Uma emenda parlamentar de R$ 200 mil destinada pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop) está no centro de uma investigação da Polícia Federal sobre possíveis desvios de recursos públicos. A entidade é suspeita de ter vínculos com Robson Calixto, conhecido como “Peixe”, miliciano condenado no processo relacionado ao assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.
A informação foi divulgada pela coluna de Malu Gaspar, de O Globo. Além dos recursos indicados por Flávio, o Ifop recebeu R$ 300 mil em emenda da deputada federal Chris Tonietto (PL-RJ) e R$ 1,5 milhão do então deputado federal Chiquinho Brazão. Somados, os três repasses chegam a R$ 2 milhões.
Segundo a reportagem, as verbas recebidas em 2023 são os únicos recursos públicos destinados ao instituto até o momento. A PF apura se os repasses integram um esquema de direcionamento e eventual desvio de dinheiro público envolvendo integrantes do entorno da família Brazão.
Mensagens mostram negociação da emenda
A investigação ganhou novos elementos com mensagens encontradas no celular de Robson Calixto e obtidas pelo Estadão e pela revista Piauí. Os diálogos mostram que Peixe tratou diretamente com Maria de Fátima Bezerra, assessora de Flávio Bolsonaro conhecida como “Fafá”, sobre a obtenção da verba.
Em outubro de 2023, Calixto pediu ajuda à assessora: “amiga, vê com o nosso senador se consegue nos ajudar”.
Na sequência, Maria de Fátima o convidou para um evento no Rio de Janeiro em que Flávio estaria presente. “leva o deputado”, escreveu a assessora, em referência a Chiquinho Brazão. Em outra mensagem, acrescentou: “Você vai também e reforça o pedido com o senador”.
Dias depois, Calixto voltou a cobrar uma resposta sobre o instituto. “não esquece do Ifop não, vê se o senador consegue nos agraciar”, escreveu.
A emenda de Flávio foi efetivamente destinada ao Ifop em 29 de novembro de 2023.
Naquele período, Calixto trabalhava como assessor de Domingos Brazão no Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) e era apontado como homem de confiança do então conselheiro.
Chuteiras não teriam sido entregues
As emendas de Flávio e Chris Tonietto tinham como objetivo financiar projetos esportivos para crianças, incluindo a compra de chuteiras. A aplicação dos recursos passou a ser investigada após uma operação da PF realizada em julho, em conjunto com a Controladoria-Geral da União (CGU).
A apuração investiga suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
No caso da verba indicada por Flávio, os recursos foram destinados ao projeto “Jogadores do Futuro”. Segundo informações divulgadas pelo UOL, pais de alunos afirmaram que seus filhos não receberam as chuteiras previstas no termo de fomento.
Situação semelhante foi relatada em relação ao projeto “Vencedores do Futuro”, beneficiado pela emenda de Chris Tonietto. Também não houve confirmação da entrega dos materiais previstos.
O recurso de R$ 1,5 milhão destinado por Chiquinho Brazão tinha outra finalidade. A verba foi vinculada a um programa de capacitação profissional de mulheres, com aulas de informática na Baixada Fluminense. O dinheiro, contudo, só foi liberado em 2025, depois da prisão do ex-deputado.
TCU aponta problemas na aplicação dos recursos
Um relatório do Tribunal de Contas da União (TCU), divulgado pelo Valor Econômico, identificou suspeitas de irregularidades na utilização da verba indicada por Flávio.
Segundo a auditoria, o Ifop não teria buscado “condições vantajosas” para realizar as compras e não demonstrou “qualquer preocupação com a obtenção de economia ou eficiência na aplicação dos recursos públicos”.
A assessoria de Flávio Bolsonaro afirmou que a emenda “foi destinada dentro da legislação vigente e dos critérios técnicos do Ministério do Esporte”.
“A responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária, não do parlamentar. Eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle, como determina a lei”, afirmou a assessoria.
O Ifop, por sua vez, declarou “desconhecer” a atuação de Robson Calixto na articulação da emenda e negou manter relações com ele ou com a família Brazão.
“Em 2022, contratamos assessoria especializada em gestão de projetos e apresentação aos parlamentares. No fim de 2022, estivemos em todos os gabinetes dos parlamentares tanto do Senado, quanto da Câmara”, afirmou a entidade.
O instituto também declarou nunca ter tido “contato direto” com Flávio Bolsonaro.
Peixe foi condenado pelo STF
Robson Calixto foi preso em maio de 2024. Em delação premiada, Ronnie Lessa, que confessou ter executado Marielle Franco e Anderson Gomes, afirmou que Calixto foi responsável pela aquisição da submetralhadora HK MP5 utilizada no crime.
Calixto foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República por organização criminosa. Em fevereiro deste ano, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal o condenou a nove anos de prisão.
Os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão também foram condenados pelo STF. Cada um recebeu pena de 76 anos e três meses de prisão pelos crimes de organização criminosa armada, dois homicídios qualificados e um homicídio qualificado tentado relacionados ao caso Marielle.
Flávio Bolsonaro destinou R$ 200 mil a ONG ligada a miliciano
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