Planilhas apreendidas pela Polícia Federal (PF) com o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho, registram supostos pagamentos que somam mais de R$ 10 milhões a políticos próximos da família Bolsonaro. Segundo reportagem de Igor Mello e Flávio VM Costas para o ICL Notícias, os documentos fazem parte de uma investigação sobre a atuação do crime organizado na política do Rio de Janeiro.
Entre os nomes relacionados estão o ex-governador Cláudio Castro (PL), o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) Rodrigo Bacellar (União Brasil), o deputado federal Hélio Lopes (PL), o ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Alexandre Ramagem (PL) e o ex-secretário do governo Castro Gutemberg Fonseca (PL).
Somados, os valores atribuídos a esses cinco nomes chegam a cerca de R$ 10,2 milhões. A planilha, porém, reúne registros de mais de 60 políticos e aponta movimentações superiores a R$ 29 milhões. A PF ainda investiga a origem, a efetiva realização e o destino dos valores anotados.
Os documentos foram apreendidos em novembro de 2022, durante uma fase da Operação Smoke Free, que investigava a comercialização ilegal de cigarros no Rio. O material passou a ser analisado novamente em 2026 no âmbito da Operação Unha e Carne, voltada à investigação da infiltração do crime organizado na política fluminense.
Segundo relatório da PF, as anotações podem representar uma estrutura de cooptação de autoridades. A corporação afirma que os registros relacionam políticos de diferentes níveis de governo, incluindo integrantes do Congresso Nacional e da Alerj.
“Das planilhas acima descritas temos que a associação em comento capturou o poder público fluminense”, diz um dos relatórios. O documento afirma ainda que os valores atribuídos a Adilsinho incluiriam integrantes do Executivo e do Legislativo estaduais, além de servidores públicos municipais, estaduais e federais.
Nomes ligados ao bolsonarismo
O maior valor entre os nomes associados à família Bolsonaro é atribuído a Rodrigo Bacellar: R$ 5,43 milhões. Na planilha, ele aparece sob o codinome “Barba”. A PF afirma que há elementos para identificar o destinatário como o ex-presidente da Alerj.
“A pessoa denominada com o codinome ‘BARBA’ seja o ex-Deputado Estadual RODRIGO DA SILVA BACELLAR”, escreveu a corporação.
A defesa de Bacellar nega a identificação. Segundo os advogados, ele nunca utilizou o apelido “Barba” e não recebeu dinheiro de Adilsinho.
Cláudio Castro aparece com R$ 3,63 milhões. O ex-governador também nega ter recebido qualquer valor e afirma que os registros não correspondem a pagamentos feitos a ele.
Gutemberg Fonseca, aliado político de Flávio Bolsonaro, aparece com R$ 727,9 mil. Hélio Lopes, um dos aliados mais próximos de Jair Bolsonaro, tem R$ 323,2 mil atribuídos a seu nome. Já Alexandre Ramagem aparece com R$ 91,8 mil.
O UOL já havia noticiado em agosto a existência de uma planilha que associava R$ 727 mil a Gutemberg. A reportagem informou que a PF ainda analisava se os valores registrados nos documentos haviam sido efetivamente pagos.
Gutemberg negou conhecer Adilsinho e afirmou que nunca recebeu dinheiro dele para campanhas. Hélio Lopes também negou qualquer envolvimento e disse que suas contas eleitorais foram regularmente declaradas e aprovadas pela Justiça Eleitoral.
Relações políticas
Os nomes citados nas planilhas têm diferentes vínculos com o grupo político da família Bolsonaro no Rio.
Flávio Bolsonaro teve papel importante na ascensão de Cláudio Castro ao governo estadual após o impeachment de Wilson Witzel. Também foi responsável pela indicação de aliados para cargos na administração estadual, entre eles Gutemberg Fonseca.
Fonseca foi secretário de Defesa do Consumidor durante o governo Castro e já havia sido mencionado em investigações sobre supostas relações com integrantes do crime organizado. Ele nega as acusações.
A relação entre Fonseca e Flávio Bolsonaro também ultrapassou a política. Pouco depois de assumir o mandato de senador, Flávio tornou-se sócio de Yan Thierry Santos Fonseca, filho de Gutemberg, em uma empresa criada para participar da instalação de uma fábrica de sabão em pó no Rio. Segundo informações divulgadas à época pela imprensa, Flávio também seria representante comercial do empreendimento.
