“Militar do Paraná” cobrava R$ 20 por acesso a vídeos de tortura

“Militar do Paraná” cobrava R$ 20 por acesso a vídeos de tortura
Militar do Paraná - Foto Ilustrativa. Crédito: Guilmann/Wikimedia Commons – CC BY-SA 3.0

O perfil “Militar do Paraná” cobrava R$ 20 para liberar o acesso a um grupo no Telegram abastecido com vídeos de agressões, humilhações e cenas de tortura atribuídas a policiais militares. Os administradores anunciavam mais de cem vendas e usavam o Instagram como vitrine para atrair novos assinantes.
A apuração do jornalista Bruno Soares, do site Plural, revelou que o canal também reunia marcações e colaborações de perfis identificados como policiais militares do Paraná. Em áudios, o administrador dizia apagar arquivos capazes de comprometer agentes e alertava os participantes sobre a presença da inteligência da PM no grupo.
https://www.instagram.com/reel/DbTXNUtOjSn/?igsh=MWJsNDFzOHM0YWFycQ==
Instagram atraía assinantes para grupo com vídeos de tortura
O esquema funcionava em duas etapas. No Instagram, o “Militar do Paraná” publicava trechos desfocados das imagens mais violentas. No Telegram, oferecia o conteúdo completo mediante pagamento.
As chamadas tratavam a violência como produto. Em uma delas, a página exibia a imagem de um corpo cercado de sangue e anunciava que o grupo estava “gostosinho”. A publicação vinha acompanhada da oferta de acesso por R$ 20.
Segundo a apuração, o perfil surgiu em setembro de 2025 com postagens de exaltação à atividade policial. Nos meses seguintes, passou a concentrar o conteúdo em abordagens violentas, pessoas feridas e cadáveres.
Homens eram obrigados a entrar em rio e apagar fogueira com o corpo
Um dos vídeos mostra um homem obrigado a entrar em um rio durante um dia de frio intenso em Curitiba. Dentro da água, ele é forçado a repetir frases de exaltação à Polícia Militar do Paraná, enquanto pessoas que acompanham a cena riem.
Em outra gravação, um homem é obrigado a se deitar sobre uma fogueira para apagar as chamas com o próprio corpo. Ele recebe chutes enquanto tenta cumprir a ordem.
O acervo também incluía imagens de pessoas feridas após abordagens, corpos com marcas de violência e um homem que, durante atendimento médico, afirma ter sido agredido por policiais.
Administrador dizia apagar vídeos que comprometiam policiais
Os áudios obtidos por Bruno Soares mostram que o responsável pelo grupo controlava o material que permanecia disponível. Em uma das mensagens, ele afirma que determinados arquivos eram apagados porque poderiam comprometer policiais.
Em outro trecho, o administrador alerta os assinantes sobre a suposta presença de agentes da inteligência da PM no canal. A fala indica temor de monitoramento e preocupação com a circulação das gravações.
A reportagem também identificou ao menos 20 perfis de policiais militares da ativa marcados ou apresentados como colaboradores em publicações do “Militar do Paraná”. Havia ainda comentários, compartilhamentos e agradecimentos feitos por contas associadas a agentes de segurança.
As interações públicas não demonstram, por si só, que todos os policiais citados participavam do grupo pago ou conheciam os vídeos distribuídos no Telegram. A identidade dos administradores e a origem de todas as gravações ainda não foram esclarecidas.
Gaeco abre apuração sobre grupo pago no Telegram
O deputado estadual Renato Freitas (PT-PR) encaminhou o material ao Ministério Público do Paraná e pediu a identificação dos responsáveis pelo perfil e de eventuais agentes envolvidos na produção e no compartilhamento das imagens.
O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o Gaeco, abriu uma Notícia de Fato para avaliar se há elementos suficientes para uma investigação formal. O procedimento corre sob sigilo.
O caso se soma a outros episódios de violência policial registrados no estado. A Fórum já publicou imagens de policiais militares do Paraná torturando jovens e rindo das agressões dentro de uma unidade da corporação.
A apuração do Gaeco deverá esclarecer quem administrava o “Militar do Paraná”, como os pagamentos eram recebidos e se policiais participaram da produção, do fornecimento ou da exclusão dos vídeos.

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