Flávio Bolsonaro defende Ustra, elogia ditadura e policiais do Carandiru em biografia do pai

Flávio Bolsonaro defende Ustra, elogia ditadura e policiais do Carandiru em biografia do pai
- Jair e Flávio Bolsonaro - Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Flávio Bolsonaro (PL) publicou uma biografia do pai, Jair Bolsonaro, na qual expôs posições políticas que ajudam a explicar parte das ideias que ainda aparecem em sua trajetória. Lançado em 2017, o livro, de quase 200 páginas, reúne defesa das Forças Armadas, questionamentos sobre as urnas eletrônicas, críticas aos direitos humanos e justificativas para declarações controversas do ex-presidente.
A obra foi escrita quando Jair Bolsonaro ainda era deputado federal e quase uma década antes de Flávio se apresentar como candidato ao Palácio do Planalto. No texto, o senador não apenas relata a trajetória do pai, mas assume posições próprias sobre episódios da história brasileira e temas de segurança pública.
Um dos pontos centrais do livro é a interpretação de Flávio sobre o regime militar. Ele rejeita a classificação do movimento de 1964 como golpe e sustenta que os militares impediram a implantação de uma ditadura socialista no país.
Para o senador, os integrantes das Forças Armadas que participaram daquele período “deveriam ser tratados como heróis nacionais por terem evitado que o Brasil se tornasse uma ditadura socialista”.
A Comissão Nacional da Verdade também é criticada. Flávio a classifica como uma iniciativa “revanchista” e afirma que grupos que pretendiam instaurar uma “ditadura do proletariado” foram “barrados pela sociedade”.
Em outro trecho, questiona a própria caracterização do regime militar como ditadura. “Havia eleições naquele período que alguns gostam de chamar de ditadura”, escreve.
A interpretação aparece de forma ainda mais explícita quando o autor contesta a existência de um golpe em 1964. Segundo ele, a deposição de João Goulart ocorreu com respaldo do Congresso.
“Que golpe foi esse em que o Congresso, com respaldo constitucional, afasta um presidente? […] Ou seja, só houve golpe nos livros de ‘estória’ do MEC”, afirma.
Ustra e a versão sobre a repressão
A defesa dos militares se estende ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador. Flávio trata positivamente da homenagem feita pelo pai ao militar durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016.
Na avaliação registrada no livro, Ustra era “um homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria”.
Flávio também coloca em dúvida a responsabilidade do Exército pela morte do ex-deputado Rubens Paiva, desaparecido durante a ditadura. O Estado brasileiro reconheceu posteriormente que Paiva foi morto por agentes da repressão.
Ao abordar a Lei da Anistia, o senador afirma que ela “serviu apenas os terroristas” e sustenta que agentes do Estado continuaram sendo perseguidos.
A narrativa construída na biografia, portanto, apresenta a atuação das Forças Armadas durante a ditadura sob uma perspectiva positiva e contesta interpretações consolidadas posteriormente por órgãos oficiais sobre a repressão política.
Urnas eletrônicas
A contestação ao sistema eleitoral também não começou na atual campanha presidencial. No livro, publicado em 2017, Flávio já sustentava que as urnas eletrônicas não permitiam uma auditoria capaz de comprovar a ocorrência — ou a inexistência — de fraudes.
O autor reconhece que o sistema foi inicialmente bem recebido porque dificultou fraudes que ocorriam na votação em papel. Na sequência, porém, afirma que a desconfiança aumentou.
“As urnas não eram passíveis de serem auditadas, ou seja, não era possível provar nem que elas eram fraudadas, nem que não eram”, escreve.
Flávio acrescenta que parte da população passou a acreditar que a fraude eleitoral teria migrado do modelo “um a um”, no varejo, para uma suposta manipulação eletrônica em larga escala.
“Se não há como provar que houve a fraude, como provar que ela não aconteceu?”, questiona.
A partir dessa premissa, o então deputado defende o voto impresso como “uma medida essencial de transparência, de respeito ao cidadão e de garantia da democracia”.
A posição voltou a aparecer na atuação pública do senador em 2026, quando ele repetiu alegações sobre as urnas em uma reunião com diplomatas.
