A TV Globo, sobretudo alguns comentaristas da GloboNews, têm criticado sistematicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva por não ter aceitado o convite para ir ao debate de primeiro turno promovido pela emissora. O que se preparava ali para o presidente era algo bem próximo a um tribunal de inquisição: Lula cercado por três candidatos nanicos despejando ódio sobre ele e seu governo.
Ele, acertadamente, recusou o convite, ao contrário de seu oponente, o senador Flávio Bolsonaro (PL), que desistiu de última hora. Ficou apavorado com a possibilidade de ser massacrado por Renan Santos (Missão), o único que faz críticas a ele.
Na mesma data e horário, Lula participou do Flow Podcast. Até o momento em que este texto foi publicado, a audiência acumulada do programa já passava de dez milhões de internautas. Um recorde absoluto.
É preciso, mais uma vez, voltar no tempo para perceber quem é quem e que certas coisas não mudam. O cancelamento do debate presidencial desta quinta-feira (01), motivado pela recusa de Lula e pela subsequente desistência de Flávio Bolsonaro, trouxe à tona uma postura crítica da emissora que contrasta de forma violenta com a complacência e a “neutralidade fria” adotada pelo canal no passado.
“Estratégia de campanha”
Em 1989, quando o país vivia sua primeira eleição direta pós-ditadura, o então líder das pesquisas, Fernando Collor de Mello, boicotou categoricamente todos os debates do primeiro turno. Naquela oportunidade, a Rede Globo não apenas blindou o candidato de críticas contundentes, como escalou suas principais vozes — entre elas, os âncoras Cid Moreira e Sérgio Chapelin e o analista Alexandre Garcia — para explicar pedagogicamente ao público que a ausência de Collor era uma legítima e compreensível “estratégia de campanha”. O jornalismo da época tratava o sumiço do líder como um cálculo político natural de quem desejava “evitar uma arena de agressões e ataques de adversários menores”. Não havia púlpitos vazios humilhantes, nem sermões editoriais sobre o “direito do eleitor”. Tudo era justificável sob a ótica da tática eleitoral.
Corte para 2026. Diante de um cenário político hiperpolarizado, Lula optou por não comparecer ao debate do primeiro turno da emissora. O presidente justificou sua ausência de forma pública em entrevista ao Flow Podcast, classificando o atual modelo televisivo de debates como “infrutífero e desproporcional”, um formato que prioriza “piadinhas” e ataques pessoais em detrimento de discussões programáticas profundas. Do ponto de vista estritamente pragmático e eleitoral, a decisão de Lula amparava-se exatamente na mesma lógica tática que a Globo considerava legítima em Collor no século passado: evitar o desgaste de se tornar o saco de pancadas exclusivo de uma bancada de opositores.
Longe de toda a complacência com Collor de 1989, a cobertura e os comentários da Globo em 2026 passaram a fustigar a decisão do petista, rotulando a ausência como um “desrespeito à democracia” e uma suposta “fuga do confronto”. A emissora chegou a costurar um regulamento rígido prevendo a exposição destacada da cadeira vazia com o nome do candidato ausente e a formulação de perguntas direcionadas ao fantasma do púlpito — uma punição estética e moral que só foi barrada na última hora por uma liminar do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A jogada combinada
Já nas eleições de 1994 e 1998, a estratégia da emissora para favorecer o então candidato e, logo a seguir, presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que nadava de braçada por conta do sucesso do Plano Real, foi bem mais sutil e ardilosa. A Rede Globo, em uma jogada combinada com o comando da campanha do ex-ministro da Fazenda de Itamar Franco, simplesmente resolveu não realizar seus tradicionais debates presidenciais de primeiro turno. FHC foi eleito e reeleito no primeiro turno e cruzou seus oito anos em mar de almirante e em paz com a emissora.
Bolsonaro meteu o atestado
Já o então candidato Jair Bolsonaro, na ocasião no PSL, teve uma pretensa justificativa durante o segundo turno de 2018, contra Fernando Haddad (PT): a facada que tomou em Juiz de Fora, cerca de um mês antes. Ele alegou na ocasião que poderia ter problemas com sua bolsa de colostomia caso fizesse esforço prolongado indo aos debates.
Na mesma semana, no entanto, Bolsonaro cumpriu várias agendas públicas, entre elas uma visita à Arquidiocese e outra à sede da Polícia Federal, as duas no Rio de Janeiro.
A Globo “respeitou” a ausência e não realizou debates no segundo turno daquela eleição.
Collor, FHC e Bolsonaro não foram a debates e Globo não se indignou
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