, criado pelo governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos), registrou 4.305 resultados estatisticamente atípicos entre estudantes do 3º ano do ensino médio da rede estadual em 2025, segundo estudo da Rede Escola Pública e Universidade (REPU). Metade dessas anomalias ficou concentrada em apenas 50 escolas. Para os pesquisadores, o conjunto apresenta “indícios consistentes e contundentes” de fraude sistêmica e afetou as listas de convocação para universidades públicas paulistas.
A nota técnica da REPU, divulgada em 4 de setembro, analisou microdados das edições de 2023, 2024 e 2025, informações sobre bonificações e listas de convocados para o ensino superior. A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) rejeita a conclusão de fraude sistêmica e afirma que resultados fora do padrão não comprovam, isoladamente, irregularidade.
Provão Paulista teve 12,7 vezes mais resultados atípicos que o esperado
Os pesquisadores acompanharam o desempenho dos mesmos estudantes ao longo do ciclo iniciado em 2023. Foi classificado como atípico o resultado que ficou mais de três desvios-padrão acima do desempenho esperado. Em termos aproximados, o corte representa um salto de cerca de 20 acertos em uma prova de 90 questões.
Em uma distribuição estatística normal, cerca de 0,15% dos resultados ficariam acima desse limite. Nas Etecs, a incidência foi de 0,17% em 2025. Na rede estadual administrada pela Seduc-SP, chegou a 1,91%: 4.305 dos 224.935 estudantes analisados, proporção 12,7 vezes superior à referência estatística.
O avanço das anomalias também foi abrupto. Em 2024, haviam sido identificados 1.026 resultados atípicos, ou 0,49%. Um ano depois, o número mais que quadruplicou. A REPU ressalta que um outlier não representa automaticamente fraude individual. O que sustenta sua conclusão é a escala e, sobretudo, a concentração dos casos.
Metade das anomalias ficou em apenas 50 escolas
Dos 4.305 resultados atípicos, metade apareceu em 50 das 3.594 escolas estaduais analisadas, equivalentes a apenas 1,4% das unidades. Em 44 escolas com pelo menos 30 participantes, mais de 40% dos estudantes tiveram desempenho fora do padrão. Em algumas unidades, o índice passou de 90%.
A concentração também foi regional. Metade dos resultados atípicos estava reunida em somente oito das 91 Unidades Regionais de Ensino. Para a REPU, a distribuição enfraquece a hipótese de que o fenômeno seja explicado apenas por melhoras excepcionais e isoladas.
Os autores testaram alternativas como mudança no perfil dos estudantes, preparação específica para o exame e evolução pedagógica. Segundo a nota, nenhuma explica satisfatoriamente a concentração dos saltos em determinadas escolas e regiões. O contraste com as Etecs é um dos pontos destacados: enquanto a rede estadual chegou a 1,91% de outliers, as escolas técnicas permaneceram próximas da referência estatística, com 0,17%.
1.608 convocados vieram de escolas com alta incidência de anomalias
O problema ultrapassa a avaliação pedagógica porque o Provão também funciona como processo seletivo para USP, Unicamp, Unesp, Univesp e Fatecs.
A REPU cruzou os resultados com listas de convocação para o primeiro semestre de 2026 obtidas pela Lei de Acesso à Informação. Entre 14.271 estudantes da rede estadual convocados para USP, Unicamp, Unesp e Fatecs, 1.608 vieram de 128 escolas nas quais mais de 20% dos resultados eram atípicos.
Quando o recorte sobe para escolas com mais de 40% de outliers, aparecem 1.266 convocados. Em nove unidades em situação extrema, 203 dos 225 estudantes analisados, ou 90%, tiveram resultados atípicos, enquanto 192, ou 85%, apareceram nas listas de convocação.
Entre escolas que reuniam simultaneamente convocados e resultados fora do padrão, a correlação calculada pela REPU chegou a 0,76, considerada forte. Os pesquisadores afirmam que o fenômeno afetou as listas, mas reconhecem que os dados não permitem identificar quais estudantes eventualmente fraudaram a prova nem quais vagas foram efetivamente ocupadas em decorrência de irregularidades.
Provão reúne vestibular, avaliação da rede e bonificação
Para a REPU, o desenho institucional ajuda a explicar a gravidade do problema. O Decreto nº 67.941/2023, assinado por Tarcísio, determina que o Provão integre o Saresp. A mesma prova também seleciona estudantes para universidades públicas e integra uma política de metas que produz consequências financeiras e funcionais para profissionais da rede.
A sobreposição ocorre em uma gestão marcada por mudanças profundas na educação paulista. A Fórum já detalhou a proposta de privatização da gestão de escolas apresentada pelo governo Tarcísio, outra frente das mudanças conduzidas na rede estadual.
Em 2025, São Paulo pagou R$ 544 milhões em bônus a servidores. Em 2026, o valor referente aos resultados do Saresp 2025 chegou a quase R$ 1 bilhão. A REPU sustenta que reunir avaliação, seleção universitária e bonificação no mesmo exame cria conflitos de interesse e incentivos à inflação dos resultados. O estudo, porém, não estabelece que os pagamentos tenham causado as anomalias.
Microdados tiveram oito versões em seis meses
A transparência das bases também entrou na investigação. Segundo a REPU, os microdados de 2025 tiveram oito versões entre fevereiro e agosto de 2026. A primeira não trazia variáveis como número de acertos e notas.
Após recursos pela Lei de Acesso à Informação, a Ouvidoria Geral do Estado determinou a disponibilização integral dos dados. Os pesquisadores afirmam que o atendimento continuou parcial. Em versões posteriores, informações de desempenho do 3º ano foram suprimidas e ainda estavam ausentes na base publicada em 17 de agosto.
A sucessão de alterações não comprova intenção deliberada de ocultação. O fato documentado é que as lacunas e retificações dificultaram a auditoria independente justamente dos resultados usados pela REPU para investigar o Provão.
Seduc-SP rejeita conclusão de fraude sistêmica
A Seduc-SP afirma que uma anomalia estatística não pode ser convertida em fraude sem evidência concreta sobre cada ocorrência. Como contraponto, a pasta comparou escolas incluídas no levantamento com resultados do Saeb e disse ter encontrado desempenho elevado ou evolução relevante em Matemática em parte das unidades.
A secretaria confirmou ainda seis casos de estudantes que entraram com celulares em salas e fotografaram questões na edição de 2025. Segundo a pasta, não houve acesso antecipado às provas, os exames desses alunos foram anulados e as equipes escolares receberam novas orientações.
A REPU pede revisão da fiscalização, controle mais rígido sobre dispositivos eletrônicos, auditoria permanente e separação entre a avaliação da rede e o vestibular. A edição de 2026, porém, já está em andamento e será usada para o ingresso no ensino superior em 2027. Com a nova aplicação no horizonte, Seduc-SP e Vunesp terão de decidir se mantêm os atuais mecanismos de segurança ou se alteram o modelo diante das anomalias encontradas nas provas de 2025.

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