Flávio Bolsonaro dividia conta bancária com Willer Tomaz, investigado por movimentar R$ 13 bilhões em bets, indicam e-mails

Flávio Bolsonaro dividia conta bancária com Willer Tomaz, investigado por movimentar R$ 13 bilhões em bets, indicam e-mails
Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro - Foto: Divulgação

E-mails encontrados no iCloud do advogado Willer Tomaz pela Polícia Federal, no âmbito da Operação Sem Desconto, indicam que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) dividia uma conta no banco Santander com o advogado, investigado por suspeita de lavagem de dinheiro. As mensagens, obtidas durante a investigação sobre desvios de até R$ 6,3 bilhões em aposentadorias do INSS, mostram que uma conta identificada como “Flávio Bolsonaro” estava associada ao “usuário master” de uma empresa de Tomaz. A revelação foi publicada pelo UOL em reportagem de Fábio Serapião e levanta questionamentos sobre a natureza do vínculo entre o presidenciável e o advogado investigado.
E-mails da PF revelam conexão financeira
Segundo a apuração, os e-mails foram localizados em uma conta do iCloud acessada pela PF durante a Operação Sem Desconto. As mensagens trocadas entre o escritório de Willer Tomaz e o Santander tratavam de uma conta relacionada à Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, da qual Tomaz é sócio e que figura entre as empresas do advogado examinadas pela PF na investigação sobre o suposto esquema de lavagem de dinheiro.
O e-mail central da descoberta é datado de 22 de maio de 2025 e foi enviado por Fayla Zulmira Menezes, funcionária de Tomaz. Na mensagem, ela solicita ao Santander a desassociação da conta “3219********29 – Flávio Bolsonaro” do “usuário master” ligado ao advogado. No mesmo dia, o banco confirmou que a conta havia sido excluída. O movimento ocorreu cerca de um mês após a deflagração da primeira fase da Operação Sem Desconto.
De acordo com os documentos analisados pela PF, a conta identificada com o nome do senador estava vinculada ao mesmo acesso administrativo no qual o escritório de Tomaz havia solicitado a inclusão da Alcazar Holdings, ao lado de uma conta pessoal do próprio advogado.
O que dizem os envolvidos e o contexto da investigação
Em nota, Flávio Bolsonaro afirma que “nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas” e que “toda e qualquer afirmação nesse sentido é falsa”. Willer Tomaz, por sua vez, negou que a conta mencionada lhe pertencesse e afirmou jamais ter criado usuário em nome do senador, alegando que a relação entre eles é apenas de amizade, “sem relação comercial ou financeira”.
As negativas, porém, chegam em meio a um quadro investigativo crescente sobre o advogado. Tomaz foi alvo de busca e apreensão da PF em agosto, por suspeita de lavar dinheiro desviado de aposentadorias para o senador Weverton Rocha (PDT-MA), também investigado no âmbito da Operação Sem Desconto.
Paralelamente, a PF apura uma segunda frente: Tomaz é investigado por suspeita de lavagem de dinheiro por meio de apostas online. O advogado movimentou R$ 13 bilhões em bets até junho de 2026 e perdeu R$ 163 milhões em uma única plataforma, a Blaze, ao longo de 2025. Os valores vieram à tona porque o próprio Tomaz apresentou um comprovante anual da Blaze em ação judicial movida por ele contra a plataforma. Diálogos transcritos pela PF e revelados pela coluna de Demétrio Vecchioli no Metrópoles mostram que Tomaz e a Blaze combinaram formas de contornar a regulamentação federal de apostas online.
Implicações e próximos passos
A documentação dos e-mails, por si só, não comprova quem efetivamente movimentou recursos na conta identificada como “Flávio Bolsonaro”, quais valores foram transferidos ou se o senador recebeu dinheiro de origem ilícita. A PF reconhece essa limitação e aponta, nos relatórios sobre o material obtido no iCloud de Tomaz, a necessidade de aprofundar a investigação sobre as movimentações financeiras do advogado e de suas empresas, bem como as relações mantidas com agentes públicos, entre eles Flávio Bolsonaro.
Um elemento técnico é central para entender o alcance da descoberta: o sistema do Santander permite que contas de pessoa jurídica tenham mais de um usuário autorizado. O perfil “master” pode realizar todas as operações disponíveis, enquanto usuários secundários ficam limitados às permissões concedidas pelo administrador. Esse arranjo possibilita que diferentes pessoas movimentem valores em uma mesma conta empresarial, o que torna relevante saber quem, de fato, operava a conta identificada com o nome do senador enquanto ela esteve vinculada ao acesso de Tomaz.
 
“A conta identificada como Flávio Bolsonaro estava, portanto, vinculada ao mesmo contato de usuário master no qual o escritório de Willer Tomaz pedia inclusão da Alcazar, ao lado da conta pessoal do próprio Willer, até aquela data.” (Polícia Federal, ao analisar os e-mails encontrados no iCloud de Willer Tomaz)
 
O fato de a desassociação ter sido solicitada e concluída em um único dia, aproximadamente um mês após o início da Operação Sem Desconto, é o ponto que a PF considera relevante para o aprofundamento da apuração. A natureza exata da conta, os valores eventualmente movimentados e a origem dos recursos que alimentaram as apostas bilionárias de Tomaz seguem como lacunas abertas da investigação.

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