Eleições: Quase 70% dos anúncios na Meta atacam instituições ou levantam suspeitas sobre processo eleitoral, aponta pesquisa

Eleições: Quase 70% dos anúncios na Meta atacam instituições ou levantam suspeitas sobre processo eleitoral, aponta pesquisa
Pesquisa Datafolha em SP deve avaliar impactos das mudanças na campanha de Lula - Urna Eletrônica/Foto: Nelson...

O NetLab, laboratório de pesquisa em internet e redes sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), analisou 2.326 anúncios sobre o processo eleitoral veiculados nas plataformas da Meta entre 16 de agosto e 16 de setembro e constatou que 68,1% desse material atacava instituições ou levantava suspeitas sobre a condução, fiscalização, julgamento ou garantia das eleições.
O levantamento, divulgado pelo jornal O Globo, também identificou uma mudança de estratégia em relação a 2022. O alvo deixou de ser apenas a urna eletrônica e passou a ser o conjunto de instituições que organiza e resguarda o pleito, numa lógica em que a desconfiança é transformada em pauta de campanha e amplificada por dinheiro pago em publicidade digital.
A pesquisa 
O NetLab coletou, ao todo, 6.757 peças publicitárias nas plataformas da Meta durante o primeiro mês da campanha eleitoral. Dentro desse universo, 2.326 anúncios abordavam o processo eleitoral, as instituições responsáveis por sua condução ou seus integrantes. Desse recorte, 1.586 peças, equivalentes a 68,1% do total, atacavam instituições ou levantavam suspeitas sobre a a integridade do processo eleitoral. Os anúncios foram promovidos por 454 páginas e, segundo as faixas de gastos disponibilizadas pela própria Meta, somaram até R$ 2,1 milhões em investimento publicitário e geraram 224 milhões de impressões.
O volume financeiro e o alcance revelam que não se trata de conteúdo orgânico circulando espontaneamente nas redes, mas desinformação comprada e impulsionada com recursos de campanha. O estudo identificou ainda peças publicadas por candidatos sem a devida classificação como propaganda político-eleitoral, o que representa uma irregularidade em relação às regras eleitorais vigentes e dificulta o rastreamento e a fiscalização desse tipo de conteúdo pelas autoridades competentes.
Mudança de padrão na desinformação
Rose Marie Santini, diretora e fundadora do NetLab/UFRJ e responsável pelo estudo, aponta que o padrão encontrado em 2026 representa uma inflexão relevante em relação ao que foi observado nas eleições anteriores.
“A diferença em relação ao que encontramos nas eleições passadas é que, em 2022, o foco estava mais concentrado nos questionamentos sobre a lisura e a auditabilidade das urnas eletrônicas. Neste ano, a deslegitimação das eleições segue outro caminho: o foco não está mais apenas em atacar os sistemas de votação, mas em produzir uma desconfiança generalizada em relação às instituições responsáveis por resguardar o processo eleitoral”, afirma Santini.
A diretora acrescenta que, portanto, o foco não está mais apenas em atacar os sistemas de votação, mas em produzir uma desconfiança generalizada em relação às instituições responsáveis por resguardar o processo eleitoral.
A mudança de alvo tem implicações práticas. Em 2022, o discurso golpista se concentrava em um objeto técnico específico, a urna eletrônica, cuja defesa podia ser feita com dados de auditoria e laudos periciais. Ao deslocar o ataque para as instituições em sentido amplo, quem organiza, fiscaliza e julga o pleito, a estratégia passa a ser mais difusa e, por isso, mais difícil de rebater com um único argumento factual. Santini destaca que o objetivo, nesse novo modelo, é corroer a confiança no arcabouço democrático como um todo, e não apenas questionar um mecanismo de votação.
O papel dos anúncios e a deslegitimação
O estudo também identificou uma lógica específica de funcionamento desse ecossistema: suspeitas sobre instituições e processos democráticos são transformadas em pautas de campanha e, uma vez incorporadas ao discurso eleitoral, passam a circular com aparência de debate legítimo. Alegações de fraude e até defesas de intervenção estrangeira aparecem de forma mais moderada no material analisado, segundo a pesquisa, especialmente entre candidatos de PL e Novo.
Entre os conteúdos mapeados, 35 anúncios levantavam suspeitas diretas sobre a segurança das urnas e sugeriam a possibilidade de fraude, questionando o software utilizado ou acusando manipulação do sistema. Alguns afirmavam que o ex-presidente Jair Bolsonaro teria sido prejudicado por supostos problemas no sistema eleitoral; outros sugeriam fragilidades que permitiriam alterar votos e chegavam a acusar mesários, especialmente no Nordeste, de modificar resultados. Santini ressalta a gravidade desses conteúdos mesmo em número menor: por se tratar de publicidade paga, inclusive veiculada por candidatos, as alegações ganham um peso institucional que o conteúdo orgânico não tem, questionando explicitamente a legitimidade do processo eleitoral com recursos destinados à campanha.

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