Fotos e vídeos obtidos pela Fórum mostram uma van com identificação visual da Prefeitura de São Paulo, de placa ECT-9001, em movimentações no comitê eleitoral de Abou Anni (Podemos) e Julinho Fuzari (Republicanos), localizado na região central da capital paulista. Os registros levantam a suspeita de possível uso de um bem ou serviço público em benefício das campanhas.
Segundo consulta realizada pela reportagem, a placa está associada a uma Mercedes-Benz Sprinter 313, com ano-modelo 2009. A consulta, no entanto, não esclarece por si só a propriedade do veículo nem seu eventual vínculo contratual com a Prefeitura de São Paulo.
Os registros apresentados à Fórum são dos dias 6 e 8 de setembro, mas, segundo relatos recebidos pela reportagem, a mesma van, com a mesma placa, também teria sido vista no local nos dias 5 e 15, totalizando ao menos quatro episódios.
Em uma das imagens, é possível ver material de campanha de Abou Anni entre os itens transportados. Em outro registro, um homem aparece fechando a porta da van vestindo uma camiseta com os nomes de Abou Anni e Julinho Fuzari, candidatos que compartilham o comitê no endereço.
Em uma das imagens, um homem aparece fechando a porta da van vestindo uma camiseta com os nomes de Abou Anni e Julinho Fuzari.
Nas imagens dos dias 6 e 8, o veículo aparece com identificação visual da Prefeitura. Já no registro feito no dia 15, a van de mesma placa aparece sem os adesivos de identificação municipal. Fontes ouvidas pela reportagem afirmam que os adesivos de identificação da Prefeitura foram retirados depois que a movimentação da van passou a ser registrada.
A movimentação ocorreu em uma área com presença frequente da Guarda Civil Metropolitana (GCM), com uma viatura e motocicletas estacionadas nas proximidades dos comitês. No entanto, o veículo teria circulado sem que houvesse uma abordagem ou intervenção aparente.
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Partidos dos candidatos integraram gestão Nunes
Os partidos pelos quais Abou Anni e Julinho Fuzari disputam as eleições integram a composição política da gestão do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB).
O Podemos, legenda de Abou Anni, ocupou a Secretaria Municipal de Esportes e Lazer, comandada por Rogério Lins até abril deste ano. O ex-prefeito de Osasco deixou o cargo para pleitear uma vaga como deputado estadual.
Já o Republicanos, partido de Julinho Fuzari e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, também integra a base política de Nunes. Tarcísio é aliado do prefeito paulistano e apoiou sua reeleição em 2024. Na gestão municipal, o Republicanos indicou nomes para secretarias, como Milton Vieira, na Secretaria de Inovação e Tecnologia, e Rui Alves, na Secretaria de Turismo. Ambos deixaram os cargos em abril deste ano para disputar as eleições.
Paulo Sérgio Abou Anni, conhecido como Abou Anni, é ex-policial militar. Em 2018, foi eleito deputado federal por São Paulo pelo PSL. Em 2022, tentou a reeleição pelo União Brasil, mas não conseguiu renovar o mandato. Em 2024, disputou uma vaga de vereador em São Paulo pelo Podemos, sem ser eleito. Em 2026, volta a concorrer a deputado federal pelo partido.
Julio Cesar Fuzari, conhecido como Julinho Fuzari, é vereador de São Bernardo do Campo e está em seu quarto mandato na Câmara Municipal. Em abril deste ano, deixou o Cidadania e se filiou ao Republicanos. Em 2026, disputa uma vaga de deputado estadual e coordena a campanha de reeleição de Tarcísio de Freitas no Grande ABC.
Possível uso de bem público em campanha pode gerar apuração eleitoral
Caso seja confirmado que um veículo pertencente à Prefeitura foi utilizado para transportar materiais eleitorais ou prestar apoio a uma candidatura, o episódio pode envolver uma possível violação das regras eleitorais que restringem o uso da máquina pública durante as eleições.
A Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997), em seu artigo 73, inciso I, proíbe “ceder ou usar, em benefício de candidato, partido político ou coligação, bens móveis ou imóveis” pertencentes à administração direta ou indireta da União, dos estados e dos municípios. A legislação estabelece sanções que podem incluir multa e, em determinadas circunstâncias, cassação do registro ou diploma.
Para a professora e pesquisadora de Direito Eleitoral Sabrina Braga, caso confirmados, podem se enquadrar inicialmente nessa hipótese. “A princípio, esse pode ser um caso de conduta vedada, prevista no artigo 73, inciso I da Lei das Eleições.”
Segundo Braga, os responsáveis podem ficar sujeitos à aplicação de multa, além da possibilidade de cassação do mandato dos candidatos beneficiados, conforme os parágrafos 4º e 5º do artigo 73.
A professora, porém, chama atenção para a necessidade de esclarecer a propriedade da van. Segundo Sabrina Braga, é preciso verificar se o veículo pertence à Prefeitura de São Paulo ou se, embora estivesse a serviço da administração municipal, pertence a uma pessoa física ou jurídica.
Para Braga, mesmo que o veículo não pertença formalmente à Prefeitura, é necessário verificar a natureza do vínculo com o poder público e a origem dos recursos empregados para o custeio do transporte dos materiais.
“Ao meu ver, estando a serviço da prefeitura e sendo pago com recursos da prefeitura é conduta vedada passível de pena de multa.”
Quanto à possibilidade de cassação, a especialista ressalta que é necessário considerar a gravidade da conduta. “Quanto à cassação, a jurisprudência do TSE entende que a conduta deve ser grave o suficiente para desequilibrar o pleito.”
Outro lado
A Fórum procurou a Prefeitura de São Paulo para esclarecer a utilização da van de placa ECT-9001, questionando a propriedade do veículo, seu vínculo com a administração municipal e a finalidade das idas à Rua do Arouche, 144.
A reportagem também procurou as campanhas de Abou Anni e Julinho Fuzari para saber se tinham conhecimento da utilização do veículo e se houve alguma solicitação ou autorização para o transporte de materiais.
Até o fechamento desta reportagem, Prefeitura e candidatos não haviam respondido aos questionamentos da Fórum. Caso sejam enviados esclarecimentos, a matéria será atualizada.
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