PP banca chapas do PL nos estados enquanto evita aderir nacionalmente à candidatura de Flávio Bolsonaro. A Direção Nacional do Progressistas já transferiu R$ 2.481.818,18 para duas candidaturas majoritárias encabeçadas pelo partido do presidenciável, ao mesmo tempo em que a Federação União Progressista participa de alianças com o PL em 11 unidades da Federação e lideranças do PP fazem campanha por Flávio em alguns dos principais colégios eleitorais do país.
O movimento ocorre sob uma fórmula que permite ao partido manter distância formal da disputa presidencial sem impedir acordos regionais. Ao decidir não apoiar nenhum candidato ao Planalto no primeiro turno, PP e União Brasil preservaram liberdade para seus diretórios e candidatos montarem palanques conforme as alianças de cada estado.
É nesse espaço que aparecem os contrastes. No Rio Grande do Sul, o PP está na vice de Luciano Zucco, declarou apoio a Flávio e viu sua direção nacional colocar R$ 2 milhões na campanha do candidato do PL. Em Mato Grosso do Sul, os dois suplentes de Capitão Contar são progressistas, o governador Eduardo Riedel apoia Flávio e o diretório nacional transferiu mais R$ 481,8 mil para a candidatura de Contar.
PP se diz neutro com Flávio, mas alianças com o PL chegam a 11 estados
As composições registradas para as eleições mostram a Federação União Progressista junto do PL no Acre, Alagoas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso do Sul, Piauí, Rio Grande do Sul, São Paulo e Tocantins.
Isso não significa que todas essas alianças estaduais tenham se convertido automaticamente em apoio a Flávio na eleição presidencial. Há situações diferentes dentro do mesmo grupo, e essa distinção é fundamental.
Na Bahia, por exemplo, a federação e o PL dividem a aliança estadual, mas ACM Neto (União Brasil) declarou apoio a Ronaldo Caiado. No Piauí, Joel Rodrigues (PP) tem o PL em sua composição estadual, mas manteve posição neutra na disputa pelo Planalto. Flávio, por sua vez, não escolheu Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, como seu candidato ao Senado no estado e apoia Tiago Junqueira, do próprio PL.
Em outras unidades, contudo, o apoio presidencial foi explícito.
No Rio Grande do Sul, o diretório estadual do PP anunciou apoio a Flávio Bolsonaro e indicou a deputada Silvana Covatti para ser vice de Luciano Zucco, candidato do PL ao governo. Em São Paulo, Guilherme Derrite (PP) afirmou durante a convenção estadual da federação que ali “não tem neutralidade” e declarou apoio ao candidato presidencial do PL.
Em Mato Grosso do Sul, o governador Eduardo Riedel (PP) foi igualmente direto. Em 27 de agosto, afirmou que a frente eleitoral montada no estado reunia partidos de direita e centro “em apoio ao Flávio Bolsonaro”. No Distrito Federal, Celina Leão (PP) declarou: “Meu candidato é o Flávio” e ressaltou a aliança estadual com o PL. No Acre, Mailza Assis (PP) também afirmou publicamente que seu voto presidencial será em Flávio.
R$ 2,48 milhões saíram da direção nacional para duas chapas do PL
É nesse mosaico que entram as prestações de contas eleitorais.
Levantamento nacional da Fórum nos dados da Justiça Eleitoral identificou 15 operações envolvendo estruturas ou candidatos do PP e campanhas do PL. Somadas, elas chegam a R$ 2.518.365,68.
O dinheiro não está espalhado pelo país. Ao contrário: R$ 2.481.818,18, ou 98,55% de todo o valor localizado, estão concentrados em apenas duas transferências feitas pela Direção Nacional do PP.
Em 26 de agosto, o diretório nacional progressista destinou R$ 2 milhões a Luciano Zucco, candidato do PL ao governo do Rio Grande do Sul.
