Flávio Bolsonaro recebeu R$ 4 milhões de advogado semanas antes de apoiá-lo em indicação no Senado

Flávio Bolsonaro recebeu R$ 4 milhões de advogado semanas antes de apoiá-lo em indicação no Senado
Flávio Bolsonaro no Senado - Foto: Carlos Moura/Agência Senado

O escritório de advocacia do senador Flávio Bolsonaro (PL) recebeu R$ 4 milhões da banca do advogado Edvaldo Nilo em duas transferências realizadas entre agosto e outubro de 2025, semanas antes de Nilo ter sua recondução ao Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) aprovada pelo Senado. Flávio votou a favor da indicação tanto na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) quanto no plenário, ambas as votações em 12 de novembro de 2025. Nilo justificou os repasses como pagamento por serviços advocatícios regulares prestados a clientes privados, mas a sequência de datas coloca em xeque a transparência da relação entre o senador e o advogado que buscava seu aval.
A cronologia dos Fatos
O primeiro repasse ocorreu em 6 de agosto de 2025, quando o escritório de Edvaldo Nilo transferiu R$ 2 milhões à sociedade de advocacia de Flávio Bolsonaro. O segundo pagamento, de igual valor, foi feito em 21 de outubro de 2025, segundo o próprio Nilo, 22 dias antes de o Senado votar sua recondução ao CNMP. Somados, os dois repasses totalizam R$ 4 milhões direcionados ao escritório do senador.
A aprovação de Nilo no Senado ocorreu em 12 de novembro de 2025, com Flávio Bolsonaro votando a favor nas duas etapas do processo: na CCJ, onde o voto é nominal e público, e no plenário, onde a votação é secreta. O Senado confirmou a participação de Flávio na sessão plenária, mas o sigilo do escrutínio impede conhecer sua posição individual naquela instância. O resultado foi de 54 votos a favor e apenas 3 contrários.
O que dizem os envolvidos
Edvaldo Nilo afirmou, em nota, que os pagamentos decorreram de contrato regular. “Os pagamentos realizados pelo Nilo & Almeida Advogados Associados à Flavio Sociedade de Advocacia decorreram de contrato de prestação de serviços advocatícios celebrado em abril de 2025”, declarou o advogado. Segundo ele, os serviços foram prestados em conjunto pelos dois escritórios a “clientes privados, sem qualquer envolvimento de recursos públicos ou participação de entes federativos”.
A nota fiscal emitida em 6 de agosto de 2025, no valor de R$ 2 milhões, descreve o serviço apenas como “Assessoria Jurídica”, sem detalhar a natureza do trabalho ou os clientes atendidos. A descrição genérica contrasta com o porte do escritório de Nilo: a Nilo & Almeida Advogados Associados, especializada em precatórios, reportou receita comercial líquida de R$ 143 milhões em 2025, obtida quase exclusivamente junto a órgãos públicos e hospitais beneficentes, o que torna a alegação de serviços exclusivamente privados um ponto que demanda esclarecimento.
Implicações
A sequência de eventos é direta: pagamentos milionários ao escritório de um senador, seguidos de votos favoráveis desse mesmo senador à aprovação do pagador para um cargo público de relevância institucional. A coincidência temporal levanta questões concretas sobre conflito de interesses e sobre os limites éticos das relações entre parlamentares e advogados que dependem de aprovação legislativa.
O caso ganha contornos adicionais quando se observa o histórico de Nilo com a família Bolsonaro. O advogado integrou a Comissão de Ética Pública entre 2022 e 2025 por indicação do então presidente Jair Bolsonaro (PL), pai de Flávio, e ocupa cadeira no CNMP desde 2023. A recondução aprovada em novembro de 2025 renova esse vínculo institucional. O escritório de Flávio, por sua vez, emitiu notas fiscais que somam ao menos R$ 13,7 milhões entre janeiro de 2023 e julho de 2026. Até o fechamento desta reportagem, nem o senador nem sua assessoria apresentaram explicação pública sobre os pagamentos ou sobre a ausência de impedimento para votar.

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