Vetado pelo TSE, campeonatos de cortes popularizados por Marçal beneficiam candidatos em 2026

Vetado pelo TSE, campeonatos de cortes popularizados por Marçal beneficiam candidatos em 2026
Pablo Marçal, que popularizou os "campeonatos de cortes", entrou na campanha de Flávio Bolsonaro à presidência -...

Os campeonatos de cortes que estiveram no centro da condenação eleitoral de Pablo Marçal voltaram a aparecer na reta final das eleições de 2026. Competições realizadas em plataformas especializadas oferecem dinheiro a usuários de redes sociais conforme o número de visualizações obtido por vídeos de candidatos, apesar de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ter incluído expressamente esse modelo entre as formas de propaganda eleitoral paga proibidas.
Reportagem publicada neste sábado (3) pelo jornal O Globo identificou ações que beneficiaram ao menos três candidatos: Sargento Nantes (PP-SP), que disputa uma cadeira de deputado federal; Jadyel Alencar (Republicanos-PI), candidato à reeleição para a Câmara; e André Merlo (Republicanos-MG), candidato a deputado estadual.
O levantamento revela ainda um elo conhecido dos leitores da Fórum. A plataforma usada no caso de Nantes, a Clipei, pertence, segundo O Globo, ao empresário Jefferson Zantut, ex-funcionário de Pablo Marçal e um dos nomes envolvidos na organização dos campeonatos de cortes utilizados pelo ex-coach na campanha à Prefeitura de São Paulo em 2024.
Zantut já havia aparecido em uma apuração da Fórum em março deste ano. Ele estava entre os administradores da estrutura montada para produzir e distribuir cortes da marcha organizada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), numa operação que pretendia reunir cerca de mil clipadores e alcançar 2,5 bilhões de visualizações em quatro dias. Naquele episódio, a Fórum não encontrou provas de pagamento ou premiação aos participantes, uma diferença fundamental em relação aos casos agora revelados.
Campeonatos de cortes: o que o TSE proibiu
A mudança promovida pelo TSE para as eleições de 2026 não proíbe a publicação espontânea de vídeos de candidatos por apoiadores. O tribunal mirou especificamente a transformação desse apoio aparentemente orgânico em um serviço remunerado de distribuição de propaganda.
Na Resolução 23.755, publicada em março, o TSE incluiu entre as modalidades vedadas de propaganda eleitoral paga a contratação que utilize mecanismos de “competição, ranqueamento ou premiação” e ofereça vantagem econômica para que pessoas ou empresas façam publicações de conteúdo político-eleitoral em seus próprios perfis.
A redação ataca diretamente o mecanismo que tornou os campeonatos atraentes para campanhas digitais: dezenas ou centenas de contas independentes recebem o material, publicam em seus próprios perfis e são remuneradas de acordo com a capacidade de viralização. Em vez de um anúncio identificado como publicidade, o mesmo personagem passa a aparecer repetidamente em contas distintas.
Foi justamente uma operação desse tipo que pesou contra Pablo Marçal. Em setembro, o próprio TSE registrou, ao negar a candidatura presidencial do ex-coach, que ele está inelegível até 2032 em razão de condenação por promover concursos de cortes com oferta de prêmios para a divulgação de conteúdo eleitoral. O registro de Marçal também foi indeferido por problema relacionado à filiação partidária.
R$ 553 e uma competição restrita
No caso de Sargento Nantes, a competição começou em agosto na Clipei, mas não ficou disponível de forma aberta para todos os usuários da plataforma. Segundo as mensagens obtidas por O Globo, participantes eram selecionados internamente e recebiam acesso a uma disputa privada.
Em 29 de agosto, um usuário publicou em um grupo de clipadores uma captura de tela indicando uma transferência de R$ 553 feita pela Hypex, empresa ligada à plataforma, e relacionou o pagamento a Nantes.
Há outro detalhe revelador. Em 9 de setembro, já no período eleitoral, as orientações foram alteradas. Os participantes passaram a ser instruídos a não utilizar vídeos do vereador no Parlamento nem material sobre assuntos políticos.
A mudança desloca a discussão para uma das zonas mais sensíveis da nova regra eleitoral. Retirar número de candidatura, pedido explícito de voto ou cenas do Parlamento não torna automaticamente um conteúdo alheio à eleição. A resolução do TSE utiliza uma definição mais ampla: publicação de cunho político-eleitoral. Eventual enquadramento dos casos identificados agora, porém, dependeria da análise da Justiça Eleitoral.
Candidato vira “entretenimento” e cada mil views valem R$ 1,50
