Ética a Nicômaco: conheça o livro de Aristóteles que Dino citou para falar de ironia com Fachin

Ética a Nicômaco: conheça o livro de Aristóteles que Dino citou para falar de ironia com Fachin
O ministro Flávio Dino em sessão plenária do STF - Foto: Victor Piemonte/STF

Durante a abertura do julgamento do ministro Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal (STF) nesta terça-feira (15), o ministro Flávio Dino e o presidente Edson Fachin discordaram em relação à interrupção de colegas durante a sessão. Após a divergência, Dino citou o livro “Ética a Nicômaco” para falar sobre ironia com Fachin. 
A citação ao livro ocorreu após Dino pedir a palavra para Gilmar Mendes, após os dois divergirem de Fachin em relação à questão da interrupção. No início, Fachin afirmou que  “gostaria de combinar” que o ministro  interessado no aparte deveria se dirigir ao presidente da Corte. No entanto, Dino rebateu afirmando que o aparte é “dirigido a quem está com a palavra”. Ele foi acompanhada por Gilmar Mendes. 
Logo depois, enquanto o decano falava, Dino pediu autorização para se manifestar a Fachin. “A ironia está nas entrelinhas e, sem dúvida, vossa excelência tem a palavra”, respondeu o presidente. “A ironia serve para descontrair o ambiente, vossa excelência sabe disso. Aristóteles”, rebateu Dino. 
Ética a Nicômaco
No livro Ética a Nicômaco, uma das principais obras de Aristóteles sobre ética e filosofia moral, o filósofo procura responder à pergunta: como o ser humano deve viver para alcançar uma vida boa e feliz?
A obra está organizada tradicionalmente em dez seções e desenvolve uma concepção de ética baseada na prática e na formação do caráter. O conceito central é a eudaimonia, geralmente traduzida como “felicidade”, “bem-estar” ou “vida plena”. Para Aristóteles, ela não corresponde simplesmente a sentir prazer ou estar satisfeito, mas a viver de acordo com a virtude ao longo de uma vida.
Algumas ideias fundamentais do livro são: finalidade da vida, virtude, justo meio, prudência, amizade, prazer e contemplação. Em resumo, a ética aristotélica não é principalmente um conjunto de regras sobre o que fazer, mas uma reflexão sobre que tipo de pessoa devemos nos tornar.
A ironia em Aristóteles
Aristóteles trata explicitamente da ironia no Livro IV da Ética a Nicômaco ao discutir as virtudes relacionadas à maneira como nos apresentamos e falamos socialmente. Ele distingue, nesse contexto, três atitudes:

Verdadeira sinceridade: a pessoa apresenta-se como realmente é, sem exagerar suas qualidades.
Jactância (alazoneia): a pessoa exagera suas qualidades ou afirma possuir méritos que não possui.
Ironia (eirōneia): a pessoa minimiza ou esconde suas próprias qualidades, dizendo menos do que realmente é.

É importante ressaltar que a ironia, para Aristóteles, não significa exatamente aquilo que hoje normalmente entendemos por “ironia” — isto é, dizer algo querendo significar o contrário, frequentemente com humor ou sarcasmo. Na Ética a Nicômaco, eirōneia está sobretudo relacionada a uma forma de autodepreciação ou subestimação deliberada de si mesmo. Aristóteles considera que, em determinadas circunstâncias, o indivíduo irônico pode ser mais agradável e menos inconveniente do que o jactancioso, embora a atitude virtuosa esteja associada à verdade e à medida adequada.

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