Uma rede de influenciadores digitais alinhados a Donald Trump está divulgando anúncios pagos no X para promover a candidatura de Flávio Bolsonaro e a plataforma de apostas Polymarket, bloqueada no Brasil desde abril, segundo informações divulgadas nesta quarta-feira (23) da Folha de S.Paulo.
As publicações, feitas entre 18 e 21 de setembro, trazem gráficos da plataforma e a indicação de “parceria paga”, mas omitem quem financia a publicidade. O caso levou o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) a pedir investigação ao Supremo Tribunal Federal.
Segundo a reportagem, ao menos 11 contas estrangeiras publicaram, entre 18 e 21 de setembro, anúncios sobre o crescimento da candidatura de Flávio Bolsonaro em apostas na Polymarket. As postagens circulam no X e são acompanhadas de gráficos da plataforma, que opera como um mercado de previsão: usuários apostam dinheiro no resultado de eventos futuros, incluindo eleições.
Abaixo de cada publicação aparece a indicação de “parceria paga”, mas o financiador da publicidade não é identificado em nenhum dos casos.
Um dos nomes mais expressivos na campanha é o do ex-deputado republicano Matt Gaetz, da Flórida, que conta com 3,4 milhões de seguidores no X. “Flávio pode salvar o Brasil. Este é grande prêmio das Américas”, escreveu Gaetz em uma das postagens.
Gaetz chegou a ser indicado por Trump para o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, mas desistiu da indicação durante o avanço de investigações sobre crimes sexuais, acusações que ele negou. A participação de uma figura desse calibre político não é acidental: ela sinaliza o grau de articulação da rede e o peso institucional que o movimento trumpista empresta à promoção da candidatura bolsonarista no exterior.
Conexões e envolvimento de figuras ligadas a Trump
As contas identificadas na campanha não são perfis genéricos. Segundo a Folha de S.Paulo, elas se concentram em influenciadores alinhados a Trump e ao movimento Make America Great Again (MAGA), além de perfis que adotam o formato visual de veículos de notícias internacionais para tratar de política global.
Entre eles está a empresa UHN Plus Media Network Inc., que afirma ser “movida” pela Polymarket e acumula 1,2 milhão de seguidores. Seu vice-presidente, Javier Negre, foi sócio de Fernando Cerimedo no La Derecha Diario. As conexões com o bolsonarismo brasileiro são diretas. Cerimedo é ex-consultor de Javier Milei e amigo de Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Ele atuou na eleição brasileira de 2022 e está atualmente preso na Bolívia, acusado de tentativa de homicídio contra sua então companheira Nadia Beller.
À Folha de S.Paulo, Beller afirmou que Cerimedo disse que trabalharia pela eleição de Flávio Bolsonaro. No centro financeiro da operação está Donald Trump Jr., filho do presidente norte-americano, que atua como conselheiro da Polymarket. Sua empresa, 1789 Capital, investiu aproximadamente US$ 500 milhões (cerca de R$ 2,5 bilhões) na plataforma, segundo a Folha. A sobreposição entre os investidores da Polymarket, os influenciadores que a promovem e as figuras históricas do bolsonarismo compõe um quadro de articulação transnacional que vai além de uma campanha publicitária convencional.
Implicações legais e pedido de investigação
A legislação eleitoral brasileira é clara em dois pontos diretamente atingidos pelo caso: proíbe que terceiros façam impulsionamento de propaganda em favor de candidatos e veda doações de entidades estrangeiras a campanhas no país. As publicações marcadas como “parceria paga” sem identificação do financiador se enquadram exatamente no tipo de operação que essas normas buscam coibir. A omissão do financiador não é um detalhe técnico: é o ponto que impede a fiscalização eleitoral de rastrear a origem do dinheiro.
O volume financeiro envolvido reforça a gravidade da suspeita. Segundo o Politico, citado pela Folha, a Polymarket desembolsou pelo menos US$ 350 mil (cerca de R$ 1,8 milhão) para influenciadores e criadores de conteúdo entre janeiro de 2025 e fevereiro de 2026. Parte desse dinheiro pode ter financiado as publicações sobre Flávio Bolsonaro, mas a ausência de transparência impede confirmar a relação.
Diante das suspeitas de financiamento estrangeiro à campanha, o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) formalizou pedido de investigação ao Supremo Tribunal Federal. A questão que o caso coloca ao STF e à Justiça Eleitoral é objetiva: quando uma plataforma bloqueada no Brasil financia influenciadores estrangeiros para promover um candidato brasileiro em rede social, sem revelar quem paga, há ou não violação das regras que protegem a soberania do processo eleitoral?
💬 Comentários (0)
Seja o primeiro a comentar!