Flávio Bolsonaro vira alvo de novo pedido de investigação por corrupção e lavagem de dinheiro

Flávio Bolsonaro vira alvo de novo pedido de investigação por corrupção e lavagem de dinheiro
- Flávio Bolsonaro em ato em São Paulo (Miguel Schincariol / AFP)

O senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) virou alvo de um novo pedido de investigação criminal à Procuradoria-Geral da República (PGR) por suspeitas de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica, após a revelação de que seu escritório de advocacia recebeu R$ 4 milhões de uma banca comandada por Edvaldo Nilo de Almeida, advogado que dependia da aprovação do Senado para ser reconduzido ao Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).
A notícia de fato, apresentada nesta quarta-feira (21) pelo deputado federal Rui Falcão (PT-SP), também pede a apuração de eventual corrupção ativa por parte de Edvaldo Nilo, que transferiu os valores à sociedade de advocacia do senador nos meses que antecederam a votação. Flávio participou da deliberação, realizada em 12 de novembro de 2025, sem declarar impedimento.
O documento, obtido pela Fórum, pede à PGR a quebra dos sigilos bancário e fiscal dos envolvidos, o rastreamento dos R$ 4 milhões e a apuração de uma eventual relação entre os pagamentos milionários e o exercício do mandato parlamentar.
A representação também solicita que os fatos sejam examinados em conexão com uma investigação que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, envolvendo suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas ao senador e ao advogado Willer Tomaz, apontado como próximo da família Bolsonaro.
R$ 4 milhões e um voto no Senado
A suspeita levantada por Rui Falcão tem como ponto central a sequência de pagamentos realizados pelo escritório Nilo & Almeida Advogados Associados à Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia.
Segundo documentos fiscais revelados pelo Metrópoles e analisados na representação, foram emitidas duas notas fiscais de R$ 2 milhões cada, em 6 de agosto e 17 de outubro de 2025. Ambas trazem apenas a descrição genérica de “Assessoria Jurídica”, sem identificar os clientes atendidos ou os serviços que justificariam os valores.
A segunda transferência ocorreu em 21 de outubro, apenas 22 dias antes de o Senado votar a recondução de Edvaldo Nilo ao CNMP.
Em 12 de novembro, o advogado teve seu nome aprovado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), por 26 votos a 1, e posteriormente no plenário, por 54 votos favoráveis, três contrários e uma abstenção.
Flávio Bolsonaro participou da votação, sem declarar impedimento. Como o escrutínio foi secreto, os registros públicos não permitem identificar o sentido de seu voto. Segundo o Metrópoles, entretanto, o senador votou favoravelmente à indicação tanto na CCJ quanto no plenário.
A representação destaca que o artigo 306 do Regimento Interno do Senado exige declaração de impedimento quando um parlamentar tem interesse pessoal na matéria submetida à votação.
Para Rui Falcão, a combinação entre os pagamentos, a proximidade das datas e a participação do senador na votação justifica a abertura de uma investigação para determinar se houve uma contrapartida pelos valores recebidos.
Escritório de Flávio faturou R$ 13,7 milhões durante mandato
Os R$ 4 milhões pagos pela banca de Edvaldo Nilo representam aproximadamente 29% de todo o faturamento identificado do escritório de Flávio Bolsonaro entre janeiro de 2023 e julho de 2026.
Levantamento publicado pelo UOL, com base em 62 documentos fiscais, revelou que a sociedade individual de advocacia do senador faturou ao menos R$ 13,7 milhões nesse período, enquanto ele exercia o mandato no Senado. A Nilo & Almeida aparece como a maior pagadora identificada.
Outro dado destacado na representação é que aproximadamente metade das notas fiscais foi emitida para outros escritórios de advocacia, com descrições genéricas dos serviços prestados. Segundo o levantamento citado, consultas aos tribunais localizaram apenas um processo judicial relacionado aos clientes identificados.
Já o escritório de Edvaldo Nilo, especializado em precatórios, registrou receita comercial líquida de R$ 143 milhões em 2025, proveniente quase integralmente de órgãos públicos e hospitais beneficentes.
