A escalada do cerimonial jurídico promovido pela candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Palácio do Planalto ganhou novos e ostensivos contornos na reta final do segundo turno. Em uma ofensiva detalhada para deter o avanço do engajamento oposicionista na internet, a equipe jurídica do candidato acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com uma ação direcionada a 48 perfis da rede social Instagram alinhados à candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A medida atinge desde influenciadores e páginas organizadas de esquerda até veículos alternativos, como o Mídia Ninja, e parlamentares no exercício do mandato.
A investida, contudo, não representa um episódio isolado, mas sim o ápice de uma tática diária e sistemática. O acionamento constante da Justiça Eleitoral por parte da campanha de extrema direita busca barrar a livre manifestação, interditar a crítica política e impor um filtro constante ao debate público, enfraquecendo a circulação de contrapontos que questionam as declarações e a plataforma eleitoral de Flávio.
Os detalhes minuciosos do novo pedido contra os 48 perfis
No documento encaminhado ao TSE, os advogados de Flávio Bolsonaro estruturaram uma representação pormenorizada sobre a dinâmica de funcionamento dos 48 perfis identificados. O ponto central da acusação é o uso tático do recurso de publicações colaborativas do Instagram, as chamadas collabs, no qual uma mesma postagem é veiculada simultaneamente em múltiplas contas, unificando as audiências e potencializando o alcance do conteúdo. Segundo a peça jurídica, o uso articulado dessa ferramenta configuraria uma rede organizada para propagar desinformação ou declarações fora de contexto sobre o senador.
A petição divide os pedidos de sanções de forma específica entre as contas mapeadas:
Suspensão temporária de 32 perfis: A campanha pleiteia o bloqueio integral dessas contas até o dia 26 de outubro, data posterior ao segundo turno das eleições. Esse pedido atinge diretamente páginas organizadas de esquerda e contas acusadas de produzir ou difundir reiteradamente conteúdos tidos como desfavoráveis. Vale ressaltar que nenhuma das contas de parlamentares nem a página do Mídia Ninja integram a lista com pedido de suspensão.
Remoção de conteúdos e sanções para 16 perfis: Para o restante dos alvos, grupo onde se enquadram os parlamentares e o Mídia Ninja, a petição requer a exclusão sumária de publicações específicas, a proibição expressa de reincidência e a colocação das contas sob vigilância constante do TSE.
Exclusão de 221 publicações: No total, a ação solicita a derrubada imediata de 221 postagens do Instagram.
Bloqueio de recursos de colaboração: A petição requer ao TSE que impeça preventivamente a funcionalidade de collab entre todos os 48 perfis, de modo a inviabilizar novos compartilhamentos conjuntos.
Monitoramento ostensivo pelo CIEDDE: A peça solicita que o acompanhamento do cumprimento das ordens e a verificação de reincidências sejam conduzidos pelo Centro Integrado de Enfrentamento à Desinformação e Defesa da Democracia (CIEDDE), órgão do próprio TSE.
A representação fundamenta o pedido em um mapeamento interno da campanha, que alega ter identificado 1.525 perfis interligados por collabs e outras 260 contas que formariam um “núcleo de desinformação” somando cerca de 29 milhões de seguidores. Entre os conteúdos atacados na ação estão postagens que repercutiam a declaração de Flávio sobre alterar a Constituição. A petição cita, por exemplo, que 39 publicações assinadas por 94 perfis traduziram a fala do candidato como risco de “golpe” e ameaça ao direito de voto. Entre os exemplos listados no processo consta ainda um vídeo publicado no Mídia Ninja, no qual a atriz Titi Müller dialogava com eleitores de outros candidatos alertando sobre a fala do senador.
Apesar da dimensão do pedido, o corregedor-eleitoral no TSE, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, decidiu não conceder liminar de imediato. Em despacho de segunda-feira (12), o magistrado determinou que a campanha de Flávio preste esclarecimentos no processo, indicando formalmente quais responsáveis devem responder a cada acusação, quais condutas individuais são atribuídas a cada perfil e se os mesmos objetos já não foram protocolados em outras representações.
Na petição, cita-se ainda o suposto “desespero pós-primeiro turno” dos apoiadores do petista, onde Lula obteve 45,16% dos votos válidos contra 47,03% de Flávio, como motor dessa articulação, relacionando a atuação das contas ao programa Porta-Voz do Lula.
Contradição central: o discurso da liberdade de expressão frente ao judiciário
A tentativa de banir do ambiente virtual dezenas de páginas e proibir parcerias de conteúdo põe em evidência uma marcante incoerência no discurso do grupo político do candidato. Tradicionalmente, o ecossistema da extrema direita utiliza o argumento da “liberdade de expressão absoluta” para blindar suas próprias manifestações de eventuais regulações, inclusive quando essas envolvem retórica inflamada ou ataques institucionais.
Por outro lado, o mesmo grupo recorre à Justiça Eleitoral para pedir a supressão de opiniões, vídeos e análises promovidas pela oposição. Trata-se de uma contradição evidente: o grupo habitualmente acusado de operar redes orgânicas de desinformação assume o papel de acusador e pede a censura prévia de seus críticos no instante em que o contraditório ganha tração e atinge grande volume nas redes sociais.
Uma ofensiva que ultrapassa o campo virtual
O acionamento contra os 48 perfis do Instagram insere-se em um plano mais amplo de constrangimento jurídico e político exercido pela campanha de Flávio Bolsonaro nesta fase final. Recentemente, a atuação jurídica do senador já havia conquistado o tirada do ar do grupo de mensagens “Exército do Lula”, coordenado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), após decisão do presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, tomada a partir de representação sem apresentação de provas.
Além das redes sociais, a ofensiva avançou sobre os movimentos organizados da sociedade civil. A equipe jurídica de Flávio protocolou ações com o objetivo de paralisar a atuação de centrais sindicais, entidades estudantis e sindicatos de classe, como o Sindicato dos Trabalhadores dos Correios do Rio de Janeiro, acusando-os de ceder estruturas para comitês pró-Lula e solicitando que o TSE proíba repasses de recursos, bens e serviços dessas entidades.
O quadro desenhado por essa sequência de ações reflete uma tática contínua de sufocamento dos espaços de debate. Ao judicializar qualquer movimento crítico, vídeo opinativo ou mobilização militante, a campanha busca restringir a livre manifestação do eleitorado e minar a capacidade de organização da oposição na reta decisiva da disputa.
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