Um vídeo pouco conhecido e gravado há muitos anos no Legislativo fluminense, resgatado recentemente pela equipe da campanha do PT, trouxe à tona uma das declarações mais explícitas de apoio político a organizações criminosas milicianas já registradas no país. As imagens recuperadas retratam o atual senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) no período em que exercia o mandato de deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), entre o fim dos anos 2000 e o início da década de 2010. Da tribuna da Casa, sem ressalvas ou pudores institucionais, o parlamentar discursou abertamente em defesa do avanço de grupos armados ilegais controlados por agentes de segurança sobre comunidades cariocas.
No registro audiovisual, Flávio dirige-se aos pares para conceituar a ação dessas quadrilhas sob uma ótica de legitimidade social, afirmando categoricamente que “não se pode levar para o lado de simplesmente estigmatizar as milícias e, em especial, os policiais que estão envolvidos nesse novo tipo de policiamento”.
A fala, que permaneceu fora do radar do grande público ao longo dos anos, escancara a matriz ideológica que serviu de sustentação para a expansão das milícias no Rio de Janeiro. Ao classificar extorsões, domínios territoriais e execuções sumárias como uma “nova modalidade de segurança”, o parlamentar atuou ativamente para normalizar uma das vertentes mais violentas do crime organizado no Brasil, antecipando o compadrio que marcaria sua trajetória pública, assim como a de seus familiares, pelas décadas seguintes.
Veja o vídeo:
https://x.com/PTnaCamara/status/2097414672332800119
Normalização do crime e simbiose com a milícia
A revelação do discurso proferido na Alerj ganha contornos ainda mais graves ao ser analisada em conjunto com o desenrolar das investigações que, ao longo dos anos, mapearam os tentáculos do crime organizado na política fluminense. Longe de ser um mero deslize retórico de ocasião, a tese do “policiamento alternativo” funcionou como o alicerce para uma série de ações concretas de proteção e exaltação de milicianos.
Durante seus sucessivos mandatos no Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro converteu seu gabinete parlamentar em um polo de sustentação ao paramilitarismo. O filho do ex-presidente não apenas homenageou figuras centrais do crime organizado com moções de louvor e comendas de honra, como a Medalha Tiradentes concedida ao líder do chamado “Escritório do Crime”, o assassino de aluguel Adriano da Nóbrega, mas também empregou parentes diretos de milicianos notórios em cargos comissionados de sua estrutura política.
A naturalização das milícias professada no vídeo resgatado expõe a engrenagem por trás dessas nomeações e condecorações: a construção deliberada de uma narrativa que buscava transformar agentes criminosos em “heróis de farda”, enquanto a população das periferias e até em bairros de classe média era submetida à extorsão armada, ao controle de serviços básicos e à violência sistemática.
Afronta sistemática às autoridades do Judiciário
A postura de leniência e incentivo às milícias observada no vídeo da Alerj desdobrou-se, ao longo da carreira de Flávio, em episódios diretos de hostilidade contra o Judiciário, em especial contra magistradas encarregadas de combater o avanço desses grupos criminosos.
Em 2011, ano coincidente com a época do discurso gravado, a juíza Patrícia Acioli foi sumariamente executada com 21 tiros em uma emboscada em Niterói, a mando de policiais militares envolvidos com milícias e extermínios que ela investigava. Diante da comoção nacional e da brutalidade da ação criminosa, Flávio usou suas redes sociais não para prestar apoio à família ou condenar a quadrilha, mas para culpar a própria magistrada assassinada, afirmando que a forma como ela “humilhava policiais” em audiências teria contribuído para que acumulasse “muitos inimigos”.
O método de inversão da responsabilidade voltou a se repetir em 2015, quando a juíza Daniela Barbosa Assumpção de Souza, da Vara de Execuções Penais, foi agredida e teve as roupas rasgadas por PMs milicianos amotinados durante uma fiscalização surpresa no Batalhão Especial Prisional (BEP), em Benfica. Na ocasião, a magistrada apurava denúncias de mordomias e regalias ilícitas concedidas a milicianos presos. Mais uma vez, em vez de defender a autoridade da lei, Flávio Bolsonaro atacou a juíza na tribuna, alegando que ela havia “desrespeitado” os milicianos e justificando a agressão sofrida por ela dentro do presídio.
Flávio Bolsonaro defendeu assassino de criança de 5 anos, denuncia Marcelo Freixo
O resgate do vídeo e o histórico de conivência com a criminalidade organizada ganham um capítulo contemporâneo com a recente denúncia apresentada pelo ex-deputado Marcelo Freixo. Segundo as revelações, Flávio Bolsonaro atuou diretamente na estratégia jurídica para adiar e travar o julgamento do policial militar Bruno Delaroli.
O agente é réu denunciado pelo assassinato da menina Ana Clara Machado, de apenas 5 anos, atingida no peito por um disparo de fuzil em 2021, enquanto brincava ao lado do irmão de 2 anos na porta de casa. O adiamento sucessivo do júri popular atesta como a atuação em favor de acusados por crimes brutais contra a vida permanece sendo um traço inalterado na carreira política do congressista.
VÍDEO: Flávio Bolsonaro faz defesa de milícias, chamando-as de “novo tipo de policiamento”
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