Carandiru e segurança pública
Flávio também manifesta no livro uma visão rigorosa sobre criminalidade e sistema penitenciário. Para ele, a prisão não teria como objetivo recuperar os condenados.
Essa perspectiva é utilizada para defender a atuação dos policiais no massacre do Carandiru, ocorrido em 1992 e que terminou com 111 presos mortos.
Flávio sustenta que os policiais agiram em legítima defesa e chama atenção para os antecedentes criminais de parte dos detentos mortos.
“Quantos milhares de novas vítimas esses marginais poderiam ter feito quando voltassem ao convívio em sociedade?”, questiona.
A defesa de medidas mais duras contra criminosos aparece em outros pontos da obra e se aproxima de propostas que continuam associadas ao grupo político de Flávio, como a redução da maioridade penal e a castração química para estupradores.
Defesa de Jair Bolsonaro
Além de expor suas próprias posições, Flávio dedica boa parte da biografia a responder às críticas dirigidas ao pai.
Declarações controversas de Jair Bolsonaro são apresentadas como manifestações de opiniões que, segundo o autor, seriam compartilhadas por parcela expressiva da sociedade. É o caso das críticas aos direitos humanos.
“A percepção da maioria esmagadora da população de que a política de direitos humanos só serve para proteger bandidos não foi, obviamente, invenção de Bolsonaro”, afirma.
Flávio também tenta relativizar uma declaração feita pelo pai em 1993, quando Jair Bolsonaro defendeu o fechamento do Congresso. O senador cita uma pesquisa Ibope da época que apontava baixa confiança da população nos políticos.
Ele admite que a insatisfação popular não justificava o fechamento do Legislativo, mas argumenta que a declaração de Bolsonaro foi uma “força de expressão” interpretada literalmente.
A mesma lógica é aplicada a outros episódios. Para Flávio, parte das controvérsias envolvendo o pai decorre da maneira como suas falas são reproduzidas pela imprensa.
Segundo ele, as declarações seriam “constantemente distorcidas e retiradas do contexto por grande parte da mídia para, propositalmente, atacar sua imagem pública”.
O autor classifica ainda as posições consideradas polêmicas como “na verdade apenas autênticas, coerentes e que não se curvam à chamada ditadura do politicamente correto”.
“O tempo passa, o tempo voa, mas a maior parte da imprensa permanece esquerdista. Até quando, só Deus sabe”, escreve.
Temas que chegaram à campanha presidencial
A biografia também registra temas que deixaram de ser apenas posições defendidas por Jair Bolsonaro e passaram a integrar, de diferentes formas, a agenda política do próprio Flávio.
Entre eles estão a redução da maioridade penal, a castração química de estupradores e a oposição à chamada doutrinação ideológica nas escolas. Na campanha presidencial de 2026, a proposta educacional aparece reformulada como defesa de uma educação “livre de doutrinação político-partidária”.
O livro ainda aborda o chamado “kit gay” e a ideia de uma nova ordem mundial, temas recorrentes no discurso bolsonarista. Flávio também procura afastar do pai acusações de racismo e homofobia.
A publicação, dessa forma, não se limita a contar a história de Jair Bolsonaro. Escrita pelo filho anos antes de sua candidatura presidencial, ela registra posições que permitem comparar o discurso adotado por Flávio na obra com aquele apresentado atualmente na disputa pelo Planalto.
Outro lado
A assessoria de Flávio Bolsonaro foi procurada pela Folha, mas não comentou especificamente as opiniões atribuídas ao senador no livro. Em nota, afirmou que a biografia apresenta valores que também seriam defendidos atualmente por ele, entre eles “a defesa da democracia, da família, das liberdades de pensamento e econômica”.
Segundo a equipe do candidato, a obra “ilustra a história de um homem convicto da soberania de sua pátria, do respeito à Constituição e com firmes posicionamentos que fizeram de Bolsonaro o maior líder da direita da história do Brasil”.
A assessoria também citou uma entrevista concedida por Luiz Inácio Lula da Silva à revista Playboy, em 1979. A nota afirma que Lula declarou admirar a dedicação e a disposição de luta de Adolf Hitler, do aiatolá Khomeini e de Fidel Castro.

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