Fechamento da Embaixada dos EUA é “jogo de intimidação” para criar clima de tensão nas eleições, diz analista internacional

Fechamento da Embaixada dos EUA é “jogo de intimidação” para criar clima de tensão nas eleições, diz analista internacional
Agentes de segurança na Embaixada dos EUA em Brasília - Foto: SERGIO LIMA / AFP)

A decisão dos Estados Unidos de suspender os atendimentos presenciais em sua Embaixada e nos consulados no Brasil, seguida pelo fechamento da Embaixada da Austrália em Brasília, a apenas dois dias do primeiro turno das eleições, deve ser analisada dentro do ambiente de pressão política exercida por Washington sobre o Brasil nos últimos meses. A avaliação é de Ana Prestes, cientista política, analista internacional e apresentadora da TV Fórum, que vê na movimentação características da atuação do secretário de Estado de Donald Trump, Marco Rubio.
Em análise à Fórum, Ana Prestes afirma que o fechamento das representações diplomáticas tem o propósito de produzir uma sensação de instabilidade no país justamente na reta final da eleição.
“Essa movimentação dos Estados Unidos, e que acaba influenciando seus parceiros, por exemplo, a Austrália, de fechamento de embaixada, isso tudo é bem a cara do Marco Rubio mesmo e do método e da forma como ele age. Então, eles acabam criando um clima de tensão”, afirma.
Como a Fórum mostrou nesta sexta-feira (2), os Estados Unidos suspenderam o atendimento presencial na Embaixada em Brasília e em seus consulados no país alegando “questões de segurança”. Funcionários da representação na capital foram orientados a trabalhar de casa, e cidadãos estadunidenses receberam recomendação para não se aproximar das instalações diplomáticas. Washington citou “ameaças”, mas não informou publicamente sua origem, natureza ou grau de risco.
Horas depois, a Austrália anunciou que sua Embaixada em Brasília também permaneceria fechada nesta sexta-feira. O governo australiano informou que a decisão foi tomada por “preocupações com a segurança” e passou a recomendar que seus cidadãos evitem também as instalações diplomáticas dos Estados Unidos e seus arredores.
Não há, até o momento, confirmação oficial de que os fechamentos estejam relacionados às eleições deste domingo (4).
“Não existe clima de violência”
Para Ana Prestes, porém, é justamente a ausência de informações concretas sobre uma ameaça de grandes proporções que torna o episódio politicamente relevante.
Na avaliação da analista internacional, não há no Brasil um cenário que justifique apresentar o país, às vésperas da votação, como se estivesse diante de uma situação excepcional de insegurança.
“Não tem nenhum risco para nenhuma embaixada hoje no Brasil, para nenhum consulado, não existe nenhum clima de violência no país. Então, a única justificativa para eles fecharem as portas e darem esse alerta é realmente ajudar a criar um clima”, diz.
Oficialmente, o governo estadunidense sustenta que a suspensão está relacionada a preocupações de segurança e afirma estar trabalhando em cooperação com autoridades brasileiras. Não foram divulgados, no entanto, detalhes que permitam dimensionar publicamente a ameaça. Procurado pela Fórum, o Itamaraty não se pronunciou sobre o caso.
Pressão dos EUA sobre a eleição brasileira
O episódio acontece num momento em que a possibilidade de interferência estadunidense no processo eleitoral brasileiro já provoca reação inclusive dentro dos próprios Estados Unidos.
Em 24 de setembro, 31 parlamentares democratas estadunidenses enviaram uma carta a Marco Rubio acusando o governo Trump de promover um “esforço coordenado” de pressão sobre o Brasil antes das eleições. Segundo os congressistas, medidas econômicas, diplomáticas e políticas adotadas por Washington poderiam interferir no processo eleitoral brasileiro.
Dias depois, os senadores democratas Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch fizeram uma nova cobrança ao secretário de Estado. Em documento oficial, afirmaram que a administração Trump estaria usando “pressão diplomática, econômica e política” de maneira capaz de enfraquecer as instituições democráticas brasileiras e a confiança no processo eleitoral. Eles também cobraram de Washington o compromisso de reconhecer o resultado oficialmente certificado das urnas.
As tensões não começaram nesta semana.
Em julho de 2025, a própria Casa Branca vinculou medidas contra o Brasil ao processo contra Jair Bolsonaro. Em ato presidencial, Trump afirmou que o tratamento dispensado ao ex-presidente brasileiro poderia comprometer a realização de uma eleição “livre e justa” em 2026 — argumento utilizado pelo governo dos EUA em meio à ofensiva tarifária e às sanções contra autoridades brasileiras.
Mais recentemente, uma reportagem do The Guardian revelou planos do Departamento de Estado para direcionar recursos de um fundo de direitos humanos a iniciativas voltadas ao Brasil, incluindo cerca de US$ 1 milhão para um projeto relacionado a críticas ao STF sob a bandeira do combate ao “lawfare” e à “censura”. A revelação levou a Advocacia-Geral da União a pedir investigação sobre eventual interferência estrangeira.
Os EUA rejeitam a interpretação de que esteja tentando decidir a eleição brasileira. Ainda assim, na quinta-feira (1º), apenas três dias antes da votação, Trump voltou a colocar o Brasil no centro das atenções ao ser questionado por jornalistas na saída da Casa Branca. Disse acompanhar a eleição brasileira “muito de perto”.
“Brasil é um país muito importante. É um grande país. O povo do Brasil é fantástico. Uma eleição muito importante”, declarou o presidente estadunidense, sem mencionar Lula ou Flávio Bolsonaro.
“Jogo de intimidação”
É nesse contexto que Ana Prestes insere a decisão de fechar as instalações diplomáticas.
Segundo ela, a construção de uma percepção externa de que o Brasil estaria diante de uma situação de risco pode ter efeito político, ainda que não haja qualquer referência explícita à eleição nos comunicados diplomáticos.
“Isso interessa a eles e também, a partir desse clima, intimidar as pessoas e colocar o medo, como se as eleições do Brasil estivessem passando por alguma questão de violência iminente”, afirma.
Para a analista internacional, o movimento deve ser entendido como parte de uma estratégia mais ampla de pressão externa associada à política de Marco Rubio para a América Latina.
“Eles falam tanto que são os defensores da democracia, mas eles não suportam a democracia e muito menos a soberania dos países. Isso a gente tem visto no último período nas intervenções aqui na América Latina”, diz a cientista política, citando também a atuação recente estadunidense na Bolívia.
“Isso faz parte do jogo deles de intimidação e de pressão externa”, emenda Ana Preses.
O primeiro turno das eleições será realizado neste domingo, 4 de outubro. O fechamento das representações dos Estados Unidos e da Austrália ocorre, portanto, no último dia útil antes de milhões de brasileiros irem às urnas.

Ver mais

💬 Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar!