A Meta censurou, nos últimos dias, 1.088 perfis de apoio ao presidente Lula em suas redes sociais (WhatsApp, Facebook e Instagram), segundo um levantamento feito pela organização CTRL+Z, focada no enfrentamento e responsabilização de big techs no Brasil. Desde o início do período eleitoral brasileiro, a gigante das big techs tem sido alvo de denúncias por derrubar ou reduzir o alcance de contas de políticos, movimentos sociais e influenciadores que apoiam o presidente Lula.
Segundo a pesquisa, a qual a Fórum teve acesso, foram catalogados 1.088 relatos de censura, banimento da conta, restrições ou queda de alcance no período eleitoral. Conteúdos afetam principalmente perfis de apoio a Lula, e casos impactam diretamente a articulação da campanha. A maioria dos afetados são cidadãos comuns, mas há dezenas de influenciadores, comunicadores, pesquisadores e movimentos estudantis e sociais.
A organização também denuncia que a Meta se antecipou à justiça e baniu, restringiu ou suprimiu, por conta própria, ao menos 17 perfis que a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) pediu para tirar do ar.
Denúncias
O levantamento separou as denúncias em três tipos: supressão de alcance, restrições de funcionalidade e banimentos.
Supressão de alcance (perda de alcance + downrank na busca)
A maior fatia das denúncias, com 36,8%. Essa é, também, a forma mais silenciosa e difícil de provar de interferência, segundo a organização. Além de usuários comuns, perfis grandes e verificados relatam terem sido afetados por uma diminuição brusca no alcance de suas postagens. É o caso do próprio perfil @lulaoficial, com números anômalos: um reels, por exemplo, atingiu 783 mil curtidas, mas apenas teve 679 mil visualizações – isso em um perfil com 16,9 milhões de seguidores.
A influenciadora Gabriela Priolli também mostrou o caso de um vídeo que passou de 12,7 milhões de visualizações às 19h49 para 1 milhão às 22h28. O músico Baco Exu do Blues também relatou baixas visualizações. Na quinta-feira, 8, a Meta admitiu que houve falha na contagem de visualizações dos vídeos, sem mais explicações ou remediações.
Restrições de funcionalidade (conta, repost, comentário, impulsionamento, bloqueio)
Esse tipo de censura aparece logo depois, sendo 32% dos relatos. Nesses casos, a conta existe mas fica parcialmente inutilizada. É o caso do perfil @eutocomlula, utilizado na campanha, que ficou impedido de mandar mensagens a uma semana do primeiro turno. O professor João Cezar Castro Rocha também relatou que seu vídeo criticando a campanha de Flávio também ficou com a qualidade restrita, sob a alegação de “conteúdo não original, de baixa qualidade e de QR Code”. O perfil verificado @0gabrielpereira também foi restrito após divulgar informações sobre os atos em apoio a Lula em Belo Horizonte.
Banimentos (conta, post, comentário)
Somam 22% das denúncias. Nesta categoria estão perfis que tiveram postagens removidas, como o pesquisador Orlando Calheiros, o jornalista Guilherme Amado, que teve um vídeo crítico a Flávio bloqueado sem explicação, Eduardo Moreira, que teve o vídeo “desmascarando Flávio” bloqueado e repostado, Mídia Ninja, que teve um post sobre embaixada dos EUA restrito sob alegação de legislação eleitoral e a vereadora Maíra do MST, que teve um post de mobilização removido.
Cerca de 10% dos casos estão relacionados a banimentos de contas
Os alvos incluem entidades estudantis de pelo menos quatro estados (DCEs da UFPR e UTFPR, UPE Paraná, UCE Santa Catarina, diretórios da UFRGS, PUC-RS e UFMG), movimentos sociais (MST Pará, PSOL Floripa, Coletivo Artêmista, Coletivo Maré 0800), veículos jornalísticos e cidadãos comuns. Dos 108 banimentos de conta, 17 são de perfis que aparecem na ação judicial movida pela campanha de Flávio Bolsonaro, que pediu ao TSE a suspensão de contas de uma rede de 1.525 perfis pró-Lula.
Principais alvos
O levantamento aponta que pelo menos 155 páginas ligadas a movimentos sociais e estudantis (15% da base de denúncias), foram alvos de ações de censura da Meta. São 111 casos ligados a movimentos sociais, que afetaram organizações como MST Pará, MTST Formação, PSOL Floripa, Coletivo Maré 0800 e Coletivo Artêmista. Este último é um ponto de cultura LGBTQIAP+ que existe há mais de 10 anos, que teve várias contas derrubadas simultaneamente. A justificativa apresentada pela meta era de que o perfil divulgava “conteúdos contra as políticas de cunho sexual.”
O movimento estudantil, que convocou uma série de atos em apoio a Lula no segundo turno, também foi particularmente afetado pela onda de remoções. São 44 casos, que incluem banimentos coordenados em ao menos 8 entidades: DCE UFPR, DCE UTFPR, UPE Paraná (@upeparana), UCE Santa Catarina (@ucenasruas), Diretório Acadêmico Alfredo Balena/UFMG, diretórios da UFRGS e da PUC-RS, e a AERJ (Associação Estadual dos Representantes de Estudantes do RJ).
Campanha ‘Meta, tira a mão da nossa eleição’
Diante desse cenário, a CTRL+Z lançou a campanha “Meta, tira a mão da nossa eleição”, que exige que a Meta restabeleça imediatamente os perfis suprimidos, crie canais de apelação para jornalistas e movimentos sociais com revisão humana, seja obrigada a notificar shadowban com explicações detalhadas explique detalhadamente as anomalias das métricas relatadas pelos perfis.
“Essas são medidas necessárias, e urgentes, para garantir um processo eleitoral isonômico e verdadeiramente livre”, afirma a organização.
Consequências da censura
A CTRL+Z aponta que além dos danos ao processo eleitoral e ao direito dos cidadãos de se manterem informados, a onda de censura da Meta também tem uma série de consequências aos usuários. Pelo menos 56 criadores relataram danos financeiros diretos, como a derrubada de páginas que eram fonte de renda. Há outros 29 casos com danos organizacionais, em que comunidades e movimentos sociais e políticos perderam seus pontos de contato com o público.
Vários perfis também relataram a necessidade de migrar de contas, o que fragmenta comunidades, dilui audiência e impõe custos de reconstrução que favorecem quem tem mais recursos – ou seja, as campanhas institucionalizadas, não os ativistas. Ainda há o efeito de autocensura, com usuários receosos de se manifestar livremente por medo de perderem engajamento ou terem suas contas afetadas. Ao menos 20 relatos mencionam esse efeito.
Kit Derrubada
Diante desse cenário, a organização também disponibiliza aos brasileiros um kit com modelos de reclamações junto aos órgãos de defesa do consumidor e a ANPD para que os casos sejam escalados e as contas restabelecidas.
O kit tem ainda um modelo para petição junto ao Juizado Especial Cível. Entre os casos documentados, pelo menos dois usuários recorreram à justiça e conseguiram ter suas contas restabelecidas. Também começamos uma petição online para juntar assinaturas e pressionar o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, a adotar medidas que garantam o devido processo das remoções e transparência da Meta sobre sua mediação algorítmica do espaço público.
O documento, junto com as evidências coletadas durante o período eleitoral, serão subsídio para ações futuras. O monitoramento segue durante toda a eleição. Casos são cadastrados por meio do Arquivo de Danos Digitais, pelo e-mail denuncia@ctrlz.org.br e por busca ativa de postagens e comentários em redes sociais.
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