Eleita deputada federal por Minas Gerais no último domingo (4/10), com 98.750 votos, Bella Gonçalves (PT) construiu sua trajetória política em movimentos populares, na luta pelo direito à moradia e em projetos de extensão universitária da UFMG, onde se formou cientista política.
Aos 37 anos, Isabella Gonçalves Miranda, que saiu do PSOL em abril de 2026 para se filiar ao PT, integra a Câmara dos Deputados com foco nas disputas por direitos sociais e urbanos.
Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais em 2012, Bella fez doutorado em Pós-Colonialismos e Cidadania Global pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, em Portugal, e doutorado em Ciência Política pela UFMG, concluído em 2019, com tese intitulada “Brasil em movimento: o fim da Nova República e a crise da esquerda brasileira”.
A entrada de Bella na militância política ocorreu ainda durante a formação universitária. Segundo a deputada, ela atua em movimentos populares e rurais desde 2008, e integrou, em 2009, as Brigadas Populares, organização política com atuação em movimentos de moradia, ocupações urbanas, periferias, sindicatos, escolas e universidades.
Nesse período, participou de mobilizações ligadas ao direito à moradia e à reforma urbana, incluindo as lutas da Vila Acaba Mundo, da Ocupação Dandara e das ocupações da Izidora, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, além de participar da criação do Comitê Popular dos Atingidos pela Copa, que reuniu movimentos e comunidades afetadas pelas obras relacionadas à Copa do Mundo de 2014.
A atuação em torno da moradia ajudou a estabelecer uma das marcas que permaneceriam em seus mandatos parlamentares: a defesa do direito à cidade associada à regularização fundiária, à urbanização de ocupações e à participação dos moradores nas decisões sobre intervenções urbanas.
A experiência na Izidora atravessou diferentes momentos da atuação parlamentar de Bella, que já foi deputada estadual e presidenta da Comissão de Direitos Humanos da ALMG. A Izidora surgiu em 2011, quando milhares de famílias ocuparam uma área na Zona Norte de Belo Horizonte. Em 2023, a Assembleia aprovou legislação que viabilizou a regularização fundiária das comunidades.
Em 2026, Bella voltou a levar o tema à Comissão de Direitos Humanos, em uma audiência pública que discutiu problemas de urbanização das quatro comunidades que compõem a Izidora, incluindo questões relacionadas a água, energia elétrica, pavimentação e saneamento. A audiência, realizada em julho, foi solicitada por Bella e teve como objetivo discutir o andamento das obras de urbanização do Novo Programa de Aceleração do Crescimento e a participação direta das comunidades afetadas nas decisões sobre as intervenções.
A passagem de Bella dos movimentos sociais para a política eleitoral ocorreu em 2016, por meio do movimento Muitas – Pela Cidade que Queremos, que lançou uma candidatura coletiva para a Câmara Municipal de Belo Horizonte, com 12 candidaturas vinculadas a diferentes movimentos e pautas sociais sob o lema “Votou em Uma, Votou em Todas”.
Na época, Bella recebeu 3.422 votos e terminou como primeira suplente da coligação PSOL/PCB; a candidatura coletiva também elegeu Áurea Carolina e Cida Falabella. Bella passou a integrar a Gabinetona como covereadora, ao lado das duas parlamentares eleitas. Em 2018, com a eleição de Áurea Carolina para a Câmara dos Deputados, assumiu a cadeira de vereadora.
Em 2020, disputou novamente uma cadeira na Câmara Municipal e foi eleita com 6.954 votos. O resultado a colocou entre os vereadores eleitos de Belo Horizonte naquele pleito. Durante o período na Câmara, presidiu a Comissão de Direitos Humanos e participou da CPI da BHTrans, instalada em 2021 para investigar o sistema de transporte coletivo de Belo Horizonte e contratos relacionados à prestação do serviço.
A comissão investigou o processo de licitação do transporte público municipal realizado em 2008 e apontou indícios de formação de cartel na concorrência entre as empresas que disputaram os contratos. A CPI também examinou as relações entre as empresas de transporte e o poder público municipal, além das condições de prestação do serviço. A experiência contribuiu para a atuação de Bella na Assembleia Legislativa em defesa de políticas de transporte público e da tarifa zero.
No primeiro mandato estadual, sua atuação manteve a conexão com direitos humanos, moradia, segurança alimentar, transporte público, direitos das mulheres, população em situação de rua e defesa ambiental. Em fevereiro de 2025, ela assumiu a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia.
Também atuou na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e na suplência de colegiados como a Comissão do Trabalho, da Previdência e da Assistência Social, a Comissão de Cultura e a Comissão Extraordinária de Defesa da Habitação e da Reforma Urbana.
Uma das principais iniciativas legislativas de Bella na Assembleia foi o projeto que criou a Política Estadual de Apoio às Cozinhas Solidárias, por meio do Projeto de Lei 203/2023, que estabeleceu uma política estadual voltada ao apoio a entidades e grupos que produzem e distribuem refeições gratuitas, priorizando pessoas em situação de vulnerabilidade social e população em situação de rua. O projeto foi aprovado pela Assembleia em 2024 e transformado na Lei 24.976, de 18 de setembro de 2024.
A legislação estabelece como objetivos a redução da fome e da insegurança alimentar, a garantia do acesso à alimentação adequada e o estímulo ao fornecimento gratuito de refeições, prioritariamente à população em situação de rua e a pessoas em situação de vulnerabilidade e risco social. Também prevê o incentivo a práticas alimentares sustentáveis e à aquisição de alimentos da agricultura familiar. Em 2025, Bella apresentou requerimento para a realização de audiência pública sobre cozinhas solidárias como política pública.
Agora, aos 37 anos, chega à Câmara dos Deputados para continuar as propostas que marcaram sua atuação estadual, ligadas aos direitos humanos, ao acesso à moradia e à segurança alimentar.
Quem é Bella Gonçalves, eleita deputada federal por Minas Gerais
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