Uma estratégia semelhante aparece na campanha de cortes com vídeos do deputado federal Jadyel Alencar. A operação foi hospedada na plataforma Estourou.com e promete aos participantes R$ 1,50 por mil visualizações, até o limite de R$ 100 por publicação e três vídeos por dia.
O regulamento procura afastar elementos diretamente associados à propaganda eleitoral. O material é apresentado como “campanha de conteúdo de entretenimento”, e os participantes são orientados a não mencionar a eleição, pedir voto, usar slogan ou abordar mandato, obras e verbas do parlamentar.
Em vez disso, são incentivados cortes de bastidores, rotina e situações espontâneas, curiosas ou emocionais envolvendo o candidato.
O modelo comercial da plataforma deixa claro como funciona a engrenagem. Em seu próprio site, a Estourou.com anuncia a criadores a possibilidade de receber dinheiro conforme as visualizações obtidas e informa que campanhas podem utilizar rankings e prêmios. Esse tipo de negócio é comum para música, marcas e entretenimento. A questão eleitoral surge quando a mesma tecnologia é empregada para remunerar a publicação de conteúdo de candidatos.
R$ 2 por mil visualizações até o dia da eleição
O terceiro caso localizado por O Globo envolve André Merlo, ex-prefeito de Governador Valadares e candidato a deputado estadual por Minas Gerais.
A campanha estava hospedada na plataforma Cliparam com o nome “Movimento Direita Brasil”. Os participantes recebiam vídeos de Merlo para edição e podiam ganhar R$ 2 a cada mil visualizações.
O regulamento vedava pedido de voto e a utilização do número eleitoral, mas determinava o emprego de hashtags como #Patriotismo, #BrasilEmDebate e #ValoresDoBrasil. A competição tinha uma característica temporal difícil de ignorar: estava programada para acabar exatamente neste domingo (4), dia do primeiro turno.
Após receber questionamentos de O Globo, o material foi retirado do ar.
A Fórum já acompanhava a expansão da máquina de cortes
Os casos revelados agora não surgem isoladamente. Desde o ano passado, a Fórum acompanha como o modelo utilizado por Marçal passou a aparecer em diferentes operações políticas.
Em novembro de 2025, a revista revelou um campeonato com prêmio de R$ 50 mil baseado em vídeos do governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos). O episódio foi posteriormente levado ao Ministério Público Eleitoral pelos deputados Emidio de Souza e Paulo Fiorilo, ambos do PT, que pediram investigação sobre a origem dos recursos e possíveis irregularidades eleitorais. As representações não significam, por si só, que os ilícitos alegados tenham sido reconhecidos pela Justiça.
Em março deste ano, a reportagem sobre o chamado “exército de clipadores” mobilizado durante a marcha de Nikolas Ferreira mostrou que operadores relacionados à campanha de Marçal continuavam atuando nesse ecossistema. Entre os administradores identificados estava justamente Jefferson Zantut, que reaparece agora como proprietário da plataforma usada na disputa com vídeos de Nantes.
E em junho, a Fórum revelou outro campeonato de cortes, desta vez com material do deputado estadual Cristiano Caporezzo (PL-MG). A disputa oferecia R$ 0,50 por mil visualizações, teto de R$ 500 por publicação e prêmio de R$ 2,5 mil para o vídeo mais assistido. Na ocasião, Caporezzo afirmou não ter conhecimento da ação e disse que investigaria o caso.
Mercado distribui projetos por perfil ideológico
As mensagens obtidas por O Globo mostram que o fenômeno não se resume a uma única candidatura ou plataforma. Grupos fechados de WhatsApp e Discord são usados para recrutar editores e direcioná-los para diferentes projetos.
Em uma das mensagens, os participantes eram questionados sobre que tipo de conteúdo produziam, direita, centro, esquerda ou todos os segmentos. Em outra operação voltada a políticos de direita, havia orientação para que os mesmos perfis não misturassem vídeos de candidatos de campos políticos diferentes.
A Clipei também foi usada pela agência Komp para distribuir cortes da sabatina presidencial realizada pela G4 Educação em agosto, com Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão). Não há indicação, segundo O Globo, de que os candidatos soubessem da campanha de distribuição desses cortes.
Sargento Nantes, Jadyel Alencar e André Merlo foram procurados por O Globo e não responderam. As empresas mencionadas na reportagem também não se manifestaram.
No caso de Merlo, a competição que remunerava visualizações deveria continuar justamente até 4 de outubro, data do primeiro turno das eleições. O conteúdo saiu do ar somente após os questionamentos enviados pelo jornal.

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