A miséria voltou a crescer na Argentina durante o governo de Javier Milei, modelo e referência para Flávio Bolsonaro (PL), candidato à presidência do Brasil. No primeiro semestre de 2026, a pobreza atingiu 32,3% da população, ante 28,2% no semestre anterior, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec).
O índice corresponde a aproximadamente 9,7 milhões de pessoas nos 31 aglomerados urbanos pesquisados. A extrema pobreza também aumentou, de 6,3% para 7,5%.
Os números provam que a desaceleração da inflação não se traduziu, necessariamente, em melhoria das condições de vida da população. Reportagens publicadas em veículos argentinos relatam aumento da procura por refeições e cestas básicas, além de famílias que recorrem a empréstimos e trocas de produtos para garantir a alimentação. Boa parte da população passou a se alimentar de carne de burro.
Em Río Cuarto, na província de Córdoba, a distribuição de refeições em cozinhas comunitárias quadruplicou, segundo o jornal Página/12. O atendimento, antes concentrado em grupos mais vulneráveis, passou a incluir famílias inteiras, aposentados e pessoas de segmentos da classe média. Na diocese de Rosário, a Cáritas distribui cerca de 20 mil cestas básicas por mês.
Aposentados e crianças entre os afetados
A deterioração das condições sociais também aparece nos indicadores por faixa etária. Segundo dados mencionados pelo Página/12, a pobreza entre crianças menores de 14 anos chegou a 44,5%. Entre pessoas com mais de 65 anos, alcançou 14,8%, com aumento de 5,1 pontos percentuais em seis meses.
Reportagens da agência EFE também registraram dificuldades enfrentadas por aposentados argentinos. Cerca de 63,5% dos beneficiários recebiam a aposentadoria mínima em 2025, segundo os dados mencionados pela publicação. Parte dos idosos passou a realizar trabalhos informais para complementar a renda e pagar despesas com alimentação e medicamentos.
Outro ponto de pressão é a redução de programas sociais. De acordo com reportagem do Página/12, o encerramento do programa Volver al Trabajo retirou o benefício de quase um milhão de pessoas.
Empresas, emprego e atividade econômica
A indústria argentina também enfrenta dificuldades. Aproximadamente 30 mil empresas foram fechadas, desde a chegada de Milei à presidência, além da sequência de perdas de postos de trabalho, queda dos salários reais e aumento do endividamento das famílias.
As perspectivas de crescimento foram revistas para baixo em meio à desaceleração da atividade. A projeção de crescimento econômico para 2026 caiu de 3,5% para 1,5%. A publicação também apontou o risco de uma recessão técnica, caso se confirme a contração estimada para o terceiro trimestre.
Em março de 2026, a inflação mensal foi de 3,4%, conforme dados divulgados pela imprensa brasileira com base em informações argentinas.
Reforma trabalhista e protestos
O governo Milei também promoveu mudanças nas regras trabalhistas. Entre as medidas aprovadas em 2026 estão dispositivos que permitem jornadas de até 12 horas em determinadas condições e alterações nas regras relacionadas a greves e negociações trabalhistas.
O governo argentino apresenta as mudanças como instrumentos para estimular a contratação e reduzir custos. Sindicatos e organizações de trabalhadores, por sua vez, criticam as medidas e afirmam que elas ampliam a precarização das relações de trabalho.
A política de ajuste também provocou mobilizações contra demissões, cortes de gastos públicos, perda salarial e privatizações. Trabalhadores de hospitais e universidades públicas realizaram protestos em defesa de salários, orçamento e condições de atendimento.
Flávio Bolsonaro tem Milei como exemplo
No Brasil, Flávio Bolsonaro tem apresentado Javier Milei como referência política e econômica. Em junho de 2026, associou sua proposta de cortes no Estado, chamada de “tesouraço”, à motosserra usada por Milei como símbolo de redução dos gastos públicos.
Entre as medidas defendidas por Flávio estão a redução da estrutura ministerial, com a extinção de pelo menos dez ministérios, uma reforma administrativa, privatizações e mudanças nas regras fiscais. Integrantes de sua equipe também mencionaram as reformas argentinas como inspiração para a elaboração de propostas brasileiras.
A aproximação entre os dois políticos coloca a experiência argentina no centro do debate sobre os rumos da economia brasileira. Os indicadores de pobreza, as dificuldades relatadas por famílias e aposentados e os problemas enfrentados por empresas integram o quadro observado durante o governo Milei e que podem atingir o Brasil, em caso de vitória bolsonarista.
Modelo de Flávio Bolsonaro, Argentina fecha empresas e inclui carne de burro na dieta
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