Flávio Bolsonaro escala Nikolas Ferreira e outros extremistas para atacar Janja

Flávio Bolsonaro escala Nikolas Ferreira e outros extremistas para atacar Janja
Flavio Bolsonaro, Nikolas Ferreira , Janja - Montagem Revista Fórum com fotos de Ton Molina/Agência Senado; Pablo...

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) escalou Nikolas Ferreira (PL-MG), Júlia Zanatta (PL-SC) e outros integrantes da extrema direita para atacar a primeira-dama Janja Lula da Silva nas redes sociais. O candidato do PL à Presidência, no entanto, evita entrar pessoalmente no confronto enquanto tenta conter o desgaste de sua campanha entre as mulheres.
A ordem é concentrar os ataques na participação de Janja em eventos oficiais, nas viagens do presidente Lula e na estrutura pública mobilizada durante essas agendas. A estratégia foi revelada nesta segunda-feira (27) pela coluna Painel, da Folha de S.Paulo, que ouviu integrantes da campanha de Flávio.
Flávio Bolsonaro terceiriza ataques contra Janja
Um dos primeiros a cumprir a missão foi o deputado federal Nikolas Ferreira. Em vídeo publicado no Instagram, ele retomou o rótulo de “gastadeira” contra Janja e afirmou que uma estrutura relacionada à primeira-dama teria consumido R$ 1,2 milhão em recursos públicos.
Júlia Zanatta seguiu a mesma linha. A deputada afirmou que viagens, diárias, assessores, hospedagens e uma suposta estrutura paralela ligada à primeira-dama teriam custado mais de R$ 117 milhões.
As duas cifras foram apresentadas pelos parlamentares como parte da ofensiva política. A publicação que revelou a estratégia não apresentou documentos, memória de cálculo ou uma divisão das despesas que permita identificar quanto teria sido gasto exclusivamente em razão da participação de Janja.
O valor divulgado por Zanatta também reúne categorias distintas, como viagens presidenciais, hospedagens, servidores e eventos oficiais. Sem a abertura detalhada das despesas, não é possível tratar o total como gasto pessoal da primeira-dama.
Flávio Bolsonaro está 16,2 pontos atrás entre as mulheres
A cautela de Flávio Bolsonaro tem explicação eleitoral. Pesquisa Meio/Ideia divulgada em 8 de julho mostrou Lula com 50,4% das intenções de voto entre as mulheres, contra 34,2% do candidato do PL em uma simulação de segundo turno.
A diferença de 16,2 pontos percentuais contrasta com o resultado entre os homens. Nesse segmento, Flávio aparece com 46,3%, enquanto Lula registra 39,2%. O levantamento ouviu 1.500 eleitores entre 3 e 6 de julho e foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo BR-05628/2026.
A desvantagem não se limita ao recorte feminino. O Datafolha divulgado na última semana colocou Lula com 40% e Flávio Bolsonaro com 32% no primeiro turno. Em uma disputa direta, o presidente aparece com 48%, contra 43% do senador.
O eleitorado feminino, portanto, representa um dos principais limites para o crescimento do candidato bolsonarista. A campanha tenta explorar ataques contra Janja sem expor diretamente Flávio ao custo de uma nova ofensiva contra uma mulher.
“Brasil por Elas” não conteve desgaste de Flávio
A terceirização dos ataques ocorre após a campanha lançar o programa “Brasil por Elas”, apresentado como uma plataforma de propostas para o público feminino. A Fórum mostrou que o projeto ganhou prioridade depois do desgaste provocado pela crise com Michelle Bolsonaro e por declarações misóginas de aliados do clã.
Uma das propostas anunciadas pelo grupo é usar a Caixa Econômica Federal para estimular o empreendedorismo e a independência financeira de mulheres. O plano foi formulado com participação de Daniella Marques, ex-presidente do banco durante o governo Jair Bolsonaro e nome citado para compor a chapa de Flávio.
A campanha também decidiu ampliar o papel de Fernanda Bolsonaro. A dentista, esposa do candidato, discursou no sábado (25) durante a convenção do PL que oficializou Flávio na disputa presidencial.
Fernanda já havia sido colocada na linha de frente durante a disputa interna entre Flávio e Michelle Bolsonaro. Como mostrou a Fórum, ela foi mobilizada para defender o marido quando o conflito no clã veio a público.
Agora, sua presença será usada para tentar suavizar a imagem do candidato entre as eleitoras. Ao mesmo tempo, Nikolas, Zanatta e outros aliados ficam encarregados da parte mais agressiva da campanha contra Janja.
Nikolas Ferreira repete ataques contra Janja
A nova ofensiva repete uma estratégia já utilizada por Nikolas Ferreira. Em março, durante a mobilização da extrema direita contra o projeto que equipara a misoginia ao crime de racismo, o deputado chamou Janja de “sonsa” e publicou ataques contra a primeira-dama.
Janja respondeu ao parlamentar e defendeu a aprovação da Lei da Misoginia. A primeira-dama afirmou que mulheres são atacadas quando ocupam espaços públicos e criticou a tentativa de transformar violência política de gênero em liberdade de expressão.
O deputado voltou ao tema em julho, depois de Janja afirmar que o rótulo de “gastadeira” reproduz um ataque misógino usado contra primeiras-damas. A resposta de Nikolas foi incorporada à estratégia eleitoral de Flávio.
A divisão de tarefas expõe o cálculo da campanha: Flávio Bolsonaro tenta colher o desgaste produzido pelos ataques sem aparecer como autor direto da ofensiva. O resultado da manobra será medido justamente no segmento em que o candidato enfrenta sua maior desvantagem, o voto das mulheres.

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