Filho do Zico assinou laudo para emenda de Flávio Bolsonaro de ONG inativa

Filho do Zico assinou laudo para emenda de Flávio Bolsonaro de ONG inativa
Filho do Zico assinou laudo para emenda de Flávio Bolsonaro de ONG inativa 1

Um atestado apresentado ao governo federal para comprovar a experiência do Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop) em projetos esportivos foi assinado por Bruno de Sá Coimbra, filho de Zico. Até aí tudo bem, não fosse o fato de o laudo conter informações que entram em contradição com documentos da própria ONG.
Segundo informações obtidas pela coluna Sem Filtro, do jornalista Rubem Berta no site Ururau, o instituto é alvo de investigação da Polícia Federal por suspeitas envolvendo a execução de emendas parlamentares. Entre essas emendas, há uma de R$ 200 mil destinada pelo senador e candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro.
O documento, denominado atestado de capacidade técnica, é uma das exigências para que organizações possam receber recursos públicos. No caso do Ifop, o atestado foi apresentado ao Ministério do Esporte durante o processo de liberação da emenda de Flávio, destinada a um projeto de aulas gratuitas de esportes em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.
Datado de 11 de abril de 2023, o documento é assinado por Bruno Coimbra na condição de presidente da Associação Zico Fazendo a Diferença. Nele, consta que a associação teria mantido uma parceria com o Ifop para a “capacitação técnica e educação continuada de 315 equipes do projeto Esporte RJ”, realizado entre outubro de 2013 e outubro de 2015, com recursos do governo do Estado do Rio.

A informação, porém, conflita com uma ata de assembleia geral do próprio Ifop, realizada em 13 de maio de 2022 e registrada em cartório. O documento afirma que, entre 6 de agosto de 2012 e 13 de maio de 2022, a entidade “constava inativa e não realizou atividades”.
Dessa forma, segundo a ata, o instituto não teria realizado atividades durante o período indicado no atestado assinado por Bruno Coimbra.
Bruno diz que documento se referia a ex-colaborador
Procurado pela coluna, Bruno Coimbra confirmou que o Ifop não realizou a parceria descrita no atestado. Segundo ele, o documento foi solicitado para comprovar a experiência profissional de José Rômulo Oliveira Alves, atual presidente da ONG.
“O atestado foi solicitado para a comprovação de experiência técnica pela passagem em nossos quadros do ex-colaborador José Rômulo Oliveira Alves, o qual esteve conosco dentre o período de out/2013 a jul/2015, e não para o Ifop”.
Questionado sobre a assinatura que aparece no documento, Bruno confirmou que é sua.
“Sim, é minha assinatura, para atestar a capacidade técnica do José Rômulo Alves no nosso projeto, apesar de estar no nome desse Instituto”.
Para a liberação de recursos de emendas, entretanto, o governo federal exige documentos que comprovem a capacidade técnica da entidade beneficiária para executar o projeto. O atestado apresentado pelo Ifop, portanto, está em nome da organização, e não de José Rômulo.
Ligação com antigos dirigentes da Associação Zico
José Rômulo foi dirigente da Associação Zico Fazendo a Diferença durante a execução do projeto Esporte RJ. Entre 2013 e 2015, a iniciativa ofereceu aulas gratuitas de diferentes modalidades esportivas por meio de um contrato de R$ 32 milhões com a Secretaria estadual de Esportes do Rio.
José Rômulo ocupava um dos cargos de direção e recebia R$ 20,3 mil mensais.
Outro dos principais dirigentes do projeto era Fábio Wanderson da Silva Sodré, que tinha salário de R$ 21,4 mil. Ele chegou a receber uma procuração com plenos poderes para representar a Associação Zico. Thiago de Sá Coimbra, irmão de Bruno, também recebia R$ 21,4 mil.

Em fevereiro deste ano, Fábio Wanderson passou a ocupar a vice-presidência do Ifop, segundo ata da entidade.
José Rômulo, por sua vez, assumiu a presidência do instituto em maio de 2022. A organização havia sido criada em 2008, no bairro Zé Garoto, em São Gonçalo, e pertencia originalmente aos integrantes da família Procópio.
Assim, antigos dirigentes do projeto esportivo da Associação Zico passaram a comandar o Ifop anos depois da execução do programa. A entidade posteriormente apresentou ao governo federal documentos para comprovar experiência técnica e obter recursos públicos.
Outro atestado foi assinado por atual vice-presidente
O Ifop também apresentou ao governo federal um atestado emitido pelo Instituto Hebrom, de Aparecida de Goiânia (GO), segundo o qual as duas organizações teriam realizado uma parceria em um projeto de escolinha de futebol em 2022.
O documento foi assinado justamente por Fábio Wanderson, que atualmente ocupa a vice-presidência do Ifop.

Com os atestados, o instituto conseguiu executar, além da emenda de R$ 200 mil de Flávio Bolsonaro, uma verba de R$ 300 mil destinada pela deputada Chris Tonietto (PL-RJ), também para um projeto esportivo. A entidade recebeu ainda R$ 1,5 milhão de uma emenda do então deputado Chiquinho Brazão.
As emendas de Flávio e Chris já haviam sido alvo de denúncias sobre possíveis irregularidades na compra de materiais esportivos que não teriam sido entregues.
PF investiga execução das emendas
As suspeitas levaram a Polícia Federal a investigar os projetos. Em julho, uma operação foi realizada com autorização do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
As investigações apontam para a atuação de Robson Calixto Fonseca, conhecido como “Peixe”, condenado junto com os irmãos Brazão no processo relacionado aos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.
Reportagens da revista Piauí e do Estadão também revelaram mensagens trocadas por Robson com uma assessora de Flávio Bolsonaro nas quais os dois tratavam da emenda destinada ao Ifop.
Apesar das investigações, a organização continuou a obter contratos públicos. Em abril deste ano, o Ifop assinou dois contratos com o governo do Estado do Rio, por meio da Suderj, que somam mais de R$ 7 milhões para a realização de projetos esportivos com aulas gratuitas.
Os contratos também passaram a ser questionados por suspeitas relacionadas à compra e ao fornecimento de equipamentos. Segundo levantamento divulgado nesta semana, foram adquiridos materiais que teriam pouca ou nenhuma utilidade para a execução dos projetos.
A Suderj informou que os dois contratos serão rescindidos.
Na prática, as atividades já estavam paralisadas desde julho, quando as contas da entidade foram bloqueadas e o CNPJ do Ifop foi suspenso por determinação do STF.
 

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