Uma garrafa de uísque avaliada em R$ 500 mil protagonizou um dos embates entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) no debate da TV Globo, nesta sexta-feira (23). O senador acusou o petista de ter recebido a bebida de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e perguntou provocativamente qual seria o sabor do presente milionário. Rapidamente, as buscas por “Whisky Macallan” explodiram no Google.
O problema é que não existe comprovação pública de que Lula tenha recebido o uísque. As mensagens utilizadas para sustentar a acusação mostram que Vorcaro encomendou uma garrafa da bebida para presentear o presidente, mas não demonstram que ela tenha chegado às suas mãos.
Ao ser confrontado, Lula rebateu: “Quem é amigo do Vorcaro é você. Quem é filhote do Vorcaro é você”. A resposta colocou no centro do debate a relação financeira documentada entre o banqueiro e Flávio Bolsonaro, investigada pela Polícia Federal.
O que é o Whisky Macallan de R$ 500 mil?
A história ganhou força após reportagem da revista Veja, publicada na quinta-feira (22), revelar mensagens encontradas no celular de Vorcaro. Em 29 de outubro de 2024, o banqueiro pediu a um funcionário que procurasse uma garrafa rara de Macallan 1945, uísque escocês de luxo.
“Preciso dar pro Lula”, escreveu Vorcaro. O funcionário encontrou uma garrafa avaliada em mais de 80 mil euros, aproximadamente R$ 500 mil, e informou que a bebida seria transportada de Dubai para o Brasil. Vorcaro aprovou a encomenda.
A controvérsia começou em setembro, quando a jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, divulgou uma mensagem do advogado Walfrido Warde, então ligado ao banqueiro. Nela, Warde afirmava que Lula havia agradecido pelo uísque e enviado um abraço a Vorcaro.
Entretanto, a credibilidade desse relato foi questionada por outro colunista do mesmo jornal, Lauro Jardim. Como repercutiu a Fórum, Jardim descreveu Warde como um advogado “boquirroto”, conhecido por alardear uma proximidade com Lula que não existe.
O colunista chegou a considerar mais provável que, caso a bebida tivesse sido enviada, ela nem sequer tivesse chegado ao destinatário. Ou seja, o suposto agradecimento é uma afirmação de Warde, não uma confirmação independente de Lula.
A Secretaria de Comunicação Social da Presidência negou que Lula tenha recebido qualquer presente de Vorcaro ou enviado recados ao banqueiro. O governo confirmou apenas um encontro entre os dois, em 4 de dezembro de 2024, no qual, segundo o Planalto, o presidente determinou que eventuais questões envolvendo o Banco Master fossem tratadas tecnicamente pelo Banco Central.
O banco acabou liquidado pela autoridade monetária em novembro de 2025, durante o governo Lula, e Vorcaro foi preso pela Polícia Federal. Flávio apresentou um pedido de investigação ao Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o suposto presente, mas não há comprovação de que Lula tenha recebido a garrafa ou oferecido qualquer contrapartida ao banqueiro.
Flávio Bolsonaro e os milhões de Vorcaro
Enquanto tenta vincular Lula ao escândalo do Banco Master por meio de um presente cuja entrega não foi comprovada, Flávio Bolsonaro mantém uma relação financeira com Vorcaro documentada em mensagens, contratos e transferências bancárias investigadas pela Polícia Federal.
O senador atuou diretamente nas negociações para supostamente financiar Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. O contrato previa investimentos de aproximadamente R$ 134 milhões, dos quais pelo menos R$ 61 milhões foram repassados para estruturas ligadas à produção cinematográfica.
Segundo a PF, Flávio foi interlocutor direto de Vorcaro, participou de reuniões e cobrou pagamentos. O ministro André Mendonça, do STF, autorizou a abertura de inquérito para investigar suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas relacionadas às operações financeiras do filme.
O candidato do PL nega irregularidades e afirma que os recursos foram destinados integralmente à produção, sem qualquer contrapartida relacionada ao exercício de seu mandato. A Polícia Federal, entretanto, ainda busca esclarecer a origem, o caminho e o destino final do dinheiro.
A diferença entre os dois episódios é fundamental: no caso do uísque atribuído a Lula, existem mensagens sobre uma encomenda e o relato contestado de um terceiro sobre a entrega. Já no caso de Flávio, há registros de negociações diretas e transferências milionárias, que continuam sob investigação.
O que é a história do Whisky Macallan que Flávio Bolsonaro falou no debate da Globo?
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