Em 4 de setembro, outros R$ 481.818,18 foram transferidos para Capitão Contar, candidato do PL ao Senado por Mato Grosso do Sul.
São justamente dois estados em que a relação entre PP e PL vai além de uma aliança genérica.
No RS, PP está na vice, apoia Flávio e financia Zucco
No Rio Grande do Sul, a chapa de Zucco é compartilhada formalmente com o Progressistas. Sua candidata a vice é Silvana Covatti (PP).
Em 1º de agosto, um dia depois de a direção nacional do PP reafirmar que não participaria formalmente de uma aliança presidencial, o diretório gaúcho seguiu por outro caminho: confirmou Silvana na chapa de Zucco e anunciou que trabalharia pela candidatura de Flávio Bolsonaro ao Planalto.
Menos de quatro semanas depois, a Direção Nacional do PP transferiu os R$ 2 milhões para a campanha de Zucco.
O Rio Grande do Sul, portanto, reúne três dimensões distintas da aproximação: PP e PL dividem a mesma chapa estadual, o diretório progressista apoia Flávio para presidente e a direção nacional financia a candidatura encabeçada pelo PL.
Em MS, dois suplentes do PP estão na chapa de Contar
Em Mato Grosso do Sul, Capitão Contar também disputa o Senado em uma composição diretamente integrada por progressistas. Seus dois suplentes — Claudio Mendonça e Luciano Barbosa Rodrigues — são do PP.
A Federação União Progressista integra ainda a coligação que sustenta a candidatura à reeleição do governador Eduardo Riedel. A aliança tem dois candidatos do PL ao Senado, Capitão Contar e Reinaldo Azambuja, ambos apoiados por Flávio.
Foi para essa candidatura de Contar que a direção nacional progressista enviou R$ 481,8 mil.
Além do repasse nacional, o levantamento encontrou outros R$ 17 mil da campanha de Dagoberto Nogueira, do PP, para Paulo Corrêa, candidato do PL. Mato Grosso do Sul soma, assim, R$ 498.818,18 em operações PP→PL localizadas nas prestações de contas.
Mapa político é maior que o mapa do dinheiro
Os dados financeiros também mostram o que não aconteceu: não surgiu uma rede nacional de diretórios progressistas distribuindo grandes volumes de dinheiro para candidaturas do PL.
Fora do Rio Grande do Sul e de Mato Grosso do Sul, os valores caem drasticamente. Foram encontradas operações também em São Paulo, Goiás, Rio de Janeiro e Minas Gerais, mas todas somadas representam apenas uma pequena fração do total.
Em São Paulo, por exemplo, foram localizados R$ 15.650 em operações PP→PL. Desse montante, R$ 15 mil saíram da campanha de Guilherme Derrite para Renan Paes, candidato do PL a deputado estadual.
Politicamente, porém, a ligação paulista é muito mais ampla que os R$ 15 mil. A Federação União Progressista estadual declarou apoio a Flávio, Derrite fez campanha pelo presidenciável e Flávio incluiu o candidato do PP entre os nomes que apoia para o Senado.
O Distrito Federal oferece outro exemplo. Celina Leão declarou apoio a Flávio e sua coligação inclui o PL, mas o levantamento não encontrou dinheiro PP→PL por lá. O mesmo ocorre no Acre, onde Mailza declarou voto no candidato do PL e o partido integra sua aliança estadual.
Ou seja, o mapa dos apoios e das alianças com Flávio é maior do que o mapa das transferências financeiras encontradas.
Do outro lado, federação do PP está com o campo petista em quatro estados
A outra face da neutralidade aparece em Amapá, Pará, Paraíba e Sergipe. Nessas quatro unidades, a Federação União Progressista integra coligações que incluem o PT ou a Federação Brasil da Esperança.
Na Paraíba, o caso é especialmente claro. Lucas Ribeiro, candidato do PP ao governo, está em uma composição estadual que reúne também a federação formada por PT, PCdoB e PV. Flávio Bolsonaro, por outro lado, apoia Marcelo Queiroga, candidato do PL e adversário desse grupo.
