ONU alerta para ‘disseminação preocupante de desinformação’ nas eleições brasileiras

ONU alerta para ‘disseminação preocupante de desinformação’ nas eleições brasileiras
Pesquisa Datafolha em SP deve avaliar impactos das mudanças na campanha de Lula - (Nelson Jr./ASICS/ TSE)

O Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos alertou para a “preocupante disseminação de desinformação” nas eleições brasileiras, em resposta a uma carta enviada pelo Instituto Vladimir Herzog denunciando riscos de ingerência externa no processo eleitoral pelo governo de Donald Trump. 
A porta-voz do órgão, Ravina Shamdasani, confirmou ao ICL Notícias o recebimento do documento e disse que a entidade “tomou nota das preocupações nele levantadas”. Embora a ONU não tenha como praxe comentar processos políticos em curso, a manifestação sinaliza atenção internacional a um cenário que organizações da sociedade civil brasileira descrevem como ameaça concreta à soberania e à integridade democrática do país.
Shamdasani ressaltou que o monitoramento eleitoral segue um padrão global do órgão.
“O Escritório de Direitos Humanos da ONU está acompanhando a situação dos direitos humanos no Brasil às vésperas das eleições — assim como fazemos globalmente com países que passam por processos eleitorais —, incluindo a disseminação preocupante de desinformação que tem afetado muitas eleições ao redor do mundo”, afirmou Shamdasani.
Denúncia do Instituto Vladimir Herzog 
O Instituto Vladimir Herzog enviou duas correspondências à ONU: uma ao Alto Comissariado para Direitos Humanos e outra diretamente ao gabinete do secretário-geral António Guterres. O objetivo declarado era acertar a mais alta instância da organização e pedir que Guterres convocasse países a reconhecer o resultado das eleições brasileiras. 
No documento, a entidade alertou que “pressões econômicas ou diplomáticas, campanhas de desinformação, tentativas de desacreditar instituições eleitorais e judiciais ou ações destinadas a condicionar a participação de atores políticos podem comprometer a livre formação e expressão da vontade dos eleitores”.
A carta foi além da questão eleitoral imediata. O Instituto Vladimir Herzog argumentou que a ingerência externa afeta diretamente direitos humanos internacionalmente protegidos, como o direito de participar dos assuntos públicos e de escolher livremente representantes, e que seus efeitos se estendem à liberdade de expressão, ao espaço cívico, à independência das instituições e à atuação de jornalistas e defensores de direitos humanos. A iniciativa integra uma ação coordenada de movimentos da sociedade civil para mobilizar a comunidade internacional, diante do temor de que, em caso de vitória de Lula, o governo Trump e aliados de extrema direita se recusem a reconhecer o resultado das urnas.
Ingerência externa e riscos à democracia
A carta à ONU não surgiu no vácuo. Rogério Sottili, diretor-executivo do Instituto Vladimir Herzog, participou, entre 20 e 24 de julho deste ano, da Delegação da Sociedade Civil Brasileira em Defesa das Eleições e da Democracia, recebida em Washington e Nova York por quinze organizações brasileiras. A delegação se reuniu com congressistas democratas e republicanos, representantes da Organização dos Estados Americanos (OEA), da Comissão Interamericana de Direitos Humanos e diplomatas. 
Sottili afirmou que voltou da missão “com uma preocupação ainda maior”. O Instituto já havia integrado, em julho de 2022, uma missão de 19 organizações da sociedade civil a Washington para pedir que a comunidade internacional reconhecesse prontamente o resultado eleitoral brasileiro. Em 2024, o IVH organizou missões parlamentares aos Estados Unidos e ao Chile para promover o intercâmbio de experiências sobre prevenção a ataques às instituições democráticas.
O cenário descrito pela sociedade civil encontra respaldo em avaliações do próprio Estado brasileiro. A Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), no relatório Desafios de Inteligência — Edição 2026, incluiu a interferência externa entre os principais riscos ao processo eleitoral, identificando instrumentos como propaganda adversa, desinformação coordenada, agentes de influência e apoio encoberto a grupos e entidades. 

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