A campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência pagou R$ 500 mil do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) à Hanbellseg Serviços e Locações Ltda., empresa de Sorocaba aberta em junho de 2025 e com capital social de R$ 6 mil.
O pagamento foi feito por PIX em 1º de setembro de 2026 e integra o contrato nº 05, assinado em 17 de agosto por R$ 1,5 milhão. Na prestação de contas, o serviço aparece como “CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO” e é especificado como “PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO OPERACIONAL, CONFORME NF 100”. Na parcial analisada pela Fórum Investiga, núcleo de investigação da Fórum, R$ 1 milhão ainda figurava como não pago. Os dados das contas eleitorais estão disponíveis no portal de dados abertos do TSE.
O contrato equivale a 250 vezes o capital social da empresa. Capital social não é faturamento nem patrimônio e essa comparação, isoladamente, não indica irregularidade. O contraste aparece no histórico comercial público da Hanbellseg: antes de receber R$ 1,5 milhão para planejamento estratégico, a atividade que aparece repetidamente nos registros oficiais é a locação de veículos.
Antes de Flávio, Hanbellseg alugava carros para gabinetes
Em novembro de 2025, cinco meses depois de ser aberta, a Hanbellseg recebeu R$ 14 mil do gabinete do deputado federal Fernando Marangoni (PODE-SP) por locação ou fretamento de veículo. Em dezembro, foram outros R$ 14 mil.
A relação continuou em 2026. Em junho, a empresa alugou ao gabinete de Marangoni um GWM Tank 300 PHEV, placa TJM-9I01, por R$ 14 mil. O mesmo carro aparece novamente por R$ 14 mil em julho. Em agosto, um BYD King, placa UFA-8B55, custou R$ 4,9 mil.
No gabinete de Adilson Barroso (PL-SP), outro recibo identifica uma Fiat Toro, placa TJC-6J86, por R$ 9 mil. Nas contas eleitorais de 2026, Marangoni declarou nove despesas com a Hanbellseg, somando R$ 83 mil, todas por cessão ou locação de veículos. Barroso declarou mais R$ 17,5 mil pelo mesmo tipo de serviço.
Foi nesse histórico de fornecimento de carros que surgiu um contrato de outra natureza e escala: R$ 1,5 milhão para “planejamento estratégico operacional” da campanha presidencial.
Setenta dias antes do contrato, empresa redefiniu suas atividades
A Hanbellseg pertence a Carolina Carmezin Beldi e Beatriz Carmezim Beldi, com metade das quotas para cada uma. No ato societário, Carolina aparece como engenheira elétrica e Beatriz como diretora administrativa.
Em 8 de junho de 2026, a JUCESP registrou a terceira alteração contratual da empresa. O objeto social foi redefinido e passou a abranger naquele instrumento apoio a edifícios, vigilância e segurança privada, escolta de pessoas e bens, proteção de lugares e serviços públicos, locação de veículos, consultoria e cursos. Setenta dias depois, em 17 de agosto, veio o contrato da campanha de Flávio.
A terceira alteração não permite, sozinha, estabelecer quais atividades foram acrescentadas naquele momento. Ela fixa, porém, quais negócios constavam do objeto social pouco mais de dois meses antes do contrato eleitoral.
Capital de R$ 6 mil contrasta com regras para segurança privada
Vigilância, segurança privada e escolta estão sujeitas à fiscalização da Polícia Federal. A Lei 14.967/2024 exige autorização da PF para empresas do setor. A própria Polícia Federal informa capital mínimo de R$ 730 mil para vigilância patrimonial, escolta e segurança pessoal e de R$ 182,5 mil para vigilância patrimonial exclusivamente desarmada. A Hanbellseg manteve capital de R$ 6 mil.
Em março de 2025, o Departamento Nacional de Registro Empresarial e Integração já havia enviado às Juntas Comerciais o Ofício Circular nº 36/2025, orientando que atos societários envolvendo segurança privada precisam de autorização prévia da PF.
Nas páginas públicas da alteração da Hanbellseg não aparece despacho da Polícia Federal, mas o processo menciona um “Arquivo de Outros (Docs. privados)”, cujo conteúdo não está disponível e pode conter a documentação exigida. A Fórum perguntou à PF se a autorização foi concedida e para quais modalidades.
Site cita PM, ROTA e segurança de autoridades
No site da Hanbellseg, a empresa afirma ter origem em anos de atuação “dentro da Polícia Militar e nas fileiras de elite da ROTA” e diz cuidar da segurança de “maiores autoridades do país”. A página não identifica quem são os profissionais com essa trajetória.
O site também oferece segurança pessoal, escolta armada, frota blindada e treinamento tático e exibe, em “Nosso Portfólio”, marcas como Azul, Saned, CSU, AL Engenharia e Lord sem detalhar contratos, períodos ou valores. O domínio está registrado em nome de Beatriz Beldi; o telefone (15) 99103-2313 é informado pela página. O perfil de Instagram indicado pelo próprio site estava indisponível quando consultado pela reportagem.
HB3 anuncia proteção executiva e declara parceria
Outra empresa do mesmo núcleo familiar, a HB3 Serviços de Terceirização Ltda., pertence a Mariana Carmezin Beldi. O telefone (15) 99103-2313 também aparece associado à HB3, e o site da companhia declara expressamente “Parceria com HanbellSEG”.
A HB3 anuncia proteção executiva, agentes, veículos blindados e segurança tática. Em seu contrato social, porém, aparecem apoio a edifícios, monitoramento eletrônico, fornecimento de pessoal e aluguel de veículos. Vigilância, segurança privada e escolta constam expressamente no objeto da Hanbellseg. Os sites não explicam como essas operações são divididas entre os dois CNPJs.
Carolina, Beatriz e Mariana também integram outra estrutura empresarial da família Beldi, que será detalhada pela Fórum em reportagem própria.
Campanha também contratou especialista em prestação de contas
A campanha contratou ainda a Lidera Consultoria Eleitoral e Partidária Ltda. por R$ 1,025 milhão para serviços contábeis. Entre as sócias está Denise Goulart Schlickmann, que atuou no TRE-SC e já ministrou cursos da Justiça Eleitoral sobre análise técnica de prestações de contas, diligências e elaboração de pareceres conclusivos.
Os objetos dos dois contratos são distintos. A presença de uma consultoria especializada em contabilidade eleitoral, porém, aumenta a relevância de uma explicação precisa sobre o que a Hanbellseg entrega como “planejamento estratégico operacional”. A Lidera será tema de reportagem própria.
Endereço aparece como 326, 329 e 68
A JUCESP registra a Hanbellseg na Rua Vicente Lamarca, 326, barracão parte B. O site usa o número 326, mas “sala A”. Recibos entregues à Câmara em diferentes meses trazem 329, sala B. Já o site da HB3 informa Avenida Vicente Lamarca, 68. Não há explicação pública para as diferentes referências.
Campanha de Flávio e PF foram questionadas
A Fórum perguntou à campanha de Flávio Bolsonaro por que a Hanbellseg foi escolhida, o que está incluído nos R$ 1,5 milhão, quem executa o trabalho, quais entregas estão previstas, como o preço foi formado e se há veículos, segurança, pessoal terceirizado ou subcontratações. Também pediu cópia do contrato.
A Hanbellseg foi procurada diretamente por WhatsApp para explicar o escopo do planejamento, a equipe mobilizada, a relação do serviço com a locação de veículos, a parceria com a HB3 e as atividades de segurança anunciadas publicamente.
Até a publicação desta matéria a campanha de Flávio Bolsonaro e a Polícia Federal não haviam respondido.
Campanha de Flávio paga R$ 500 mil a empresa de R$ 6 mil de capital por “planejamento estratégico”
💬 Comentários (0)
Seja o primeiro a comentar!