Da festa com Eduardo aos posts pagos pró-Flávio: a conexão que passa pelo clube de Trump

Da festa com Eduardo aos posts pagos pró-Flávio: a conexão que passa pelo clube de Trump
posts pagos pró-Flávio - Mar-a-Lago, Palm Beach, Flórida, EUA Foto: Jud McCranie CC BY-SA 4.0

A festa em que Eduardo Bolsonaro (PL) premiou o marqueteiro argentino Fernando Cerimedo no clube de Donald Trump, em fevereiro, tem uma conexão direta com a rede de comunicação estrangeira que, meses depois, publicou conteúdo pago favorável à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL). Um dos organizadores da cerimônia em Mar-a-Lago foi o empresário espanhol Javier Negre, coproprietário da UHN Plus, perfil que divulgou no X as supostas chances de vitória do senador nas apostas da Polymarket.
A ligação vai além de uma fotografia num evento da direita internacional. Negre foi sócio de Cerimedo, entrevistou Flávio Bolsonaro e controla empresas de comunicação que participaram da divulgação de apostas favoráveis ao candidato. A Fórum já havia revelado, em setembro, as conexões entre esses personagens e a rede estrangeira ligada a Donald Trump.
As publicações pagas foram inicialmente noticiadas pela Folha de S.Paulo e confirmadas pelo Aos Fatos. Entre 18 e 21 de setembro, pelo menos 11 contas estrangeiras divulgaram conteúdos favoráveis a Flávio com o selo de “parceria paga”. Uma delas foi a UHN Plus, que tem mais de 1,2 milhão de seguidores e se apresenta como parceira da Polymarket.
O cruzamento com os registros eleitorais americanos acrescenta outra peça à história. Tony Delgado, responsável pela organização da festa ao lado de Gabriela Berrospi e Negre, também é tesoureiro de um comitê eleitoral conservador dos Estados Unidos. Nas semanas anteriores à cerimônia, o comitê declarou US$ 130,3 mil em despesas com serviços de eventos, embora os registros não identifiquem a gala como destinatária dos pagamentos.
Da festa aos posts pagos pró-Flávio
A Hispanic Prosperity Gala aconteceu em 10 de fevereiro de 2026, no Mar-a-Lago Club, em Palm Beach, na Flórida. Organizado pela Latino Wall Street, o encontro reuniu políticos, empresários e representantes da direita latino-americana no clube de Donald Trump.
Javier Negre não estava ali apenas como convidado. O espanhol participou da organização do encontro ao lado de Tony Delgado e Gabriela Berrospi, fundadores da Latino Wall Street. Em publicação sobre os bastidores, afirmou que a preparação havia levado três meses.
Naquela noite, Eduardo Bolsonaro subiu ao palco para entregar a Fernando Cerimedo o prêmio de consultor político hispânico do ano. O argentino havia se tornado conhecido no Brasil pela transmissão em que espalhou alegações sem provas de fraude nas urnas eletrônicas após a derrota de Jair Bolsonaro, em 2022.
Ao apresentar o homenageado, Eduardo elogiou sua atuação no Brasil e voltou a atacar o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. No discurso, prometeu vencer as eleições de outubro com o irmão Flávio e afastar o magistrado da Corte.
Meses depois, a UHN Plus, da qual Negre é coproprietário e vice-presidente, apareceu entre os perfis estrangeiros que divulgaram publicações pagas sobre as chances eleitorais de Flávio Bolsonaro.
Os conteúdos utilizavam números da Polymarket, plataforma de apostas e mercados de previsão bloqueada no Brasil desde abril por operar sem autorização. As porcentagens apresentadas não eram pesquisas de intenção de voto, mas cotações determinadas pelas apostas de usuários.
Mesmo assim, os gráficos circularam nas redes sociais como demonstração de força eleitoral de Flávio. O próprio candidato compartilhou esse tipo de conteúdo durante a campanha.
O empresário espanhol que liga Eduardo, Cerimedo e Flávio
Javier Negre construiu uma rede de veículos digitais alinhados à direita internacional. Ele controla o La Derecha Diario, grupo com atuação em diversos países, e adquiriu participação na UHN Plus, sediada na Flórida.
O espanhol também foi sócio de Fernando Cerimedo no La Derecha Diario. A relação empresarial terminou em agosto, quando Negre anunciou a aquisição da participação restante do marqueteiro argentino.
Uma investigação conjunta de Factchequeado e La Silla Vacía, publicada em setembro, analisou a expansão dos negócios do espanhol entre a América Latina e os Estados Unidos. O levantamento identificou 220 conteúdos do La Derecha Diario relacionados à Polymarket publicados desde agosto de 2025.
Aquele foi também o mês em que a plataforma de apostas recebeu investimento da 1789 Capital, fundo do qual Donald Trump Jr., filho do presidente americano, é sócio. Trump Jr. passou ainda a integrar o conselho consultivo da Polymarket.
Negre mantém acesso direto ao bolsonarismo. Em março, durante a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), no Texas, entrevistou Flávio Bolsonaro e perguntou ao senador sobre uma possível fraude eleitoral no Brasil.
A UHN Plus, por sua vez, passou a divulgar reiteradamente as cotações da Polymarket sobre a disputa presidencial brasileira. As publicações se somaram a uma sequência de conteúdos produzidos por perfis estrangeiros como o Visegrád24, que também entrevistou Flávio e divulgou posts pagos sobre sua candidatura.
Comitê pró-Trump declarou US$ 130 mil antes da cerimônia
Outro nome que liga a cerimônia de Mar-a-Lago a uma estrutura política americana é Tony Delgado, fundador da Latino Wall Street e um dos principais responsáveis pela realização da gala.
Delgado também aparece como tesoureiro do Latinos for Conservative Values, um Super PAC registrado na Comissão Eleitoral Federal dos Estados Unidos (FEC). Esses comitês podem arrecadar recursos para despesas eleitorais independentes, sem coordenação com os candidatos beneficiados.
O vínculo aparece inclusive no site Latinos for Trump, que informa no rodapé ser financiado pelo comitê. A página foi utilizada para divulgar o movimento conservador latino associado aos organizadores do encontro.
Os registros oficiais da FEC, consultados pela Fórum, mostram três despesas do comitê com serviços para eventos nas semanas anteriores à festa de 10 de fevereiro, totalizando US$ 130.317,50.