Edvaldo afirmou à imprensa que os R$ 4 milhões decorreram de um contrato firmado em abril de 2025 para a prestação conjunta de serviços jurídicos a clientes privados, sem utilização de recursos públicos. Não identificou, entretanto, os clientes ou as causas relacionadas aos pagamentos.
O advogado também possui vínculos anteriores com a família Bolsonaro. Em 2022, foi nomeado pelo então presidente Jair Bolsonaro para integrar a Comissão de Ética Pública da Presidência da República, onde permaneceu até 2025.
PGR é acionada para rastrear dinheiro no BRB e Santander
Além de investigar uma possível compra de apoio parlamentar, Rui Falcão quer que a PGR examine a movimentação financeira das contas utilizadas pelo escritório do senador.
As notas fiscais emitidas contra a banca de Edvaldo Nilo indicam uma conta no Banco de Brasília (BRB) para o recebimento dos valores.
A representação também menciona uma conta no Santander que, segundo informações atribuídas à Polícia Federal pelo UOL, teria vínculo com Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz em investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro em tramitação no STF.
Flávio e Willer negam ter compartilhado uma conta bancária.
O pedido apresentado à PGR solicita que sejam examinadas eventuais transferências entre as contas e a destinação final dos recursos, além da origem do dinheiro na sociedade pagadora.
Entre as diligências requeridas estão relatórios de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a apresentação dos contratos e documentos que comprovem a prestação dos serviços e a análise das movimentações bancárias entre janeiro de 2025 e fevereiro de 2026.
O deputado também pede que sejam ouvidos Edvaldo Nilo, a administradora da sociedade de advocacia do senador, Letícia Caetano dos Reis, e o próprio Flávio Bolsonaro.
Suspeita pode alcançar exercício da advocacia pelo senador
A representação levanta ainda uma possível infração constitucional relacionada à atuação de Flávio Bolsonaro como advogado durante o mandato parlamentar.
O artigo 54 da Constituição proíbe deputados e senadores de patrocinar causas em que sejam interessadas determinadas entidades públicas.
Como o escritório de Edvaldo Nilo tem forte atuação em precatórios e obtém grande parte de suas receitas de órgãos públicos, Rui Falcão pede que a PGR identifique os clientes efetivamente atendidos por Flávio.
Caso seja comprovada atuação em causas abrangidas pela proibição constitucional, o deputado solicita que os fatos sejam comunicados ao Senado e à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), para análise de eventuais consequências, inclusive a perda do mandato.
A notícia de fato também aponta a possibilidade, ainda sujeita à investigação, de que contratos e notas fiscais tenham sido utilizados para conferir aparência de legalidade a transferências financeiras relacionadas ao exercício da função parlamentar.
“A PGR precisa apurar a origem do dinheiro”, diz Rui Falcão
Ao justificar a representação, Rui Falcão afirma que a investigação é necessária para esclarecer se os pagamentos correspondem a serviços jurídicos efetivamente prestados ou se houve alguma vantagem indevida relacionada à votação no Senado.
“A questão central é esclarecer a natureza desses R$ 4 milhões, a efetiva prestação dos serviços e se houve alguma contrapartida relacionada ao voto parlamentar. Quando um senador recebe valores milionários de alguém cuja permanência em um órgão de controle depende de aprovação do Senado, os fatos exigem investigação rigorosa”, afirmou o deputado.
“A PGR precisa apurar a origem do dinheiro, a finalidade dos pagamentos e a eventual prática de crimes, sem deixar nenhuma dessas circunstâncias sem resposta”, completou.
A apresentação da notícia de fato não significa que a PGR tenha instaurado uma investigação ou que os crimes apontados estejam comprovados. Caberá ao Ministério Público avaliar os elementos apresentados e decidir sobre a adoção das diligências solicitadas.
Até a publicação das reportagens citadas na representação, a campanha de Flávio Bolsonaro não havia respondido aos questionamentos.

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