Hélio Lopes, por sua vez, conhece Jair Bolsonaro desde o período em que ambos estavam no Exército. Ele chegou a utilizar o nome “Helio Bolsonaro” na urna na eleição de 2018 e, durante o governo do ex-presidente, manteve presença frequente em compromissos oficiais.
Ramagem também integrou o círculo mais próximo da família Bolsonaro. Ele participou da segurança do então candidato Jair Bolsonaro em 2018 e posteriormente foi escolhido para comandar a Abin.
O ex-diretor da agência foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 16 anos, 1 mês e 15 dias de prisão pelos crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado. A decisão do STF determinou regime inicial fechado e, posteriormente, foi expedido mandado de prisão porque Ramagem estava fora do Brasil.
Crime organizado e política
Adilsinho é apontado pela PF como integrante da nova cúpula do jogo do bicho no Rio e como chefe de uma organização envolvida no comércio ilegal de cigarros. Segundo as investigações, o grupo teria movimentado cerca de R$ 5 bilhões entre 2015 e 2024.
O material apreendido com o bicheiro passou a ser tratado pela PF como possível evidência de uma estrutura de financiamento político informal. Em relatório produzido em junho de 2026, os investigadores afirmaram que as planilhas devem ser confrontadas com informações bancárias, fiscais e eleitorais.
“O achado ganha relevância porque não se trata de anotação genérica ou isolada”, diz o documento. Para a PF, a organização dos nomes, valores e totais pode indicar uma espécie de contabilidade paralela e permitir o rastreamento de recursos destinados ao financiamento político.
A corporação ressalva, porém, que a existência das anotações, por si só, não comprova que todos os pagamentos tenham sido realizados.
A defesa de Adilsinho também contesta a autoria das planilhas. Segundo os advogados, o bicheiro nega qualquer relação com gráficas ou pagamentos a agentes públicos e afirma desconhecer a origem dos documentos.
Castro e Bacellar também aparecem em outros elementos
A investigação reuniu outros elementos envolvendo Cláudio Castro e Rodrigo Bacellar.
Durante uma operação realizada em dezembro de 2025, a PF encontrou uma Mercedes na casa de campo de Bacellar, em Teresópolis. Os investigadores verificaram que o veículo estava registrado em nome de uma empresa relacionada a um dos operadores do esquema atribuído a Adilsinho.
A defesa afirma que o carro foi disponibilizado temporariamente por uma concessionária para que Bacellar pudesse avaliá-lo em uma negociação que não foi concluída. Segundo os advogados, o veículo foi devolvido e posteriormente vendido a outra pessoa.
Outro elemento citado pelos investigadores é a presença de Castro e Bacellar no Camarote Arpoador durante o Carnaval de 2024. O espaço pertence a Bernardo Coutinho Loyola, sobrinho de Adilsinho e apontado pela investigação como integrante da estrutura do jogo do bicho.
Castro foi fotografado no local ao lado do ex-deputado estadual TH Joias, posteriormente preso sob suspeita de atuar como braço político e financeiro do Comando Vermelho. Ramagem também frequentou o camarote.
As defesas sustentam que a presença no local não demonstra qualquer vínculo com atividades criminosas.
Castro afirmou que frequentou diferentes camarotes durante o período em que governou o Rio e negou categoricamente ter recebido dinheiro de Adilsinho. Segundo sua defesa, serviços gráficos contratados por sua campanha de 2022 foram regularmente declarados à Justiça Eleitoral.
Bacellar também negou os pagamentos e afirmou que não existe elemento concreto que comprove que ele seja o destinatário dos valores associados ao codinome “Barba”.
O ex-deputado Alexandre Ramagem não respondeu aos contatos da reportagem.
Gutemberg Fonseca afirmou não conhecer Adilsinho e negou qualquer pagamento. Hélio Lopes declarou que não reconhece os valores atribuídos a seu nome e disse estar à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.
A investigação da PF continua analisando as planilhas e outros dados financeiros, fiscais e eleitorais para verificar se os valores registrados nos documentos correspondem a operações efetivamente realizadas.
Planilhas de bicheiro indicam pagamentos de mais de R$ 10 milhões a aliados de Bolsonaro
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