O advogado Mateo Scudeler, que administrou uma offshore de Willer Tomaz ligada ao jatinho utilizado pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), também atuava no escritório de advocacia do próprio Willer. Documentos oficiais da Câmara dos Deputados revelam que Scudeler exercia funções na banca Aragão & Tomaz Advogados Associados no mesmo período em que administrava a empresa registrada em Portugal.
A informação foi revelada pelo jornalista Cléber Lourenço, do ICL Notícias, em reportagem publicada nesta quinta-feira (22). A apuração identificou registros que ligam Scudeler ao escritório de Willer Tomaz e do ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão, incluindo uma comunicação enviada a uma comissão parlamentar em 2023 e documentos de um processo judicial de 2026.
Scudeler administrou a Alcazar Holdings, offshore sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, entre abril de 2023 e junho de 2026. A empresa pertence a Willer Tomaz e detém participação no jatinho Legacy 650, de matrícula PP-NLR, utilizado por Flávio Bolsonaro. O advogado e empresário mantém uma relação de amizade com o candidato e é investigado pela Polícia Federal.
Documento da Câmara revela ligação com escritório de Willer Tomaz
Uma das provas identificadas pelo ICL é um documento de 27 de junho de 2023, encaminhado à Comissão Parlamentar de Inquérito da Manipulação de Resultados no Futebol, na Câmara dos Deputados.
Na ocasião, Mateo Scudeler enviou uma petição da Kaizen Gaming, empresa responsável pela plataforma de apostas Betano. A comunicação partiu de um endereço institucional do escritório Aragão & Tomaz, no qual ele se apresentava como advogado sênior.
O documento também identifica Eugênio Aragão como advogado constituído para representar a Betano perante a CPI.
Naquela data, Scudeler já administrava a Alcazar Holdings havia aproximadamente dois meses. O registro comprova que as duas atividades profissionais ocorreram no mesmo período.
O nome do advogado voltou a aparecer ao lado de Willer Tomaz em documentos judiciais de 2026. Em um processo relacionado ao espólio do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira, Scudeler consta entre os profissionais que atuaram na causa, juntamente com Willer e a banca Aragão & Tomaz.
Os registros comprovam a atuação profissional, mas não esclarecem se Scudeler ainda mantém contrato de associação com o escritório.
Offshore de Willer Tomaz também aparece em investigação da PF
A Alcazar Holdings ganhou destaque nas investigações envolvendo a relação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz depois que documentos bancários obtidos pela Polícia Federal indicaram que o senador estava cadastrado como “usuário master” de uma conta vinculada à offshore.
Flávio e Willer negam ter compartilhado contas bancárias ou mantido relações financeiras. Ambos atribuem o registro a um erro cadastral.
A Revista Fórum já mostrou que empresas ligadas a Willer Tomaz aparecem nas investigações sobre viagens internacionais de Flávio Bolsonaro, incluindo deslocamentos em aeronaves executivas e pagamentos realizados por empresas vinculadas ao setor de apostas.
A Alcazar, administrada por Scudeler, detinha participação no Legacy 650 utilizado pelo candidato. A aeronave também ganhou repercussão por suas ligações empresariais com pessoas próximas ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Gestor da offshore também comandou associação de bets
As conexões profissionais de Mateo Scudeler se estendem ao mercado de apostas esportivas. Além de administrar a Alcazar, ele presidiu a Associação Nacional dos Operadores Estaduais de Jogos e Loterias (Opera Legal), entidade que representa empresas do setor.
Documentos do Supremo Tribunal Federal identificados pelo ICL mostram outra ligação entre a associação e o escritório Aragão & Tomaz: o ex-ministro Eugênio Aragão aparece como advogado da entidade em processos que discutem as regras para apostas e loterias estaduais.
A Opera Legal foi admitida como participante dessas ações em agosto de 2026, período em que Scudeler ainda figurava como presidente da associação em registros empresariais.
O escritório de Willer Tomaz, portanto, aparece nos documentos tanto na representação da Betano perante a CPI da Câmara quanto na atuação jurídica para a associação de operadores de apostas presidida por Scudeler.
Ex-ministro de Lula pediu saída da sociedade após primeiro turno
A revelação ocorre em meio à saída de Eugênio Aragão da sociedade que mantém com Willer Tomaz desde 2018.
Ao ICL Notícias, o ex-ministro da Justiça confirmou que comunicou seu desligamento em 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno das eleições presidenciais. A formalização, segundo ele, está prevista para 26 de outubro, um dia após o segundo turno.
Aragão explicou que a saída depende da regularização de processos nos quais ainda aparece como advogado constituído. Ele mantém outro escritório, Eugênio Aragão Advogados Associados, aberto em abril de 2023.
Willer Tomaz, por sua vez, é investigado pela Polícia Federal na Operação Sem Desconto, que apura descontos ilegais em aposentadorias e pensões do INSS. Em agosto, o endereço do escritório Aragão & Tomaz esteve entre os locais alcançados por medidas de busca autorizadas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
A decisão excluiu os demais sócios e advogados do alcance da investigação. Não há indicação, nos documentos apresentados pelo ICL, de que Eugênio Aragão ou Mateo Scudeler sejam investigados nesse procedimento.
Scudeler afirmou anteriormente que atuou na Alcazar Holdings como administrador contratado, sem participação societária, e negou conhecimento de irregularidades. Também sustentou que suas atividades profissionais não tinham relação entre si.
Willer Tomaz afirma que sua ligação com Flávio Bolsonaro é exclusivamente de amizade e nega ter compartilhado contas bancárias com o senador.
O ICL Notícias informou que procurou Willer Tomaz e Mateo Scudeler para esclarecer os vínculos profissionais identificados na reportagem, mas não recebeu resposta até a publicação.
Jatinho de Flávio: gestor de offshore de Willer Tomaz também atuou em seu escritório, revela site
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