16 de janeiro: US$ 2.407,50 em segurança de evento, pagos à Optimo Protection Group;
30 de janeiro: US$ 26.870 em transporte de evento, pagos à Kirkland Event and Destination Services;
5 de fevereiro: US$ 101.040 em serviços de som, iluminação e produção, pagos à Frost Lighting Company.

O maior pagamento foi registrado apenas cinco dias antes da cerimônia em Mar-a-Lago. Entretanto, os documentos não identificam qual evento recebeu os serviços. As despesas aparecem associadas ao apoio a candidaturas republicanas americanas, incluindo Anna Paulina Luna e Kat Cammack.
Portanto, os registros comprovam os gastos e a ligação de Delgado com o comitê, mas não permitem atribuir os US$ 130 mil à festa em que Eduardo Bolsonaro premiou Cerimedo. Também não demonstram financiamento da campanha brasileira.
O site da organização oferecia diferentes modalidades de patrocínio para a Hispanic Prosperity Gala, mas as prestações de contas consultadas não permitem identificar quem custeou a participação de Eduardo e dos demais convidados.
O marqueteiro premiado e a tecnologia de Trump
Fernando Cerimedo também mantém conexões com o núcleo tecnológico responsável por campanhas da direita internacional.
O argentino trabalhou na comunicação digital da campanha de Javier Milei, em 2023, e anunciou em março de 2025 que representaria na América Latina tecnologias associadas a Brad Parscale, ex-chefe da campanha presidencial de Donald Trump.
Entre elas estão a Campaign Nucleus, plataforma de gestão de campanhas eleitorais, e a EyesOver, voltada ao monitoramento de redes sociais e à análise das reações do público.
Durante o discurso em Mar-a-Lago, Cerimedo agradeceu publicamente a Parscale por disponibilizar sua tecnologia. Também citou o empresário texano Tim Dunn, importante financiador de grupos conservadores nos Estados Unidos, por sua atuação política na América Latina.
Documentos apresentados ao Departamento de Justiça americano mostram que a Clock Tower X, empresa de Parscale, realizou três pagamentos à EyesOver que somaram US$ 136 mil entre outubro de 2025 e março de 2026. Os desembolsos aparecem em registros de uma campanha de comunicação contratada pelo governo de Israel para o público dos Estados Unidos.
Um dos pagamentos, de US$ 18 mil, ocorreu em 5 de fevereiro, cinco dias antes da homenagem a Cerimedo. O registro não demonstra que esses recursos tenham financiado a cerimônia ou qualquer atividade eleitoral brasileira.
Quem financiou as publicações sobre Flávio?
A aproximação entre esses personagens ocorre enquanto as autoridades brasileiras enfrentam questionamentos sobre a participação de estruturas estrangeiras na campanha eleitoral.
A legislação brasileira restringe a propaganda eleitoral paga na internet e proíbe que candidaturas recebam recursos de fontes estrangeiras. O selo de “parceria paga” exibido pelo X, entretanto, não identifica publicamente quem contratou ou financiou cada postagem.
A campanha de Flávio Bolsonaro afirmou anteriormente à imprensa que desconhecia os anúncios publicados pelos perfis estrangeiros. Também negou manter relação formal com Cerimedo.
A documentação examinada permite identificar vínculos pessoais, empresariais e políticos entre organizadores da festa no clube de Trump, empresários de comunicação e perfis que divulgaram conteúdo pago favorável a Flávio Bolsonaro.
Os registros disponíveis não comprovam, porém, que essas atividades integrassem uma operação única coordenada pela candidatura brasileira, nem identificam quem pagou especificamente pelas publicações da UHN Plus.
A identificação dos financiadores dos anúncios permanece como uma questão central para esclarecer a atuação dessas estruturas na eleição presidencial brasileira.

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