Em Sergipe, as fronteiras são ainda mais cruzadas. A União Progressista participa da coligação estadual com a Federação Brasil da Esperança, enquanto o senador Laércio Oliveira, presidente estadual do PP, declarou apoio a Flávio e ao candidato do PL ao Senado, Rodrigo Valadares.
A posição nacional permite, portanto, que a mesma federação componha palanques estaduais com o PL em 11 unidades e com partidos do campo de Lula em outras quatro, sem assumir formalmente nenhum candidato ao Planalto.
Neutralidade foi escolhida justamente para preservar os arranjos estaduais
A autonomia regional não é uma consequência acidental da neutralidade. Ela está expressa na própria decisão partidária.
Em 31 de julho, após consultar seus diretórios estaduais, o Progressistas anunciou oficialmente que permaneceria neutro na disputa presidencial e que não convocaria convenção nacional para aderir a uma candidatura. A nota da Direção Nacional do PP registrou que a decisão havia sido tomada por maioria.
Em 5 de agosto, após o União Brasil também formalizar a posição, a própria Federação União Progressista informou que seus candidatos estavam liberados para apoiar, em cada estado, o presidenciável que melhor se ajustasse às articulações regionais.
A decisão nacional veio depois de a aproximação com Flávio ter chegado à discussão da própria Vice-Presidência.
Na véspera do anúncio do PP, Tereza Cristina (PP-MS) havia sinalizado disposição para integrar a chapa presidencial. Flávio chegou a afirmar que o convite havia sido feito e aceito, mas dependia da anuência do partido. A direção progressista manteve a neutralidade e a composição não avançou.
Sem o PP e a União Brasil na coligação nacional, a campanha de Flávio Bolsonaro ficou sem o apoio formal da federação no primeiro turno. Nos estados, no entanto, a mesma decisão preservou espaço para que as alianças seguissem caminhos diferentes.
Regra eleitoral vincula o dinheiro às alianças estaduais
A concentração dos R$ 2,48 milhões em Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul também acompanha a própria regra de distribuição dos recursos eleitorais.
O artigo 17 da Resolução nº 23.607 do TSE estabelece que recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha não podem ser transferidos para candidaturas de partidos que não pertençam à mesma federação ou coligação na respectiva circunscrição.
Nos dois grandes repasses identificados, esse vínculo está presente: no Rio Grande do Sul, o PP ocupa a vice de Zucco; em Mato Grosso do Sul, integra a coligação e ocupa as duas suplências de Contar.
O levantamento da Fórum não localizou transferência do PP, de seus diretórios ou de suas campanhas diretamente para a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. O dinheiro está nas disputas estaduais — justamente onde a neutralidade nacional deixou livres as composições regionais.
Neutralidade volta à mesa depois que o primeiro turno estiver decidido
A posição nacional, porém, já tem data para ser rediscutida.
A Federação União Progressista marcou para 6 de outubro, dois dias depois do primeiro turno, uma reunião para reavaliar sua neutralidade na eleição presidencial.
Até lá, governadores, senadores e deputados já terão sido eleitos ou saberão quais disputas estaduais seguirão para o segundo turno. Segundo a CNN Brasil, dirigentes da federação trabalham para reduzir as resistências internas e retomar as conversas com Flávio.
O encontro ocorrerá, portanto, depois de uma campanha em que PP e União Brasil permaneceram oficialmente sem candidato à Presidência, mas construíram alianças estaduais com os dois principais campos da disputa. Do lado do PL, a direção nacional do PP já colocou R$ 2,48 milhões em duas chapas, sua federação está coligada à sigla em 11 estados e lideranças progressistas fizeram campanha por Flávio — sem que o partido precisasse abandonar a neutralidade nacional no primeiro turno.
PP banca chapas do PL com R$ 2,4 mi nos estados, mas evita apoio nacional a Flávio Bolsonaro
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