A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF) publicou, na noite de sábado (5), uma mensagem de apoio ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), em meio ao confronto aberto entre Mendonça e Alexandre de Moraes por causa das investigações sobre o Banco Master.
Na publicação, feita no Instagram com uma fotografia em que aparece de mãos dadas com o ministro, Michelle recorreu à linguagem religiosa para chamá-lo de “escolhido e ungido do Senhor” e relatou ter tido uma “visão divina” sobre sua chegada ao Supremo, pedindo que ele seja “forte e corajoso” e não recue diante das pressões.
Michelle Bolsonaro sai em defesa de Mendonça com apelo religioso
A mensagem de Michelle vai além do apoio político convencional. A ex-primeira-dama descreveu um episódio ocorrido antes da indicação de Mendonça ao STF, em julho de 2021, quando, segundo ela, durante um momento de oração em uma “salinha de consagração”, teria recebido uma revelação divina.
“Deus me revelou a sua entrada naquele tribunal. Sim, Ele abriu a minha visão, e eu o vi entrando com uma nuvem branca sobre a sua cabeça. Foi um momento lindo!”, escreveu.
A partir dessa experiência, afirmou ter tido certeza de que a vaga seria ocupada por Mendonça. Ao final, dirigiu-se diretamente ao ministro: “Seja forte e corajoso. Não retroceda! Saiba que você é um escolhido e ungido do Senhor”.
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O uso da linguagem religiosa não é acidental nem inédito nessa relação. Jair Bolsonaro indicou Mendonça ao STF prometendo um ministro “terrivelmente evangélico”, e a posse do pastor presbiteriano, em dezembro de 2021, foi celebrada por Michelle ao lado de líderes religiosos.
O Senado aprovou a indicação por 47 votos a 32, em 1º de dezembro daquele ano, e Mendonça tomou posse em 16 de dezembro, na cadeira deixada por Marco Aurélio Mello.
Ao publicar agora uma mensagem que sacraliza a trajetória do ministro e enquadra as pressões que ele enfrenta como uma provação espiritual, Michelle aciona um repertório já consolidado: o de transformar disputas políticas e jurídicas em narrativas de fé, mobilizando uma base eleitoral que ela própria disputa, como candidata ao Senado pelo Distrito Federal.
A crise no STF: Mendonça x Moraes e o caso Banco Master
A manifestação de Michelle ocorreu após uma semana de confronto aberto entre os dois ministros. Na terça-feira (1º), Mendonça retirou o sigilo de documentos produzidos pela Polícia Federal no âmbito das investigações sobre o Banco Master.
O material contém mensagens e registros de contatos atribuídos ao empresário Daniel Vorcaro, fundador do banco, com Moraes e outras autoridades. Os documentos sugerem que Vorcaro procurou o ministro para tratar do andamento das investigações e de contatos com o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
A reação de Moraes foi imediata e de alta voltagem institucional. Na quinta-feira (3), ele encaminhou ao presidente do STF, Luiz Edson Fachin, relatórios de Inteligência da Polícia Federal com acusações graves contra Mendonça: possíveis atos de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade na condução das operações Compliance Zero, sobre o Banco Master, e Sem Desconto, que apura fraudes no INSS.
Entre as alegações estão interferência no trabalho de investigadores, participação irregular em negociações de colaboração premiada e escolha de alvos por razões pessoais ou políticas. Mendonça contesta as acusações.
Vale registrar que, segundo informações que circularam no período, ao menos um dos relatórios utilizados por Moraes contém ressalvas sobre o valor probatório e a confiabilidade de parte das informações nele contidas.
Repercussão e próximos passos
Na sexta-feira (4), Fachin tomou uma decisão que não atendeu integralmente ao pedido de Moraes: determinou a retirada dos documentos do Inquérito das Fake News e sua transferência para a Petição 16.704, sob responsabilidade da Presidência do STF, sem reconhecer a validade das acusações nem abrir investigação automática contra Mendonça.
Fachin concedeu cinco dias úteis para que a Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifeste sobre a admissibilidade do pedido; Mendonça terá o mesmo prazo para responder na sequência.
A crise também alcançou a Polícia Federal: a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal pediu que o procurador-geral Paulo Gonet se declare impedido de atuar nos procedimentos relacionados aos fatos em que seu nome aparece.
“Saiba que você é um ESCOLHIDO e UNGIDO DO SENHOR! Saiba que a amada Igreja o ama! Saiba que existem homens, mulheres, jovens e até crianças que oram, choram e se alegram por você!” — Michelle Bolsonaro, em publicação no Instagram em 5 de setembro
Na véspera da publicação de Michelle, o próprio Mendonça havia enviado um vídeo a líderes religiosos agradecendo “mensagens de oração e de carinho”, afirmando que “suas preces a Deus têm sido fundamentais para me sustentar e sustentar a minha família”.
O vídeo foi divulgado pela deputada federal Bia Kicis (PL-DF). A sequência de movimentos, da publicação de Mendonça aos líderes religiosos até a resposta pública de Michelle, revela uma estratégia coordenada de mobilização da base evangélica e bolsonarista em torno do ministro.
Ao inserir a linguagem da unção e da missão divina em uma crise que envolve acusações de improbidade e interferência em investigações, a ex-primeira-dama adiciona uma camada de pressão política e ideológica sobre o STF que vai além do debate jurídico, buscando influenciar a percepção pública sobre a conduta de um ministro cujo mandato é vitalício e cujas decisões não se submetem a eleições.
Em meio à crise no STF, Michelle Bolsonaro defende André Mendonça: “Escolhido e ungido do Senhor”
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