PF sequer teria enviado a Mendonça conteúdos de bolsonaristas no caso Master, diz jornal

PF sequer teria enviado a Mendonça conteúdos de bolsonaristas no caso Master, diz jornal
- André Mendonça/Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

Revelações trazidas a público pelo jornal Correio Braziliense, com base em fontes no Supremo Tribunal Federal, trouxeram à tona suspeitas contundentes sobre a condução da Operação Compliance Zero. As informações apontam que a Polícia Federal operou com uma flagrante seleção de alvos ao sonegar do gabinete do ministro relator, André Mendonça, trechos cruciais de investigações que implicavam figuras diretamente ligadas à extrema direita e ao bolsonarismo, ao mesmo tempo em que acelerava e direcionava apurações contra adversários políticos do ex-presidente Jair Bolsonaro. A dúvida que paira no ar é se tal medida teria sido de alguma forma sugerida ou direcionada pelo próprio relator do inquérito, ou seja, Mendonça.
Conforme a reportagem do Correio Braziliense, a omissão se estende a diálogos gravíssimos mantidos entre Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, e figuras centrais do ecossistema bolsonarista na política, como, por exemplo, o ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha. Mais do que isso: dados que tangenciam o próprio tribunal superior também foram convenientemente retidos pela corporação. Ficaram de fora dos relatórios remetidos ao relator trechos que citam o ministro Nunes Marques, indicado ao STF por Bolsonaro, em que o magistrado aparece como suposto beneficiário de regalias como estadias em hotéis de luxo, ingressos VIP para shows internacionais e o custeio do aluguel de uma mansão. A apuração registrou ainda a menção a uma suposta “mesada” no valor de R$ 500 mil destinada ao filho do magistrado, Kevin Marques.
Nunes Marques nega veementemente qualquer prestação de serviços de seu filho à instituição financeira, assim como rejeita relações pessoais com o banqueiro. No entanto, o magistrado acabou por se declarar impedido de julgar petições ligadas à investigação contra o ministro Alexandre de Moraes, cujo nome foi ostensivamente exposto no inquérito após a PF enviar, com presteza cirúrgica, mensagens envolvendo a esposa deste, a advogada Viviane Barci, em contratos com o banco. O envio seletivo contra Moraes desencadeou uma crise sem precedentes na Corte, ao passo que citações ao ministro Dias Toffoli, cuja família teve contratos citados nos autos, também foram mantidas na sombra, levando o magistrado a deixar a relatoria original após reuniões administrativas do tribunal.
Inquérito encomendado e a sombra no gabinete de Mendonça
O cenário desenhado pelas revelações aponta para o contorno de uma apuração sob medida: enquanto o material que atingia opositores do bolsonarismo fluía rapidamente até o topo do Judiciário, os arquivos que poderiam comprometer aliados da extrema direita eram barrados no fluxo policial. Essa assimetria lança duras suspeitas não apenas sobre os investigadores, mas sobre o próprio ambiente do gabinete de André Mendonça.
Mendonça, que construiu uma relação de profunda simbiose com a Polícia Federal desde seus tempos no Executivo, estruturou em seu gabinete no STF uma equipe da corporação formada por agentes de sua estrita e irrestrita confiança. A figura central dessa engrenagem, como a Fórum já revelou, é o delegado da Polícia Federal Thiago Marcantonio Ferreira, braço direito do ministro desde o governo Jair Bolsonaro (PF). Quando Mendonça chefiou o Ministério da Justiça e Segurança Pública, Marcantonio atuou como seu assessor especial e foi por ele alçado ao comando da Diretoria de Inteligência da Secretaria de Operações Integradas (Seopi), órgão marcado por controvérsias e pela produção de dossiês contra opositores políticos durante a gestão bolsonarista.
Ao ser nomeado para a Suprema Corte, Mendonça fez questão de requisitar a cessão de Marcantonio para ocupar um cargo central e chefiar a análise técnica de processos criminais em seu gabinete, sendo o responsável direto pela instrução e acompanhamento das decisões relativas ao caso do Banco Master. A presença desse ex-diretor de inteligência do governo Bolsonaro comandando a suposta filtragem das provas no STF levanta questionamentos inevitáveis: ou o ministro atuava em um cenário de omissão conveniente, permitindo que a investigação corresse sob um direcionamento político cego, ou a retórica de “desconhecimento” serve como biombo para justificar o ativismo seletivo do gabinete. Ao contrário de outros ministros que determinam diligências de ofício ao identificarem lacunas investigativas, Mendonça preferiu adotar uma postura passiva diante dos policiais, alegando julgar estritamente o que lhe é encaminhado formalmente pelos investigadores.
A revelação do direcionamento reportada pelo veículo de Brasília cria um constrangimento institucional devastador. A estratégia da apuração concentrou forças em fustigar magistrados e lideranças contrárias ao clã Bolsonaro, blindando os nomes que orbitam a oposição. Diante do desmonte da narrativa de imparcialidade e dos questionamentos que colocam em xeque a conduta da equipe da PF e a passividade do relator, a Polícia Federal foi oficialmente procurada para esclarecer os critérios de retenção dos documentos, mas optou por manter-se em absoluto silêncio.

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