Paulo Gustavo: relembre a morte do ator citada por Lula no debate

Paulo Gustavo: relembre a morte do ator citada por Lula no debate
mae de paulo gustavo. - Paulo Gustavo. Foto: Raquel Cunha/Folhapress

“Muita gente morreu na pandemia por irresponsabilidade”, lembrou o presidente Lula (PT) durante o debate com o senador Flávio Bolsonaro (PL), realizado na Globo nesta sexta-feira (23). 
O ator e humorista Paulo Gustavo, criador da icônica personagem Dona Hermínia, da franquia Minha Mãe É uma Peça, morreu em 4 de maio de 2021, aos 42 anos, em decorrência de complicações da Covid-19. A morte do artista provocou comoção em todo o país e ocorreu no momento mais grave da crise sanitária.
Naquele momento, a campanha de imunização brasileira avançava de maneira gradual, enquanto o governo do então presidente Jair Bolsonaro era alvo de críticas por atrasos nas negociações de vacinas, pela promoção de medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença e pela má condução das medidas sanitárias.
Paulo Gustavo chegou, inclusive, a manifestar publicamente sua angústia com a demora da vacinação. Em uma publicação nas redes sociais, escreveu: “Cadê a vacina, meu Deus?”, frase que se tornou uma das mais lembradas do período.
Ele estava internado desde 13 de março de 2021 no Hospital Copa Star, em Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Ao longo dos 53 dias de hospitalização, o ator enfrentou complicações graves da infecção pelo coronavírus, precisou de ventilação mecânica e foi submetido à oxigenação por membrana extracorpórea, conhecida pela sigla ECMO.
Nos últimos dias de internação, o estado de saúde do artista se agravou após uma complicação vascular. Segundo o boletim médico divulgado na época, Paulo Gustavo sofreu uma embolia gasosa disseminada, inclusive no sistema nervoso central, decorrente de uma fístula bronquíolo-venosa, que ocorre quando há uma comunicação anormal entre estruturas do sistema respiratório e um vaso sanguíneo.
Na noite de 4 de maio, às 21h12, a morte foi confirmada. O comunicado oficial informou que o ator havia falecido em decorrência da Covid-19 e de suas complicações.
Paulo Gustavo deixou o marido, o dermatologista Thales Bretas, com quem se casou em 2015, e os filhos gêmeos Romeu e Gael, que tinham cerca de um ano e oito meses na época.
Quando Paulo Gustavo foi internado, em março de 2021, a vacinação contra a Covid-19 no Brasil ainda estava concentrada nos grupos prioritários. A campanha nacional havia começado em janeiro daquele ano, após a autorização de uso emergencial das vacinas CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan em parceria com a Sinovac, e AstraZeneca, produzida inicialmente no país em parceria com a Fiocruz.
Como havia escassez de doses, o Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19 estabeleceu uma ordem de atendimento que priorizava profissionais de saúde, idosos, pessoas institucionalizadas e outros grupos considerados mais vulneráveis à doença ou mais expostos ao vírus.
Aos 42 anos, Paulo Gustavo não integrava o grupo prioritário por idade. Pessoas de sua faixa etária só seriam alcançadas gradualmente, conforme a ampliação da campanha e a disponibilidade de imunizantes.
A demanda por vacinas era elevada, mas a oferta de doses ainda não permitia a imunização imediata de toda a população adulta.
As razões para a escassez seriam investigadas alguns meses depois, com a instalação da CPI da Pandemia pelo Senado Federal, que apurou a condução da crise sanitária pela gestão de Jair Bolsonaro.
Em depoimento à CPI da Pandemia do Senado Federal, em 13 de maio de 2021, o então presidente regional da Pfizer para a América Latina, Carlos Murillo, afirmou que a farmacêutica havia apresentado propostas formais ao governo brasileiro em agosto de 2020, mas ficara sem resposta.
A primeira oferta oficial, apresentada em 14 de agosto, previa a possibilidade de aquisição de 30 milhões ou 70 milhões de doses, com a entrega de 500 mil doses ainda naquele ano. Propostas posteriores, enviadas em 18 e 26 de agosto, mantiveram essas opções e incluíram a possibilidade de entrega de 1,5 milhão de doses em 2020.
A Pfizer continuava a cobrar uma resposta do governo e, em 12 de setembro, o presidente mundial da empresa, Albert Bourla, enviou uma carta diretamente a Bolsonaro, na qual pedia um posicionamento formal sobre as propostas.
O relatório final da CPI apontou que o governo havia optado por contratar uma quantidade limitada de doses por meio do consórcio internacional Covax Facility, coordenado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em vez de aderir à opção que permitiria a aquisição de um volume maior de imunizantes. A comissão também examinou a demora nas negociações com diferentes fabricantes e as condições de aquisição das vacinas.
A CPI investigou, ademais, o incentivo de Bolsonaro e de sua base política ao chamado “tratamento precoce” contra o vírus, que defendia medicamentos como hidroxicloroquina e cloroquina, cuja ineficácia contra a Covid-19 era amplamente demonstrada por estudos científicos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já havia esclarecido, em março de 2020, que não existiam estudos conclusivos que comprovassem a eficácia desses medicamentos contra a doença e que não havia recomendação da agência para seu uso no tratamento ou na prevenção da infecção.
O relatório final apontou, entre outros aspectos, a falta de coordenação política, a insuficiência de campanhas de prevenção e os atrasos na aquisição de vacinas por parte do governo.
Ao longo dos trabalhos da CPI da Pandemia, surgiram também denúncias graves de suspeitas de corrupção e favorecimento na negociação de imunizantes, como foi o caso da vacina indiana Covaxin.
O Ministério da Saúde havia firmado um contrato de R$ 1,6 bilhão para a aquisição de 20 milhões de doses do imunizante, por intermédio da empresa Precisa Medicamentos, mas a contratação levantou questionamentos sobre o preço, a documentação apresentada pela intermediária, as garantias financeiras e a velocidade com que o processo avançou dentro do ministério.
Havia também divergências em documentos relacionados à importação das vacinas, e a compra acabou suspensa antes de ser concluída. O contrato não resultou na entrega das doses previstas, o que impediu a aquisição do imunizante pelo governo federal.
Recentemente, uma reportagem da revista piauí revelou que, enquanto tudo isso ocorria, Flávio Bolsonaro participava de uma festa em uma lancha no Lago Paranoá, em Brasília, com lobistas da Precisa Medicamentos, empresa que intermediava a venda da vacina indiana Covaxin ao Ministério da Saúde, em julho de 2020.

Leia também: Flávio Bolsonaro, garotas de programa e empresários: a festa em lancha durante a pandemia – Revista Fórum

O passeio foi bancado por Danilo Berndt Trento, diretor institucional, e Francisco Maximiano, dono da Precisa Medicamentos. Segundo a reportagem, o objetivo era facilitar o contato com o governo de Jair Bolsonaro para a venda do imunizante.

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